quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Cidade Escola: Psicomotricidade e o bem viver


Entre as diversas atividades propostas pelo Cidade Escola existe uma que é fundamental para o desenvolvimento completo das crianças. Psicomotricidade, nome estranho, mas de extrema importância na formação física e psíquica de crianças.

Pais e mães ficam em dúvida sobre o que é essa atividade e qual sua importância para o desenvolvimento das crianças, sobretudo em idade escolar.


Psicomotricidade no Tancredo Neves com integrador Rafael.
No Cidade Escola, alguns núcleos como Caic, Tancredo Neves e Gaspar Lopes, mantem atividades semanais da psicomotricidade. Mas, afinal, o que é psicomotricidade? O conceito é simples: uma ação de finalidade pedagógica e psicológica que utiliza parâmetros da educação física com a intenção de melhorar o comportamento da criança com seu corpo. Há também quem defina a psicomotricidade como uma ciência que estuda o indivíduo por meio de seu movimento e a interação social.




Stela Rogatti, cooordenadora do Cidade Escola, núcleo Tancredo.
A psicomotricidade utiliza um conjunto de exercícios, atividades lúdicas que podem evitar futuros problemas no desenvolvimento das crianças. “Há uma grande preocupação com a criança, nos seus 3 primeiros anos, porque é neste período que elas aprendem a andar, pular, brincar, e se não for trabalhado corretamente o desenvolvimento motor dessa criança, pode sim, trazer falhas para o cognitivo e inclusive até para a vida social, porque uma criança que não sabe brincar, pular, não vai interagir, causando, assim, problemas futuros, inclusive, sociais”, garante a Neuropsicopedagoga, Stela Rogatti, também coordenadora do núcleo Tancredo Neves do Cidade Escola.


E problemas que podem parecer comuns, no início da formação educacional de uma criança, acabam se tornando graves, no futuro. “Quando acontece algum problema na primeira infância, quanto à questão da psicomotricidade, ela pode atrapalhar toda a aprendizagem, inclusive a escrita. Quando uma criança troca a letra ‘p’ pelo ‘b’, ou vice-versa, já indica problema, falha na questão da psicomotricidade, no desenvolvimento ‘motor’ da criança, que vai acarretar falha, inclusive, na aquisição da linguagem verbal e escrita”, alerta Stela Rogatti.



A educação psicomotora é essencial no início da aprendizagem das crianças, pelos problemas que podem acarretar para elas no futuro. E Stela Rogatti faz um alerta, algo que foi prática comum, em passado recente, continua a acontecer. “Antigamente, crianças eram alfabetizadas com 4, 5 anos. E ainda existem escolas que fazem isso, atualmente. E isso é muito ruim, já vi acontecer de crianças ficarem completamente desmotivadas, porque perderam tempo precioso que poderiam ter em situações de brincadeiras, momentos lúdicos de aprendizagem. Isso vai acarretar muitos problemas, lá na frente, quando é acelerado uma aprendizagem para a qual não estava preparada para adquirir. Tenho verificado a falta que faz para a criança, na pré-escola, principalmente, na educação infantil, a estrutura psicomotora bem trabalhada. Aquela que não aproveitou bem essa primeira infância, esse primeiro contato com a aprendizagem, estará prejudicada no futuro. Sempre foi uma grande preocupação minha, no Cidade Escola, propor atividades que tenham movimentos, e quando digo movimentos, são aqueles centrados nas situações psicomotoras”.



Outro alerta que faz a neuropsicopedagoga, Stela Rogatti, é sobre a desinformação que pais e mães tem sobre as atividades desenvolvidas na pré-escola. “As pessoas têm o costume bem complicado de dizer: ‘ah, nas creches, nos Emeis, Cemeis, as crianças só brincam’. É isso mesmo, só brincam. Brincam de aprender o que é pé direito, esquerdo, o que é entrar, sair, dentro e fora, pequeno e grande, atrás e na frente, deste meu lado, daquele lado. É isso que elas aprendem. ‘Brincamos’ de formar, os médicos e os grandes atletas do futuro, que tem que passar pela educação infantil”.






Integrador Wellington Lima no núcleo Gaspar Lopes
E é no núcleo do Cidade Escola, em Gaspar Lopes, que acontecem resultados incríveis com as atividades da psicomotricidade. Grande parte deste sucesso se deve a atuação de duas pessoas. A primeira, Sandra Moreira, coordenadora do núcleo do Cidade Escola na região, e do integrador cultural Wellington Lima. Uma junção de conhecimentos, teórico e prático, na educação. Sandra é educadora, professora na rede pública há quase 30 anos. Wellington, um jovem de 30 anos e que há 18 anos já aplicava os conceitos da psicomotricidade, antes mesmo destas atividades ganharem esta definição.


Sandra Moreira, coordenador núcleo Gaspar Lopes.
Em um bairro como Gaspar Lopes, com diversos problemas sociais, ter conhecimento teórico da importância da psicomotricidade, torna-se fundamental. “A psicomotricidade visa favorecer o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, psicomotor das crianças. Ela tem a capacidade de ter tudo isso envolvido: o cognitivo, o afetivo e o psicomotor. Tudo isso está ligado aos movimentos que estejam em atividades como jogos e brincadeiras, que auxiliam a desenvolver a motricidade, a lateralidade, o equilíbrio, para a criança ter o domínio do próprio corpo”, garante Sandra Moreira.


E como a psicomotricidade vai ajudar essas crianças? “Pode ser utilizada em forma de brincadeiras, para favorecer, tanto o desenvolvimento físico quanto o psicológico da criança. Assim, se a criança está brincando, ela é capaz de perder o medo de alguma fobia. Através de uma brincadeira, será capaz de realizar alguma atividade, sem pavor, desespero, angústia. Brincando, entrará num novo mundo de aprendizagem, porque estará lidando com tudo aquilo que é diferente para ela”.

Os resultados não demoram a surgir. “A psicomotricidade é capaz de criar, desenvolver, estimular sua curiosidade, seu conhecimento, suas habilidades, além de desenvolver pensamentos, concentração, atenção. E é exatamente na pré-escola que as crianças se movimentam de diferentes maneiras, como correr, pular, arremessar, jogar, chutar e outras combinações. Esses movimentos são essenciais e servirão de base para adquirir maiores habilidades”.


E por que Gaspar Lopes tem alcançado resultados tão positivos com a psicomotricidade? Tudo por conta do trabalho e talento do integrador Wellington. Para entender as razões que o tornam tão especial para as crianças daquela região, basta ouvir o testemunho de quem trabalha com estas crianças, diariamente, na Cemei Amália Leite Correa, em Gaspar Lopes.

Micheli Marangão Pereira, professora há 10 anos, viu perto tudo acontecer. “Quando começou, no início do ano, a atividade de psicomotricidade do programa Cidade Escola com o integrador Wellington, das quase 25 crianças do pré, de 4 anos, pelo menos 10 eram completamente tímidas, não gostavam de participar das atividades, ficavam só no cantinho, olhando, observando os amiguinhos. Como a atividade de psicomotricidade está sendo desenvolvida, todas as semanas, o Wellington conseguiu atrair essas crianças para participar das atividades, dos movimentos da psicomotricidade, porque são aulas criativas, dinâmicas, onde as crianças brincam, se desenvolvem, se divertem. Ele tem muito jeito, nossa, toda quarta elas perguntam: ‘hoje é dia do tio Wellington, vir?’”.


Professora Micheli Marangão Pereira
E qual seria o “segredo” do “tio” Wellington? “Deu para perceber que, das 10 crianças que não gostavam de participar, a partir da entrada do Wellington na escola, todas, gradativamente, participam alegremente, gostam, pulam, dançam, correm, brincam, cantam. Está sendo muito importante. Ele trabalhou muito bem a autoestima das crianças, o movimento de corpo delas. Tenho notado uma melhora muito grande no envolvimento entre as crianças, daquelas mais tímidas. Foi a partir destas rodas de movimento que passaram a se envolver melhor, entre elas e também nas atividades que envolvem a escrita. Antes, não falavam nas rodas de conversas, agora, já conversam, são capazes de se expressar. Está sendo um trabalho muito importante”, garante Micheli.


Opinião que é reforçada pela coordenadora do Cidade Escola, em Gaspar Lopes, Sandra Moreira. “Ele tem uma forma totalmente carinhosa para lidar com as crianças. Elas se sentem acarinhadas, mesmo aquele homem, daquele ‘tamanhão’, e as crianças tão pequeninhas. E ele consegue, domina a turma. Elas adoram, ficam ansiosas esperando a chegada da quarta-feira para poder ter a aula com o professor Wellington”.

É fácil entender tamanha admiração das crianças pelo trabalho desenvolvido pelo integrador Wellington. Uma vida quase que inteira dedicada ao corpo em movimento. O encontro com a psicomotricidade aconteceu por acaso, sem ele mesmo saber que já desenvolvia a atividade com esse nome “complicado”, nas aulas que dava em academias e escolas espalhadas pela cidade. Estava no primeiro ano de faculdade, na Unifenas, em 2011, quando fez seu primeiro estágio, no Instituto Ipanema.


“Quando chegava nos lugares para propor atividades, não havia um nome específico, como psicomotricidade. Até então, eu não sabia, porque o foco da minha faculdade era o de Bacharel, e não trazia para as atividades escolares, porém, quando fui para o Instituto Ipanema, a gente começou a desenvolver tudo isso. Tinha que começar com atividades para chegar até o esporte, ensiná-las de uma forma mais prática, fazê-las ganhar mais lateralidade, flexibilidade, coordenação motora, para poder ajudá-las na pratica esportiva, e até mesmo no dia a dia. Hoje em dia tem gente que não sabe sequer andar, não sabe correr, e essas atividades ajudam neste ganho de como aprender a fazer tudo isso, sem se gastar muita energia”.



O início do trabalho com a psicomotricidade, em Gaspar Lopes, começou também por esses tempos em que ainda estudava. “Comecei a dar atividades pelo programa Mais Educação, em Gaspar Lopes, em 2011. Lá, além da dança, fazíamos também recreação, no horário da saída das crianças, porque muitas delas moram nas roças. Tínhamos de entretê-los, até que o transporte escolar chegasse para levá-los para suas casas. Fazíamos brincadeiras lúdicas. Tinha de ter sempre algumas ‘cartas na manga’, porque não iria conseguir dar dança o tempo todo, tinha de dar atividades mais fáceis, para dar oportunidade para todas elas trabalharem. Aí fomos misturando, testando, até dar certo, encontrar as atividades para integrar todos eles”.



Mas se Wellington, sequer formado ainda era, de onde teria tirado todos esses conceitos da psicomotricidade? “No início da faculdade, temos uma matéria chamada ‘recreação e lazer’, onde aprendemos a trabalhar com os alunos de maneira mais lúdica, brincadeiras. Foi daí que começou a surgir estas atividades, foi aí que comecei a pegar essas coisas que aprendia na faculdade e levar para as crianças”.







Na verdade, a ligação de Wellington, com o corpo em movimento, começou bem mais cedo, quando era ainda uma criança. “Antes de começar, na faculdade, eu já dava aula de dança, no projeto Alô Criança, que funcionou na Vila Esperança. Tinha apenas 12 anos. Foi ali que comecei a querer ser professor. Também tive um grupo de dança, em 2001, ‘Explosão Dance’. Também dancei com o professor Marinho, no grupo MD, mas ele foi embora para o Japão. Foi quando montamos este grupo de dança. Depois do projeto Alô Criança, fui para o Instituto Ipanema”.






Wellington em time de vôlei de Alfenas
Wellington sonhou ser dançarino, mas a inquietude do corpo com a pratica esportiva acabou mudando definitivamente seu futuro. “No início, meu sonho era ser dançarino, mas quando somos criança, temos tempo para fazer de tudo um pouco, e eu fiz muita coisa. Nesta mesma época da dança, jogava vôlei numa escolinha do Polivalente, futebol, teatro, fiquei tempos atuando no grupo Folgazan”.










Wellington em ensaio teatral.
E se um problema físico impediu que Wellington seguisse carreira como atleta, a psicomotricidade deu a ele uma nova visão sobre a formação de um jovem talentoso para o esporte. “Até um tempo atrás, jogava vôlei, mas o joelho não deixou mais. Se tivesse tido as atividades que dou hoje para os jovens, talvez tivesse seguido carreira no vôlei, porque as atividades que dou, permitem também a revelação de talentos no esporte. Dá para ver, tem crianças que se adaptam mais rápido, que são propícias a fazer algumas atividades mais rápido do que outras. Tem como saber, tem como diferenciá-las. Não para o esporte, porque a psicomotricidade não tem o esporte, tem várias práticas, movimentos”.


Sendo assim, o que seria psicomotricidade para Wellington? “Nada mais é do que atividades elaboradas para trabalhar, tanto a coordenação motora como o psíquico. Precisamos ter o raciocínio lógico para poder jogar um jogo. Temos que ter a parte motora, para conseguir se desvencilhar, equilíbrio, lateralidade, para poder seguir até o final do percurso a ser feito. Então, a psicomotricidade é uma atividade elaborada para a criança poder ter esse ganho, melhora, tanto na parte psicológica quanto na motora, além do afetivo, porque, trabalhando em grupo, conseguimos trabalhar o social, a afetividade da criança com as outras pessoas”.











Afetividade, carinho, respeito, é o que o “tio” Wellington tem conquistado dia a dia no núcleo de Gaspar Lopes do Cidade Escola. O segredo para que tudo isso aconteça? “Não tenho uma abordagem ou técnica específicas, vou conversando, sentindo quem é cada uma, ‘trocando’ o tempo inteiro. Tem crianças ali que nos abraçam, chamam de pai, então, vamos trabalhando essas coisas. É muito bom. Isso é por conta da atenção que dedicamos a elas”.




E a cada novo dia, Wellington descobre novas formas de se relacionar com suas crianças na psicomotricidade. Apenas com o jeito alegre de ser, distribuindo um simples abraço, lembranças que o fazem sorrir de gratidão por um deles. “Tem um menino lá que é bem complicado no relacionamento. Não gosta de perder em nada, bem problemático, mas, ao mesmo tempo, é muito carinhoso. Tem apenas 4 anos. Ao mesmo tempo que é muito carinhoso, é também muito bravo. Se perde, não gosta de perder. Quando faz muita bagunça, peço um abraço para ele e digo: ‘gosto tanto de você, vamos brincar certinho?’. Aí, ele se acalma. Gosto da maneira que me chama, ‘Élitão”, talvez, pelo meu tamanho, bem alto”.


É alto, sim, 1m93 de pura alegria e simplicidade. “No começo, pelo meu tamanho, as crianças ficam meio assustadas, mas, com o tempo, começam a perguntar: ‘quem é esse grandão?’. Começam a perceber que ‘tamanho não é documento’”.


E assim, Wellington segue sua rotina, aprendendo e convivendo com os pequenos. Alegrias e tristezas com os resultados alcançados com seu trabalho, nas escolas, em Gaspar Lopes, e, também, em academias da cidade, na dança ou com a psicomotricidade. “Vários casos me tocam, sensibilizam, mas é recompensador ver a melhora deles dia a dia, ver que você pode ajudá-los de alguma forma. Da mesma forma que é bem triste quando você passa pela rua e vê alguém para quem já deu aula e percebe que deu errado. É bem triste”.









Aos 30 anos, Wellington mora com os pais, gente da terra, batalhadores que sofreram para ver apenas um dos filhos formado em uma universidade. “Somos em 4 irmãos (2 homens, 2 mulheres), só eu me formando. Família simples, pobre. Foi bem difícil, por isso estou tentando me formar há 7 anos. Fui fazendo aos poucos, quando tinha dinheiro para pagar”.

O esforço está valendo a pena. E Wellington aprendeu o maior segredo para ser tão querido por suas crianças. “Criança é muito verdadeira. Se gosta de você, gosta mesmo. Se não gosta, não faz questão nenhuma. Por isso a gente tem que ter essa alegria, dia a dia, tentar conquistar todo mundo, se não, você não fica”.


















































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