segunda-feira, 16 de abril de 2018

Cidade Escola: Fabricando Brinquedos



Existem núcleos dentro do programa Cidade Escola que chamam a atenção pela grandiosidade dos números alcançados, tanto pela quantidade de participantes como também pela extensão de bairros e escolas atingidas. Caic e Centro são dois exemplos, milhares de pessoas e estudantes beneficiados pelas dezenas de atividades desenvolvidas nestes locais.

Mas, também existem núcleos bem menores, onde se revela por inteiro a expressão popular, “tamanho não é documento”. É o caso de uma das sedes do núcleo Vila Formosa, instalado em uma das escolas de educação infantil mais tradicionais de Alfenas chamada Emei Lago Azul.



No ano passado, a direção da escola cedeu uma sala para a realização de algumas atividades do Cidade Escola. 

E aulas de karatê, violão, teatro, capoeira, contação de histórias, artesanato, crochê e bordado, começaram a ser oferecidas a comunidade.

Quem vê, hoje, a pequena sala, colorida e alegre, não consegue imaginar como este cenário foi transformado. 

Portas quebradas, armários sucateados, receberam o toque mágico das mãos de crianças e jovens das oficinas de artesanato e de outra atividade diferenciada, única e especial dentro do Cidade Escola. Até pelo seu nome, ela já desperta curiosidade.



“Fabricando Brinquedos” é muito mais que uma oficina de arte. Revela de forma sutil, transformações fundamentais que o programa Cidade Escola procura provocar no desenvolvimento e vida das pessoas. 

Utilizando material recicláveis como garrafas pet, caixas de leite e de pasta de dente, papelão, revistas velhas e retalhos de tecidos, um pequeno grupo de crianças entre 8 e 14 anos constrói diversos brinquedos para serem doados para a brinquedoteca existente na escola ou para eles mesmos e seus familiares.



Com pouco mais de um ano de atividade, produziram brinquedos encantadores, como bilboquê com garrafa pet, sofazinhos da Barbie, casinhas de boneca, geladeirinhas, hand spinner, vai e vem, labirinto, bonecas feitas com tampinhas de garrafa plástica, almofadas, gatinhos feitos com garrafa plástica, tampa olhos para crianças dormirem, travesseiros de nuvem e muito mais que a criatividade permitiu.




Marcelo Divino, coordenador do núcleo
Vila Formosa e crianças da oficina Fabricando Brinquedos
A ideia do Fabricando Brinquedos surgiu da experiência de um casal de artistas em outro projeto cultural. Marcelo Divino e Lilian Valentin são casados e trabalham juntos no núcleo Vila Formosa do Cidade Escola. Além de coordenar o núcleo, Marcelo também é ator e criador de uma companhia de teatro na cidade. 

Lilian é integradora cultural do Cidade Escola, apaixonada por crianças e artesanato.

Em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo, os dois trabalharam juntos em um projeto cultural dentro de uma das escolas da cidade. Lilian nunca foi artesã, faz arte por gostar desta atividade. Há 4 anos trabalha com Educação Infantil. 








Lilian, integradora do Cidade Escola
e crianças da oficina em Alfenas
“Toda vez que fazíamos um projeto em Mogi, apostava em programar um Show de Talentos. Só que não havia dinheiro para comprar brindes para premiar as crianças. Sempre quis saber o que elas gostariam de ganhar. Os meninos, quando era lançado o filme do Homem Aranha, era só Homem Aranha. Na época, outro desenho que curtiam era o Minecraft. 

Fabricando Brinquedos surgiu destes brindes que produzíamos para premiar as crianças que participavam do Show de Talentos e todo e qualquer evento que a escola decidia realizar. 

Pegávamos datas especiais, como a Semana da Criança, e modificávamos as oficinas regulares que teriam e realizávamos o que eles gostariam de fazer. 

Quando comecei a trabalhar no Cidade Escola, como voluntária, passei a desenvolver essa mesma atividade. Criei o nome Fabricando Brinquedos e começamos a produzir com as crianças”.





 E um mundo de ideias começou a surgir. “Na primeira reunião que fiz com eles, no PSF, tinha em mente (e ainda tenho) um projeto para confeccionar brinquedos para que fossem distribuídos no Dia das Crianças ou Natal para a população do bairro. 

A ideia original era essa, mas a questão da dificuldade para termos materiais para muitas crianças, além de um número reduzido de crianças para produzir, acabou fazendo a gente mudar de ideia”.













Com a mudança de sede da atividade Fabricando Brinquedos para a escola Lago Azul, Lilian e as crianças definiram o destino de suas criações. 


“Existe uma brinquedoteca na escola, só que a quantidade ainda é pequena. Recebemos muita doação, mas sempre falta, então, pensamos em fabricar mais brinquedos para serem utilizados na própria creche. 

O projeto Fabricando Brinquedos surgiu assim, com a ideia de doarmos a produção para a creche. E eles acabaram ‘comprando’ essa ideia, ficaram super animados”.



Do grupo original formado por 10 crianças, entre 8 e 14 anos, na sede do PSF de Vila Formosa, restaram poucas crianças. Mas isso não foi problema. Em poucos dias, um novo grupo já estava formado. Letícia, Isabele, Joyce, Vitória, Érica, Bruna, Pedro, Tiago e Rasídio não param de fabricar brinquedos.

E como tudo que é fabricado é decidido por eles mesmos, definir o que meninos e meninas queriam produzir poderia ser um problema. 

“Mas não foi. Eles são amigos e acabam produzindo os mesmos brinquedos, para dar para as mães. Tiago, por exemplo, gosta de fabricar unicórnio para dar para sua mãe. Pedro, dá para a avó. Quando o brinquedo é de menino, todos também fazem, mas, parece que eles não fazem com tanta alegria, por ser diferente das meninas. 



Gostam de participar da mesma atividade delas. A alegria deles de ter o brinquedo para dar para alguém é muito maior do que fazerem para eles mesmos. É muito louco isso. No começo até estranhamos. 

Quando fizemos um coelhinho da páscoa, coloquei chocolate dentro e eles decoraram a embalagem. 

Para os meninos, disse que poderiam pintar de azul ou verde, mas, disseram que não, que fariam cor de rosa, para poderem presentear a mãe ou a avó”, afirma Lilian.



E uma descoberta foi feita. “Instintivamente, acabaram praticando um dos princípios do programa Cidade Escola, que é o da igualdade, de não haver diferenças entre homens e mulheres. Hoje já não há diferenciação entre brinquedos para homens ou mulheres. Crianças podem e devem brincar com todos eles, porque brincam juntos, e como a maioria é de meninas, eles entram na onda e brincam juntos”, reforça Marcelo Divino.


Para otimizar a produção, Lilian criou um processo de criação e uma forma de se relacionar com as crianças. “Penso e discuto com eles o que querem fazer. Vou para casa, listo tudo o que vamos precisar para fabricar e peço a eles o material necessário, através de mensagens enviadas em um grupo criado no whatsapp”.



Crianças da oficina com o Hand Spinner fabricado por eles.
E deste processo, surgiram dezenas de brinquedos. Alguns, simples, outros, nem tanto assim. “Quando mudamos do PSF para a escola Lago Azul, as crianças queriam fabricar o brinquedo que estava na moda, chamado Hand Spinner, porque o original era caro demais, 30 reais. A maioria dizia que não tinha condições de comprar. Disse a elas que iria pesquisar como se fazia e daria uma resposta. Vi que era possível fabricarmos algo similar. Então, pegamos papelão para fazer a parte central, palitos de dentes e uma rodinha de E.V.A. Desenhávamos um molde e eles pintavam do jeitinho que queriam. Meninos colocavam figuras de homens, enquanto as meninas, borboletas, coraçãozinhos. Cada um fez o seu. E deu certo, girava direitinho, como no brinquedo original. Ficaram tão eufóricos quando viram que funcionava. Foi o brinquedo mais complicado que fizemos até agora, porque havia toda uma engenharia para o fazer girar”.



Crianças durante a festinha das estrelinhas
Lilian e Marcelo tinham também outra preocupação quando começaram a desenvolver a atividade Fabricando Brinquedos. Como manter um grupo de crianças e jovens entretidos, organizados e concentrados? “Por questão de comportamento, às vezes, eles dispersam, então, criamos ‘estrelinhas’. A cada dia, ganham ou não uma, caso tenham bom comportamento. Se não ganharem, ainda perdem a recebida na semana anterior. A ideia é que façam tudo bonitinho, porque queremos que tenham capricho, não podem fazer de qualquer jeito. Os brinquedos ficarão para eles, quando o material é cedido por eles mesmos. Mas, quase nunca perderam estrelinhas, porque sempre se comportam bem. E quando é assim, ganham como prêmio uma festinha, na última aula do brinquedo que estiverem fabricando. Brincam com os próprios brinquedos que fabricaram. Tem comes e bebes, dançam, brincam na área externa da creche, fazem o que quiserem. A festa deles é brincar”, recorda Lilian Valentin.






No dia em que esta reportagem foi produzida, o grupo de crianças estava fabricando um brinquedo chamado Vai e Vem. Utilizaram garrafas de plástico, barbante e argolas para serem colocadas nas pontas. A decoração era livre para cada um. Também fizeram ‘gatinhos’, e já pediram também para Marcelo e Lilian a produção de um labirinto, feito com canudinhos e caixas de sapatos. A criatividade nunca para. Já sonham também com uma boneca, feita com tampinhas de garrafas plásticas. “Sempre pensamos em algo que estimule a criatividade deles, não pensarem só em temas atuais. Pensamos também em brinquedos que resgatem a infância dos seus pais e familiares. Vamos fazer, por exemplo, ‘Pé de Lata’, utilizando latas de leite ninho. O bacana destes brinquedos retrôs é que quando chegam em casa, o pai ou a mãe conhecem e eles acabam brincando juntos”, confirma Lilian Valentin.



E assim, pensando e criando juntos, as crianças do Fabricando Brinquedos acabam descobrindo uma nova forma de se relacionar. “Neste grupo, atual, conhecemos todos, porque moram próximas umas das outras, brincam juntas na rua ou em casa, com os próprios brinquedos que produziram. Se conhecem das escolas em que estudam, Dirce, Coronel, Polivalente. Um foi chamando o outro, passando na casa de um e outro, caminhando até aqui, juntos. E também vão embora juntos, cada um ficando em sua casa, até que sobre apenas um”.



Marcelo Divino vai além na explicação da importância deste contato e proximidade entre eles. “É bom para saírem um pouco de casa. Crianças tem que ter contato com a rua, por mais que façam uma brincadeira ‘boba’, ela tem suas regras e é educativo. Criança tem que conhecer internet, computador, celular, conhecer e fazer edição de fotos, que, no caso deles, fazem em suas páginas pessoais no facebook. Produzindo no Fabricando Brinquedos, acabam não perdendo o uso da tecnologia, mas, desenvolvem, também, habilidades manuais e lúdicas. Muitas dessas crianças não têm irmãos, por isso é importante esse contato com a rua. Se não existisse essa atividade, estariam todos em casa, brincando ou mexendo apenas com seus celulares ou jogando vídeo game”.




Os benefícios alcançados com as crianças nas atividades Fabricando Brinquedos e Artesanato não param por aí. “As duas atividades trabalham muito, também, com a memorização. Crianças chegavam aqui não sabendo sequer colocar uma linha em uma agulha. Agora, já sabem costurar qualquer objeto. Não tinham destreza manual, sintonia fina. Outro benefício é o aumento da concentração e atenção. A Bruna pertencia à primeira turminha do PSF Vila Formosa. Era muito agitada, não conseguia ficar sentada. Tem apenas 10 anos. Não conseguia se concentrar, era tão agitada que não conseguia segurar qualquer coisa. Chegava a tremer. Hoje, parece outra criança, se concentra, faz tudo direitinho, nem parece ser a mesma criança. Pedro, quando chegou, tinha bastante dificuldade para recortar qualquer coisa. Não conseguia cortar em linha reta, não costurava, coordenação motora muito ruim. Tiago era hiperativo, não tinha atenção. Todos mudaram”, afirma Marcelo Divino.



E não são só benefícios físicos. Lilian descobriu na evolução da atividade Fabricando Brinquedos outros pontos fundamentais que o programa Cidade Escola procura fomentar. Solidariedade e companheirismo. 

“Quando fabricamos o unicórnio, passei a lista de materiais que seriam utilizados. Todo mundo trouxe o seu, menos a Bruna. E ela queria muito participar da atividade neste dia. 

Ficou tão triste que acabou indo embora da aula. No dia seguinte, a mãe da Bruna comprou o material, mas ficou faltando um tecido, um feltro de cor rosa. Então, outra menina, Érica, chegou para mim e pediu: ‘Sobrou um pouco do meu material, vamos fazer o da Bruna, porque ela ficou triste?’. 

Cada um dos outros amigos e amigas, deu um pouco do tecido que havia sobrado e fizeram. Aqui, se um faz, todos tem que fazer”.





Lilian e os espantalhos fabricados
pelas crianças para a horta de Tharley
E não é apenas entre as crianças que o ambiente de solidariedade acontece no núcleo do Cidade Escola instalado na pequena sala da escola Lago Azul. As dificuldades estruturais existentes nunca foram um problema. “Também fazemos parcerias entre as atividades. A integradora Helena, que faz a atividade de contação de histórias, precisou de um fantoche, um dia, para contar a história da Cigarra e a Formiga. Lilian fez, ficou lindo. Há muita integração entre as diversas atividades. Tharley, integrador responsável pela horta, faz parceria com a Lilian direto. Além de plantar e reformar o armário onde ele guarda suas coisas, elas, por exemplo, fizeram espantalhos para ele colocar na horta. Correram atrás do material, a Lilian arrumou algumas coisas, Tharley arrumou os chapéus e as crianças montaram. Ficou tão lindo que Tharley só os utiliza em dias de sol, para não estragarem com a chuva”, afirma Marcelo Divino.



O armário de Tharley reformado pelas crianças
E assim, dia a dia, Lilian e Marcelo seguem desenvolvendo as diversas atividades oferecidas pelo Cidade Escola, no pequeno espaço transformado em vida, na escola Lago Azul. Se as crianças envolvidas na oficina Fabricando Brinquedos estão mudando e melhorando suas rotinas e comportamentos, Lilian, a inventora da atividade, só tem a agradecer. “É a melhor parte da minha semana, porque gosto muito. O importante para mim, como mãe, e tendo minha filha ainda ao meu lado, é saber que estou ajudando todos eles a saírem da rotina deste mundo virtual, internet, celular. Fazer com que aproveitem um pouco mais a vida, porque, antigamente, não existia nenhuma dessas tecnologias e a gente era feliz. As pequenas coisas têm muito mais valor do que passar o dia na frente de um computador mexendo na internet. Eles aprendem muito mais, aqui, nas poucas horas que passam com a gente, do que em um dia inteiro no celular. Isso é gratificante para mim”.



É fácil compreender porque as aulas de artesanato no núcleo Lago Azul não tem a participação de crianças. 

Adultos preferem fazer enfeites, para decorar as próprias casas. Crianças não querem apenas fabricar brinquedos, preferem construir algo que permita a integração entre eles.

Fabricando Brinquedos não é só uma oficina de artes. É brincadeira transformando vidas.














































































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