terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cidade Escola: Novos tempos para o Vôlei


O voleibol de Alfenas pode estar voltando aos seus dias de glória. Tudo porque o programa Cidade Escola está massificando a seleção de jogadores e jogadoras em um de seus núcleos, na região central da cidade, bairro Jardim Tropical, na quadra bem ao lado da igreja de Santa Rita.

E os resultados positivos deste trabalho já começaram a aparecer. No mês de novembro as garotas da categoria sub 15 obtiveram uma conquista inédita na história do vôlei alfenense. Foram vice-campeãs do circuito regional de voleibol, mesmo com a pouca experiência que tinham em competições deste porte.


Equipe feminina, vice-campeã Regional sub15 de Alfenas
Pode parecer pouco, mas é o primeiro passo para a formação de uma nova geração de vôlei na cidade. Os jovens da categoria adulto também participaram pela primeira vez de uma competição regional e conseguiram um excelente terceiro lugar. “Esta competição é um circuito, com cada etapa disputada em uma cidade. Participaram 7 equipes, no masculino. No feminino foram 6. Teve uma fase classificatória, onde todos jogaram contra todos. O feminino, no segundo semestre, o masculino, no primeiro. Jogamos contra Caldas, Poços de Caldas, Itaú de Minas, Guaxupé. O feminino enfrentou Machado, São Sebastião do Paraíso, Guaranésia, Itaú de Minas e Poços de Caldas. Todas as cidades têm um bom nível de competição, principalmente, Poços de Caldas. Perdemos para eles, no feminino sub 15, mas foi uma experiência única, a primeira do grupo em nível regional. E enfrentamos uma equipe de Poços, que já é considerada de nível estadual. Lá, eles treinam todos os dias, tem um investimento bem bacana, destinado só ao vôlei, os atletas vivem só disso, não se preocupam com outras coisas”, garante o técnico da equipe alfenense Daniel de Souza.


Professor Daniel, ex-jogador, técnico alfenense
e integrador do Cidade Escola
Realidade bem diferente da enfrentada no vôlei de Alfenas, que tenta ressurgir, agora, com esta nova geração.

E tudo por conta do trabalho e dedicação do ex-jogador, atual técnico do vôlei alfenense e integrador do Cidade Escola, Daniel.

Um jovem de 30 anos, nascido e criado no bairro do Pinheirinho. “Há 6 anos trabalho com um projeto social. A gente sempre reunia a galera. Comecei isso no bairro Pinheirinho, em 2011, e a galera foi se motivando a treinar, mas o intuito era só participar do Joesa, os Jogos Escolares, única competição, na época.





1ª equipe formada por alunos da
Escola Padre José Grimminck, em 2011.
O projeto chama-se Pinheirinho Voleibol Alfenas, sigla PVA. Tudo começou lá, com o intuito de competir mais no escolar, atender crianças e adolescentes que estão matriculados nas escolas. Iniciou no bairro Pinheirinho, mas assim que vim para a Santa Rita, começou também a atrair mais gente de outros cantos da cidade. Com o prefeito Luizinho, a gente conseguiu também o Poliesportivo, e, mais gente interessada em participar e treinar. Percebemos que, além de um trabalho social, poderíamos montar equipes de competição. E assim foi surgindo mais gente, mais pessoas interessadas. Hoje, temos uma base e a equipe de competição”.







Treinos na quadra da Santa Rita, 
núcleo centro do Cidade Escola
Se antes havia dificuldade para a montagem de uma equipe de competição no voleibol, com a chegada do Cidade Escola, tudo mudou. “Por ano, investíamos em 24 atletas, para escolher 12, na hora de jogar. Todas as faixas etárias, mas eu priorizava entre 10 e 17 anos, que é a idade escolar. Agora, já temos vários horários, de manhã, tarde e noite. Aumentou, massificou bastante, agora já temos quase 60 alunos. Através do Cidade Escola a gente pode observar atletas com qualidades técnicas e formar equipes de competição com elas”.








E com essa massificação, via Cidade Escola, Daniel começa a sonhar com novos tempos para o vôlei alfenense. Ainda mais com o fato inédito alcançado pelas meninas do sub 15. “Não conseguíamos manter por muito tempo uma só equipe, que é a maior dificuldade que nosso vôlei enfrenta hoje em dia. Agora, já estamos tendo oportunidade de competir em nível regional, isso as motiva a continuar, a treinar e se dedicar ainda mais. Por exemplo, aqui, na Santa Rita, tem meninas que vem para treinar lá da Vista Grande, Jardim São Carlos, Pinheirinho. Lugares mais distantes. E por que vem? Porque já existe um objetivo de competir, se destacar no Regional. Isso foi motivando o grupo cada vez mais. Temos 3 atletas que já despertaram interesse de outros treinadores. Keyla, Anna Julia e Ana Gabrielli foram convidadas pelo técnico de São Sebastião do Paraíso, para competir o campeonato mineiro. É a primeira vez que isso acontece no vôlei feminino de Alfenas”.



Mas como o técnico Daniel conseguiu atrair tantos jovens assim, para a prática do vôlei? “Inicialmente, vi uma situação triste em relação ao esporte, lá na escola Grimminck. Alunos, com potencial de atletas, porém, desmotivados, para participarem do Joesa. Treinar para que? Vamos perder mesmo. Vi que, no Pinheirinho, havia um grupo bacana, e mesmo sem treino, nada, eles tinham força de vontade, então, decidi treiná-los, voluntariamente. Aos poucos, foi despertando o interesse deles, gostando, sentiram a diferença da minha forma de ensinar, os métodos, motivando, buscando acreditar o tempo inteiro neles. Porque a dificuldade maior que enfrentei, no início, foi exatamente isso: fazê-los acreditar que era possível. A partir do momento que viram que era possível, assim que venceram a primeira vez, a visão deles mudou completamente. E dizem: ‘é possível, sim, é só a gente se dedicar, depende da gente’.



E os resultados foram surgindo. “Foi despertando, e o Grimminck começou a se destacar com o esporte na cidade, não só com o vôlei, mas a ser campeão no esporte em geral, em várias modalidades do Joesa. E isso foi despertando o interesse de outras escolas. O Samuel Engel, que é, hoje em dia, a escola mais forte no vôlei, meninas com 11 anos vendo tudo isso, despertou o interesse nelas de treinar”.

Com a chegada de Daniel para o Cidade Escola, o vôlei de Alfenas começou a tomar novos rumos. “Com meu trabalho voluntário, aqui, na Santa Rita, e com o PVA, muitas meninas vinham me procurar. Nesta época, focava mais com o feminino. Aí, ficava, de certa forma, uma rivalidade com os outros professores, porque cada um tem um método diferente de treinamento. Assim que entrou essa gestão, e a chegada do Cidade Escola, fui convidado a participar e os outros professores saíram. O vôlei acabou ficando só comigo. As atletas de outros professores resolveram me procurar, e aos poucos fui explicando, ensinando e mostrando métodos e formas diferentes de treinar, como mudar a visão delas. Eram acostumadas a ir ao treinamento, apenas chegar, dividir as equipes e jogar. Não havia um treinamento específico para certa técnica, para rede, saque, etc. Era uma coisa mais livre, social, não rendimento. Fui tentando mudar essa visão delas”.



Treinos fortes, na quadra da Santa Rita.
Uma mudança de mentalidade que acabou colhendo frutos muito mais rápido que o próprio Daniel acreditava. “Muitas meninas que começaram tarde, não estão acostumadas com o esforço físico, por exemplo, e acabam desanimando. Buscamos sempre conversar, motivar e fazê-las entender as dores musculares, porque é o que as fazem desanimar. Cansei de ouvir: ‘vou faltar no treino, o professor quase me matou no último’. Fomos colocando uma nova mentalidade de treinamentos nelas, e foram entendendo a realidade, como são as coisas, conhecendo estilos diferentes de se jogar, não apenas o tradicional 6 – 0 , que ensinam na escola. Fomos mostrando os níveis diferentes de formação tática, de jogo, defesa, ataque, os valores de cada posição, aí, foi só aumentando o interesse. Hoje em dia as coisas são diferentes, a visão delas mudou em relação aos treinos, para poder competir, jogar, ter disciplina, alimentação, horário de descanso. Levam tudo isso a sério, agora, acreditam que pode ser possível competir de verdade”.



Keyla, talento alfenense
E um novo futuro pode estar por vir. “Por isso, a conquista do vice-campeonato sub 15 no Regional foi tão importante. Elas não tinham experiência com tática, com nada e se superaram tão rápido.

A força de vontade delas é o que contou, não só delas, mas o masculino também.

Aprenderam tudo, em cima da hora, com pouco entrosamento, porque treino com turmas separadas, só aos sábados consigo juntar todo mundo, quando é possível fazer um treino para entrosar a equipe. 











Anna Julia, ganhando experiência
para reforçar Alfenas
Foi um quebra-cabeça, treinava durante a semana, com as peças, de manhã e à tarde, e, no sábado, buscava o entrosamento entre elas.

No vôlei feminino, nossa esperança está aí, com essas meninas mais novas do sub 15.

Elas tem um futuro tremendo pela frente, ainda mais com a ida da Keyla, Anna Julia e Ana Gabrielli para disputar o campeonato mineiro.

Quando voltarmos a competir, elas darão uma experiência incrível para a equipe de Alfenas”.










Ana Gabrielli, esperança do vôlei alfenense
Daniel quer sonhos maiores para essa moçada do vôlei. Disputar um campeonato estadual ou nacional? Por que não?

Sonhar, para ele, no mundo do vôlei, sempre foi uma regra, ainda mais com a perda da maior oportunidade que teve no esporte como atleta.

“Em 2002, comecei a treinar com o professor Ricardo Paiva, que me despertou o interesse pelo voleibol. Todo mundo me falava que, por ser alto, deveria jogar. Neste mesmo ano, consegui uma oportunidade para jogar em 3 Corações, com o treinador Antonio Rezende, 10 anos assistente técnico da seleção brasileira infanto-juvenil, um excelente profissional, aprendi muito com ele, uma experiência inesquecível. Fiquei 3 meses por lá. Só que minha família, na época, não me apoiava tanto assim e, por ser muito novo, acabei voltando”.






Daniel, jogador de vôlei na Copa Sesi 2009
Mas, Daniel seguiu sonhando com a carreira de atleta. “Fiz testes na ADC Eletropaulo, passei, voltei para Alfenas com a minha vaga, em Interlagos, São Paulo. Tinha uma semana para arrumar minhas coisas para voltar para lá e começar a treinar, só que a empresa patrocinadora da equipe foi a falência e, assim, cancelaram as vagas dos atletas que vinham de fora”.

E a carreira como atleta, parecia chegar ao fim. O sonho de Daniel só poderia se realizar de outra forma, nas quadras, mas não mais como um atleta. “Fiz outro teste, no Centro Olímpico, em São Paulo.



Daniel e equipe, defendendo Alfenas
em Pouso Alegre, na Lidarp, 2010
Entre 250 atletas, consegui ficar entre os 12, voltando também com a minha vaga, só que aí surgiram atletas que moravam mais próximos de São Paulo, e o treinador me dispensou, por morar mais distante. Fui desanimando.

Decidi ficar em Alfenas, tinha 17 anos nesta época. Com 16 anos, joguei para Poços de Caldas durante quase um ano, mas decidi seguir com o vôlei apenas como um hobby.

Passei a jogar por aqui, quando Alfenas começou a montar equipes para competir e fui participando, até 2010”.






Poliesportivo, lotado, para jogos emocionantes de vôlei
Neste período, como jogador da seleção de Alfenas, Daniel viu de perto a fase de ouro do voleibol local. “Vinham muitos atletas de fora, de nível nacional, inclusive. Teve atleta de seleção mineira, de São Paulo, eram muito bons, serviam de espelho pra gente. Moravam aqui, em um alojamento no Poliesportivo. O vôlei era muito forte nesta época. Tínhamos diversas equipes de competição: infantil, infanto-juvenil e adulto. Em 2002, começaram a investir ainda mais, trazer mais atletas, contratados, só para jogar vôlei. Lucas, da seleção mineira; Juninho, levantador da seleção mineira; Éder, que após 2002, foi jogar a Super Liga, por Blumenau, que é o nível máximo. Tínhamos o Guilherme, que é de Batatais, muito bom, forte. Hugo, de Uberaba, levantador, muito bom também. A equipe adulta de Alfenas tinha o Daniel Borneli, que hoje é o fisioterapeuta do Estrada Cruzeiro. Tinha o Murilo Riotto, irmão do Marinho, da dança. Aliás, Marinho contribuiu muito para o nosso vôlei”.



Uma das equipes participantes do Fest Vôlei
E antes deste “boom” do vôlei alfenense, Daniel descobriu também outras histórias, contadas por aqueles que viveram os tempos dos festivais de vôlei na cidade. “No final dos anos 80, existia aqui o Fest Vôlei. Não cheguei a acompanhar esta fase, mas todos os ex-praticantes falam que era excepcional o nível. Era entre escolas, faculdades, cada escola formava grandes equipes. Alfenas tinha muito bons atletas. Época do Marcelo Belini, que hoje é árbitro. Eram excelentes atletas, um nível muito forte. Em 2007, voltaram, inverteu os nomes, chamaram de Vôlei Fest. Tentaram reeguer essa cultura, mas deu uma pausa de 3 anos”.

Agora, o sonho de Daniel é ver o vôlei alfenense brilhar novamente. “A gente pretende voltar em breve, talvez no início do ano que vem, com essa mesma competição. Uma nova onda do vôlei está recomeçando. Nossa missão, agora, é resgatar tudo isso, poder lotar o ginásio Poliesportivo, novamente, com o vôlei”.


Com o Cidade Escola, Daniel sabe que poderá não apenas revelar talentos como atleta. “Meu sonho como professor, instrutor, é revelar um atleta, é colocar uma atleta, num nível alto, nacional, e a esperança é que através dessa atleta, possamos despertar interesse nas pessoas mais jovens, porque o vôlei enfrenta um certo preconceito, ainda mais com o sexo masculino. Trabalhamos para quebrar essas barreiras, despertar o interesse da pratica em crianças, desde cedo e, possivelmente, recuperar a cultura do nosso vôlei, que, um dia, foi muito forte”.



Daniel segue em busca de seu sonho. Sabe que a única maneira de o alcançar é esquecer o que aconteceu com ele, quando decidiu voltar para casa, após a experiência com o técnico da seleção brasileira em Três Corações. “Meu sonho é ver uma delas chegar onde tive oportunidade de chegar e acabei desistindo. Minha única frustração é essa, saber que poderia ter ido longe como atleta, mas ter me limitado em relação a isso. Acabou acontecendo tudo muito rápido, por isso senti essa tristeza”.

Bem diferente dos dias atuais, quando o Cidade Escola recebe a cada dia, mais e mais inscritos para o vôlei. “Sem o Cidade Escola a gente não faria nada no esporte. Hoje, me sinto muito feliz quando estou em quadra, ensinando toda essa turma. Já teve épocas difíceis (2012/2013), de eu sair de casa para vir treinar duas meninas”.



Após tantos esforços pessoais, Daniel sabe que valerá a pena continuar a batalhar para ver o vôlei de Alfenas brilhar novamente. “Sirvo como um espelho para eles todos. Tive de mudar minha conduta, comecei com 23 anos, tive que evitar muitas coisas, mudar a rotina de vida, crescer mais rápido, parar de ser ‘baladeiro’, que era uma coisa da idade. Abri mão disso tudo, sábado e domingo para mim é só descanso. Temos que estar atento a tudo. Com as tecnologias é mais fácil a comunicação, conversamos muito entre nós, por grupos nas redes sociais. Aqui, temos gente de todas as classes sociais, mistura tudo. Ensinamos bastante as questões dos valores em um grupo, as diferenças devem ficar do lado de fora da quadra. Quando estamos juntos, estamos lutando por um só objetivo”.

Daniel tem razão. E o Cidade Escola faz parte deste sonho de ver Alfenas formando não apenas atletas, mas cidadãos.











































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