quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Cidade Escola: Karatê, caminhos para a vitória


Entre as dezenas de atividades do programa Cidade Escola existe uma que é a recordista em número de participantes, formadora de atletas e colecionadora de títulos. O Karatê teve, só no ano passado, quase 500 praticantes inscritos e, entre eles, 30 atletas que passaram a fazer parte da seleção permanente do esporte do Estado de Minas Gerais. Tudo por conta da tradição formada nos últimos 40 anos de existência do esporte em Alfenas.

História consolidada pela dedicação e paixão de poucas pessoas, mas de uma em especial. Seu nome é Osvaldo Natal Correia, também chamado pelo apelido “Chico”.



Tudo começou no ano de 1979, quando Osvaldo, um jovem de 22 anos, descobriu, por acaso, sua paixão pelo Karatê. Chico gostava de assistir filmes de Bruce Lee, Kung Fu, Karatê Kid, época que, em Alfenas, existiam apenas academias de judô. “Não me adaptei ao judô, gostava de ficar assistindo filmes de artes marciais e treinando, sozinho. Um amigo me disse que uma pessoa em Alfenas estava dando aula de karatê, no antigo colégio Atenas, no centro. Fui sozinho, sem meu amigo. Quando cheguei nas escadarias, comecei a ouvir muitos gritos. Fiquei assustado e voltei, e disse para mim mesmo, ‘não vou mexer com esse negócio não’”.

Mas o destino de Osvaldo no Karatê estava traçado. A data de 9 de fevereiro de 1980 nunca mais foi esquecida. E, novamente, o acaso iria conspirar a seu favor. “Era uma segunda-feira. Fui no Sarai (Centro Espírita), onde estava acontecendo aulas de artes marciais. Vi uns caras chutando, muito legal, ‘caramba, é isso aqui que quero fazer, amanhã volto’”.




E voltou. “Mas, no dia seguinte, não eram os mesmos caras. No dia anterior, quem estava dando aula era um moreno, professor de Taekwondo, Expedito, mas eu não sabia. No outro dia, era um loiro dando aula. Quando pensei em ir embora, ele me chamou e perguntou: ‘vamos fazer uma aula’? Guardo até hoje o dia, 9 de fevereiro. Era aula de karatê, mas, na época, nem sabia o que era. Comecei a praticar, o pessoal me tratou muito bem. Daí em diante, não parei mais”.

E lá se vão quase 40 anos de paixão e luta pelo Karatê. O professor, loiro, lembrado por Osvaldo, era de Mogi Guaçu, interior de São Paulo, estudante da primeira turma de Veterinária, da Unifenas, Roberto Carlos S. Filho, faixa preta, primeiro Dan, pela Federação Paulista. 


Sidnei, Mantovani, Osvaldo e Irajara (esquerda para direita):
pioneiros do Karatê alfenense
“Karatê e Taekwondo, chegaram pelas mãos do Expedito e do sansei Roberto, no ano de 1977. Os dois trouxeram as artes marciais para Alfenas. Roberto deixou como discípulo um menino de Carmo do Rio Claro, mas, que morava em Alfenas, Mantovani Borges do Amaral, seu ex-aluno. Acompanhamos ele até parar, quando se formou na faculdade. Foi embora, e me deixou como seu discípulo, a terceira geração. Sansei Mantovani foi o primeiro faixa preta formado em Alfenas, pela Associação de Ribeirão Preto. E eu, o primeiro faixa preta formado pela Federação Mineira de Karatê”.




Professor Mantovani e Osvaldo, nas primeiras aulas.
Ouvindo esse relato, parece que a trajetória do professor Osvaldo foi fácil. Muito pelo contrário. Um caminho repleto de dificuldades e batalhas. “Viajávamos direto, duas, três vezes por ano. Íamos para Mogi Guaçu treinar. Não existia internet para pesquisar as dúvidas que tínhamos. O jeito era ir para São Paulo, treinar e memorizar, porque cada um memorizava uma parte, para poder fazer um treino completo quando voltávamos para Alfenas”.

Mas treinar onde? “Frequentamos diversos locais na cidade. O aluguel ficava caro, circulava para outro lugar. Treinamos na Praça de Esporte, Tiro de Guerra, União Operária, Centro Católico, Lar São Vicente, vários lugares”.


Professor Osvaldo, aplicando golpe com as pernas.
Viver do Karatê era (e continua a ser) impossível. Osvaldo trabalhava o dia inteiro, para ajudar no sustento da família, e a noite, treinava, todos os dias da semana. Como atleta, disputou diversos campeonatos na categoria adulto e máster, por ter iniciado o esporte muito tarde. Era muito respeitado pelos adversários, pelo alcance enorme que tinha nos golpes com as pernas. Ganhou diversos títulos chegando até o vice-campeonato brasileiro interestilos. “Viajávamos sempre para competir, sempre com recursos próprios. Às vezes, a prefeitura liberava o transporte, e, quando não, alugávamos ônibus, carro, pegávamos carona. Juntamos muitas vezes com o pessoal de 3 Corações. Saíamos daqui e íamos até lá para irmos com eles. A equipe de Alfenas era forte, eu, Sidnei Quintino Vieira, Irajara Abade da Costa, Jucelino Costa Bem. A gente ralava muito, às vezes, não tínhamos dinheiro nem para se alimentar. Íamos de carona, mas a volta nem sempre era garantida. Chegamos a ficar em rodoviária, esperando amanhecer, com a medalha conquistada no peito”.



Década de 1980: Osvaldo, Sidnei, Jucelino, Irajara e amigos.
Quando chegou a faixa marrom, Osvaldo começou a dar aulas. E mais uma vez, um caminho repleto de dificuldades. “Meu professor começou a fazer faculdade, em 3 Corações, e ele deixava as aulas de terças e quintas para mim. Dei aula até meu professor se formar e passar a academia para mim. Não tínhamos lugar fixo. Aluguel ficava caro, corríamos para outro lado, não parávamos. Chegamos a treinar no quintal da horta do meu professor, onde havia um quiosque. A dificuldade era enorme. Karatê era um esporte de elite, treinava quem tinha dinheiro”.





Até que Osvaldo descobriu uma nova forma de continuar sua batalha pela sobrevivência e o futuro do karatê em Alfenas. Em 1993 ele se formou faixa preta, primeiro Dan. “Comecei com meu projeto social por conta disso. Chegava lá, o aluno dizia: ‘não vou treinar esse mês porque não tenho dinheiro’. Eu dizia: ‘então ajude a pagar uma parte do aluguel da academia’, porque uma parte da mensalidade era deles, e outra minha. Eu liberava a minha para que pudessem treinar. Chegou um momento que pensei: ‘estou trabalhando e não está entrando nada. Então, vamos no social”.

Em 1996, começam as atividades da Associação Bushidokan. O significado desta expressão representa a crença que Osvaldo tem pela vida, pelo esporte. “Há vários significados para o nome Bushidokan. Para mim, significa, ‘caminho para se viver corretamente’. É o que faço”.



E o próprio significado da palavra, Karatê, “arte de combater com as mãos vazias”, define por completo a trajetória de Osvaldo na formação de milhares de jovens no esporte, de maneira voluntária. Sobreviver com o karatê, só mesmo através de aulas particulares que dava em diversas academias particulares, na cidade e região. Na área social, a Associação Bushi Dokan começou, em 1996, com a cessão de uma sala na escola Caic, na Vila Esperança. A ajuda de três companheiros formados por ele mesmo, Sidnei, Irajara e Jucelino, foram fundamentais.

Desde lá, é incontável o número de jovens formados no karatê em Alfenas. Ao lado de Sidnei, Irajara e Jucelino formaram dezenas de faixas pretas até agora. Centenas de campeões, regionais, brasileiros, títulos internacionais, sul-americanos, mundialitos e um mundial. E até mesmo seus 9 filhos, todos praticantes de karatê, durante algum tempo. 



Voluntários do Karatê, no Cidade Escola.
Se está certo o pensamento que é da quantidade que se faz a qualidade, o programa Cidade Escola é o grande responsável por Alfenas figurar entre os principais polos do karatê mineiro e nacional. “O Karatê ‘explodiu’ na primeira versão do Cidade Escola, em 2009. Chegamos a dar aulas para 1.100 alunos, no Caic, Cras Alvorada, Coronel, Grimminck, Tancredo Neves, Dona Zinica. Agora, só no ano passado, foram quase 500 alunos no Cidade Escola. Alguns integradores são voluntários. Júlio Cesar, faixa marrom; Matheus Assis, faixa preta, segundo Dan e Cecília Luiz Quintino, recebem ajuda de custo, mas, há ainda uma lista enorme de faixas marrom que ajudam no dia a dia, como Thales de Paula Garcia, Lucas Bento, Rogério Vieira, Eric Batista, Vitor Sergio (faixa preta), todos voluntários. É muita gente, tem que ter esses ajudantes, voluntários. Começamos com crianças a partir de 3 anos de idade. Quanto mais cedo, melhor. Os benefícios para os praticantes são vários: equilíbrio, raciocínio rápido, coordenação motora, reflexo”.



Alfenas, vice-campeã mineira 2017
Os números de praticantes impressionam, assim como o número de campeões revelados a cada nova turma. Em 2017, Alfenas foi vice-campeã estadual por equipes pela Federação Mineira de karatê interestilos, garantindo, assim, a participação de quase 30 atletas na seleção permanente do Estado em 2018.  Não foi novidade esse resultado expressivo. Em 2016, Alfenas já havia conquistado o título estadual.

Tudo parece fácil, mas não é. A conquista de resultados, tanto no esporte de competição, como na vida diária, requer uma série de mudanças na vida de quem escolhe praticar o karatê. Regras e disciplinas que Osvaldo segue à risca. “Nós temos um Dojo Kun, que é um conjunto de regras a ser seguido pelos praticantes de Karatê. A ideia é reforçar na mente dos praticantes que a arte marcial é, antes de tudo, um instrumento de aperfeiçoamento pessoal, um modelo (de perseverança e temperança) que se deve levar para a vida cotidiana”.



E as regras são claras. “Esforçar-se para a formação do caráter; esforçar-se para manter-se no verdadeiro caminho da razão; criar o intuito do esforço; respeito, acima de tudo; conter o espírito de agressão, que é a moralidade da nossa academia. Tem que seguir, respeitar essa filosofia. Imagine o que é treinar mais de 100 garotos e eles saírem pelas ruas batendo em todo mundo? Karatê não é um esporte violento. É igual ao pitbull. Ele não é violento, depende de quem está domando. Acontece o mesmo com um professor de karatê. Se eu passar, bate, bate, bate, o garoto vai ficar violento. Existe um respeito danado, você ganha do adversário e ele te abraça. As artes marciais são fantásticas, respeito, na vitória ou derrota”.



E professor Osvaldo tem a receita simplificada para seus treinamentos. “A primeira coisa que ensino, na academia, para quem começa a praticar o Karatê, é ‘correr’. Se estiver numa confusão é melhor correr, porque, no karatê, não pode haver atitudes violentas. A pessoa que treina artes marciais fica muito forte. Tem que ter equilíbrio muito forte, aprender a correr para não se envolver em confusão”.

É por isso que Osvaldo, aos 60 anos, aparenta uma idade bem menor. Segue com a filosofia e regras do Karatê, um esporte que pode ser praticado por todos. “Treinamos, para envelhecer no Karatê. Com 80 anos, quero estar treinando. Karatê é uma arte diferenciada. Temos três pilares: kihon, Kata e Kumite. Eles são comparados a uma árvore, na qual o kihon é a raiz, o kata, o caule, e o kumite, as folhas. Se kihon e kata não funcionam em seu kumite, é porque você não treinou suficiente para que seus movimentos se tornassem naturais. Se a pessoa envelhecer e não conseguir treinar na luta (kumite), ela pode treinar no kata, que é uma luta pré-determinada, pode treinar sozinho, similar ao Tai Chi Chuan”.



Prestes a completar 40 anos dedicados ao Karatê, Osvaldo ainda tem um sonho, considerado por ele mesmo quase impossível de se realizar. E também a certeza, de que todo seu esforço, paixão e dedicação continuarão com seus discípulos, formados no Cidade Escola. “Sempre pensei ter uma sede para o karatê. O aluno chegar da escola, entrar ali, para treinar, se alimentar, ter um reforço escolar. Se sonhamos, é porque ainda estamos vivos. Posso parar de dar aula, mas vou continuar treinando. 

Quando decidir parar, porque o corpo não suportará mais, teremos vários discípulos para continuar com nosso trabalho. Essa última geração que sairá do Cidade Escola, gosta do social: Matheus, Tales, Mateus Silvério, Julio César, Eric, Edvaldo, Breno, Lucas Bento, Felipe Figueiredo, Luana Almeida, Larissa Andrade, Augusto de Paula, Lukas Silva, Guilherme Silva, Denis Carvalho, são todos voluntários, trabalham me ajudando nas aulas. São todos nota 10, graças a Deus”.



Professor Osvaldo e Breno
Breno, um dos citados, é que faz Osvaldo seguir em frente, mesmo com todas as dificuldades vividas até hoje. “Me sinto realizado, tem hora que dá um certo desanimo. Pensei em me aposentar, ano passado, mas desisti rapidamente. Passamos dificuldades, mas não conseguimos largar. É paixão, o negócio está no sangue. O trabalho social vale a pena quando ouvimos uma mãe pedindo para que a gente não desista de seu filho, porque tem algum tipo de problema. Recebemos pessoas de todas as formas, uns hiperativos, outros com autismo, outros que vão mal nas escolas. Com alguns, já pensei: ‘esse é de encomenda’. Um deles, Breno, tinha 10 anos, e, cheio de problemas na escola, reclamações, queixas. Um dia, já adulto, chegou para mim e disse: ‘Você me ajudou muito. Quando tinha 10 anos, comecei o karatê, ganhei vários campeonatos,  o primeiro kimono que você me deu, mudou minha vida, estou bem, namorando, indo à igreja, tenho um emprego’. É muito gratificante ouvir isso de alguns deles e das próprias mães. O que dá mais orgulho é encontrar alguns deles pelas ruas e ouvir, mesmo não me lembrando dele, porque milhares de pessoas já treinaram comigo: ‘Você me ensinou Karatê, fez um bem tão grande na minha vida’”.



Os primeiros golpes do professor Osvaldo no Karatê.
A arte do karatê tem vários estilos. Não deve ser à toa que Osvaldo tenha escolhido o que é chamado de Shotokan, que significa, “pequena fortaleza”. Não foi fácil chegar, aos 60 anos, como faixa preta, quinto Dan. As dificuldades e o sofrimento vividos na infância serviram para consolidar seu caráter. “Com 12 anos, trabalhava na roça, juntava lenha, colhia café, chegava a ficar um mês direto nas fazendas. Acordava às 5 da manhã, não tinha feriado, sábado, domingo. Tinha que ajudar a ganhar o sustento da família. Tenho orgulho da minha mãe e da minha família. Meu pai é nascido em Alfenas, minha mãe de Serrania. Nasci em Serrania e vim para Alfenas, com 9 anos, em 1967. 



Assim que meu pai faleceu, minha mãe pegou os 5 filhos e veio para cá. Viemos sem lugar para morar, nada, dificuldade total. Descemos do ônibus, paramos numa rua e ficamos sentados. Apareceu um filho de Deus que se ofereceu para levar a gente para um lugar. Fomos morar no Lar São Vicente. Precisavam de uma cozinheira e ela foi contratada. É uma guerreira, cuidou dos 5 filhos sozinha. Trabalhou de doméstica, queriam que ela desce os filhos, mas batalhou muito pela gente. Eu digo para as pessoas: minha família teve tudo para caminhar pelo lado ruim da vida, mas ninguém desviou do caminho do bem”.












É por conta dessa formação, sofrida, que Osvaldo segue com objetivos bem definidos, no Karatê e na vida. “Quero formar cidadãos. Muitas vezes, ele tem o potencial de atleta, mas não o financeiro para ajudar. Queremos isso, saber que aquele jovem não está na rua, mexendo com drogas, mas, praticando um esporte, tendo qualidade de vida. Isso muda a vida das pessoas. Ajudamos a montar o caráter desses jovens. Esse é, e continuará sendo, meu objetivo de vida. Ser campeão é um detalhe”.











































































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