terça-feira, 28 de novembro de 2017

Cidade Escola: Talentos do Xadrez

Participantes do 1º Torneio de Xadrez Cidade Escola

Centro Vivencial, quarta-feira, 22 de novembro de 2017. Dezenas de jovens praticantes de um jogo complexo e fascinante participaram do 1º Campeonato de Xadrez do Programa Cidade Escola (foto acima). Quem por ali passou, não sabe que essa turma toda de jovens talentos está fazendo história com o xadrez alfenense.

Você sabia, por exemplo, que Alfenas está prestes a ter sua primeira “mestre enxadrista”, o título mais importante do xadrez brasileiro? E o mais incrível dessa façanha, que ela tem apenas 15 anos de idade? Seu nome é Julia Maria de Paulo Pinto e é uma das participantes da atividade de xadrez do Cidade Escola.


Para entender este feito é preciso voltar no tempo e encontrar respostas para explicar, não apenas o crescimento tão rápido de um jogo considerado difícil para a maioria das pessoas, seja ela criança, jovem ou adulto, como também a conquista de resultados expressivos em campeonatos regionais, estaduais e nacionais.






Ronaldo e jovens talentos do xadrez, 
em evento no Centro  Vivencial
Tudo começou em um ciclo que dura menos de 10 anos, período curtíssimo para revelação de campeões no esporte. E o responsável por essa enorme visibilidade que o xadrez alfenense ganha, agora, é o professor Ronaldo André Lopes, técnico da equipe que representa a cidade em diversas competições.










Ronaldo, bem jovem, e a professora Juliana,
em reportagem do Jornal dos Lagos
Ronaldo é o que no esporte se chama de “talento precoce”. Tem apenas 19 anos e virou professor de xadrez bem cedo. “Comecei em 2008 e meu primeiro contato com o xadrez foi com a Juliana Marques, que, agora, trabalha no Ceme e é a vice coordenadora do local. Ela era professora de Educação Física e organizou uma competição no colégio Arlindo Silveira (‘Xadrez nas Escolas’). Minha primeira competição foi o Joesa (Jogos Escolares de Alfenas). O engraçado foi que, quando comecei, teve uma seletiva para disputar o Joesa, só que eu era muito novo e aí não seria inscrito. Inscreveram os mais ‘velhos’, só que fui me destacando e tiveram de me colocar. Acabei jogando, mesmo sendo ‘pitititinho’”.


O aprendizado sobre o xadrez começou por acaso. “Aprendi a jogar numa brincadeira ocorrida com o meu tio. Ele que nos ensinou, para mim e para meu primo, filho dele, Felipe Silva. Eu e meu primo jogávamos ‘dama’ com ele todos os dias, mas achávamos bonitinhas as peças do xadrez. E um dia meu tio disse que, se um dia ganhássemos dele, na dama, ele nos ensinaria o xadrez. Só que nunca acontecia de a gente ganhar, até que ele decidiu nos ensinar, a mexer as peças. Aprendi os movimentos de cada peça e só isso”.








E foi com esse aprendizado básico, que Ronaldo e Felipe seguiram jogando. “Meu primo jogou até 2012 e depois parou. Eu tinha 10 anos e ele 7. Começamos juntos, mas tive mais interesse de continuar porque nunca me identifiquei com outros esportes, não gostava de futebol, vôlei, não sabia jogar nada, e meu primo já se identificava com esses esportes. Muitos dizem que o xadrez é um jogo entediante, então tem que gostar mesmo. Mas, para mim, esse tédio não existe, porque não se mexe com o aspecto físico, mas muito com o psicológico, concentração”.







Mesmo tão jovem, Ronaldo começou a não só obter resultados expressivos no xadrez, mas, surpreendentemente, virar professor. Isso mesmo, com apenas 11 anos, o pequeno talento alfenense passou a estudar e dar aulas de xadrez no colégio Tancredo Neves. A foto (acima) com uma de suas primeiras alunas, Bruna Gouveia, ambos bem jovens, revela o orgulho que Ronaldo carrega até hoje. “Disputei o Joesa conseguindo bons resultados. E foi aí que comecei a instruir, como professor de xadrez. Foi em 2010, quando tinha 10 para 11 anos. Organizamos um campeonato de xadrez no Tancredo. Em Alfenas, nessa época, o foco maior era na disputa do Joesa, então eu pouco aparecia, por ser muito novinho. Este campeonato teve participação de uns 30 alunos para quem eu dava aulas. E até hoje tenho jovens que foram alunos meu lá que, na época, tinham apenas um ano de diferença de idade para mim. Agora, eles estão atuando no Cidade Escola, como integradores. É uma coisa que arrepia a gente”.







Ronaldo, o primo Felipe e Vinicius Vignoli
E a escalada meteórica do pequeno Ronaldo não parou. Do colégio Tancredo Neves, passou a estudar na escola Samuel Engel. E foi lá que recebeu o convite para participar de uma grande competição estadual e revelar todo seu talento no xadrez. “Em 2012, Vinicius Vignoli, que trabalha na Secretaria de Esporte e é um dos grandes incentivadores do xadrez na cidade, me convidou para participar do Jemg, Jogos Escolares de Minas Gerais, eu e meu primo Felipe Silva. Fizemos uma dobradinha, na etapa microrregional (cidades mais próximas de Alfenas): eu, em primeiro, e meu primo em segundo. Depois, na etapa regional, fiquei em primeiro lugar, campeão sul-mineiro, venci um campeão, de categoria adulta. Apesar de a idade dos competidores serem próximas, esse menino tinha muita experiência”.


Um resultado que surpreendeu até mesmo o experiente professor que o levou à competição. “O Vinicius não acreditava, lembro que, um dia antes, ele me disse: ‘tenta empatar com ele, porque classificam quatro para a etapa estadual. Se você ganhar, será primeiro lugar, mas, se perder, ficará no máximo em quinto lugar’. O risco de eu perder era grande, mas, durante o jogo fui ganhando e o menino não aceitou a minha proposta de empate (porque, no xadrez, pode haver a proposta de empate ao adversário). Na sequência, ele me propôs o empate e aí fui eu quem não aceitei. Acabei vencendo o jogo, classifiquei para a etapa estadual”.






E uma sequência incrível de resultados transformou a vida do pequeno Ronaldo. “No estadual, fiquei em oitavo lugar, disputado em Patos de Minas, um resultado bastante expressivo, porque foram 850 estudantes participando ao longo do ano. Chegar entre os 10 primeiros, na etapa final, é uma grande conquista, sem contar que era minha primeira participação em uma disputa estadual. Em 2013, disputei novamente, e fiquei em terceiro, no sul de Minas. Em 2014, repeti este resultado, e, no estadual, disputado em Uberaba, fiquei em terceiro lugar. Perdi só para o campeão brasileiro, Ezequias Morais”.






E foi neste ano de 2014 que Ronaldo teve a ideia de se transformar em professor e técnico, na escola Samuel Engel. Com o incentivo da diretora da escola e professora de matemática, Elaine Souza, Ronaldo levou o xadrez para as salas de aula e muito mais. “Criei um projeto, juntamente com alguns professores de lá. Começou com uma turma de quase 15 alunos e são eles, até hoje, que disputam os campeonatos atuais. E os resultados com essa turma não demoraram a surgir, porque, além de mim, surge um grupo, uma equipe, que até hoje carregamos este nome: ‘Equipe alfenense de xadrez’. A expressão ‘juvenil’ é porque fomos formados, sempre, por meninos de 15, 16 anos”.

Em 2015, Ronaldo deixa a escola Samuel Engel, mas não seu projeto voluntário com aulas de xadrez, para estudar no colégio particular CRA. Mais do que isso, para continuar a participar de diversas competições de xadrez. “Começo a ser apoiado para participar de campeonatos, porque todo mundo que me vê, pensa que estou ganhando dinheiro com o xadrez, porque estava indo bem em tudo, ganhando quase todos jogos. Mas, digo a eles que é o contrário, só há gastos com tudo, porque cada inscrição feita é dinheiro que se gasta”.


Ronaldo também teve apoio para estudar e conseguir entrar na Unifal, primeiro cursando Ciência da Computação, e, logo a seguir, Matemática, o que realmente sempre adorou estudar. Em todos os anos, Ronaldo seguiu vencendo, pessoalmente, e com sua turma de alunos. “Pelo CRA, fui campeão sub-17 do sul de Minas, e também fiquei, novamente, entre os 10 primeiros de Minas, no estadual. Todos os anos que participei fiquei entre os 10 melhores. A partir de 2015, também comecei a levar meus alunos para o Jemg, como técnico e atleta. Foi aí que começamos a ter os melhores resultados possíveis, medalhas na microrregional, ir para a etapa regional e ficar entre os 10 primeiros, com os meninos mais novos, que já era uma grande conquista.



Em 2016, quando entro para a Unifal, deu uma ‘quebrinha’, porque não conseguia manter tudo, mas continuei a treinar e a levar, novamente, a equipe para o Jemg. Fui com eles, mas não jogando mais, porque já havia encerrado minha fase escolar. Conseguimos vários resultados expressivos, passando, novamente, para a etapa regional. Neste ano de 2017, foi o ápice de todo este trabalho, porque estamos ganhando tudo. Fomos para o Jemg e passamos todos os alunos para a fase regional, uma coisa que jamais esperávamos acontecer”.










Ronaldo e Julia Maria
Entre tantos destaques de sua equipe, Ronaldo não tem dúvida de eleger a jovem que o faz continuar batalhando pelo xadrez de Alfenas. “Nossos destaques são o Guilherme Borges e a Julia Maria, porque eles despontam muito, mas quase todos da equipe estão se destacando nas competições. A Julia é heptacampeã da Copa Garden RBX Sul de Minas. Essa competição é reconhecida pela Liga Brasileira de Xadrez. A Julia tem um título que, eu, por exemplo, não tenho, que é de ‘aspirante a mestre de xadrez’. No Jemg, ela ficou em 10º lugar, mas foi a segunda melhor menina, porque os outros oito colocados eram meninos. Ano que vem, ela deve conseguir alcançar o título de mestre, e passar a ser reconhecida, no Brasil inteiro, como mestre enxadrista. Tem 15 anos e estou com ela desde os 13, a vi crescer, literalmente, porque é ‘gigante’, alta, bem maior do que eu. Ela é minha maior motivação para continuar com o xadrez”.





Ronaldo e sua coleção de medalhas e troféus
Ronaldo continua a jogar xadrez, agora, na categoria adulto, e também segue ensinando seus discípulos, dentro das aulas de xadrez do Cidade Escola. Não apenas técnicas ou regras do jogo. “Às vezes, pego alunos com algum tipo de déficit e porque não usar o xadrez para melhorar esse ou aquele aspecto? E sei que melhora. No Cidade Escola, já percebi comportamentos diferenciados de alguns alunos. Eles chegam com conhecimento zero sobre o xadrez. São crianças muito agitadas, porque tem excesso de atividades no dia a dia. O xadrez deve seduzi-las por conta da beleza estética do jogo, tabuleiro, peças. Muitos acham que é jogo de dama, mas não é, e começam a querer descobrir que jogo é este. Existe uma pequena evasão no início, mas é pequena, porque sei que o xadrez, para crianças, não é jogo tão simples de se jogar. E é um jogo onde tem que se ser muito ético, não há briga, discussão, tem todo um trabalho em dupla, mesmo não sendo colega do adversário, ser respeitoso com ele. No xadrez, quem não sabe, deve haver, obrigatoriamente, um cumprimento de mãos, no início do jogo, desejando boa partida um para o outro. E as peças pretas acionam o relógio para as brancas iniciarem o jogo”.


E a cada aula, Ronaldo acrescenta uma nova relação cultural ou histórica do xadrez aos seus jovens talentos. “O aspecto histórico do jogo é muito interessante. Temos várias ‘lendas’ como a de que o xadrez surgiu na Índia, há milhares de anos atrás, bem antes de Cristo. Na Índia, ele teria sido jogado com outras peças. No lugar do ‘cavalo e bispo’, seriam elefante e macaco. Na visão deles, olhando para os animais, enxergavam os deuses, onde entra a questão do hinduísmo, muito forte neste país. Mas, há também outras teorias, de reinados livres, fora do contexto, que tenham utilizado o xadrez. Outra lenda conta que um imperador pediu a um súdito que criasse um jogo para ele. O súdito disse que criaria, com a condição de que, para cada casa do tabuleiro construído, fosse dado a ele o dobro de milho. Na primeira casinha, ele colocava um milho; na segunda, dois; na terceira, quatro; e assim, sempre dobrando. Isso já é uma ‘progressão’, onde entra a matemática, que é o divertido desta história. E, no final, o súdito ficou muito rico, porque tinha muitos grãos. Xadrez tem todas essas histórias e caminhos interessantes”.


E muitas outras aplicações, nas salas de aulas, afinal, a atividade do xadrez no Cidade Escola está presente em diversas escolas. “Podemos trazer o xadrez para o aspecto da matemática, que acho o ponto mais incrível. Tem o aspecto do cálculo, raciocínio, lógica, mexe também com probabilidade, análise combinatória, todas questões que vemos no ensino fundamental e médio, nas aulas de matemática. Vemos uma aplicabilidade de toda a teoria que se aprende em sala de aula. Podemos falar sobre ‘área’, mostrando o tabuleiro, que tem 64 casas, 8 por 8, o que já traz a multiplicação. Conseguimos trazer para diversos contextos. Quantas casas são brancas ou escuras, além das figuras feitas nos movimentos das peças, diagonal, vertical, horizontal”.



Por ser tão jovem, e de ter crescido como professor, ao lado de vários integrantes da equipe de xadrez alfenense, com idades bem próximas às suas, Ronaldo costuma tratá-los como “filhos”. O melhor “espelho” que pode olhar todos os dias. Por isso, faz questão de lembrar os diversos integrantes que fazem parte desta equipe que vem se destacando de forma meteórica como jogadores ou integradores culturais do programa Cidade Escola. “Gosto de ressaltar o trabalho de toda a equipe com quem trabalhamos. Temos um destaque, na sub-11, que é o Virgílio Antonio, que começou comigo no Arlindo Silveira e agora é aluno meu no Cidade Escola. Tem outros meninos também, como o José Gustavo Mota, Guilherme Borges e o Kelvin Prado, que disputam a categoria sub-17. No sub-14, a gente tem o Fabio Hilário e o Felipe Augusto Terra. No feminino, a Julia Maria no sub-17. Tem a Myckaella Almerinda e o Rodrigo Benedetti, que são integradores do Cidade Escola na região do Caic. Os coordenadores de núcleo e do programa, Junior, Matheus Paccini e Gilberto Faloni. No adulto, eu, o Gustavo Borges e ainda o André Assis, que é um servidor da Unifal. Como estudo na Unifal, a gente tem treinos semanais por lá, mas a gente está aberto para receber toda a comunidade”.


Apesar de o xadrez carregar tantas oportunidades de aplicação em salas de aulas, sobre aspectos históricos e culturais, Ronaldo prefere definir toda a importância deste jogo, por um fator que o programa Cidade Escola trabalha diariamente em todas as regiões, bairros e dezenas de atividades espalhadas pela cidade. “A questão social é a mais importante. Achei interessante o que uma diretora de escola perguntou certa vez a uma turma de jovens e nunca mais deixei de utilizá-lo em minhas aulas. ‘O xadrez mostra como a sociedade é: vocês querem ser na vida, os peões, ou vão buscar ser os reis?’”.

Xeque-Mate, Ronaldo.
































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