quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Cidade Escola: Gigante na capoeira e na vida


Dizer que Alfenas tem tradição em diversas artes marciais, como Karatê, Judô, Jiu-Jitsu e Taekwondô é “chover no molhado”. O que poucos sabem é que a cidade tem também uma rica história na Capoeira, uma das lutas mais tradicionais do Brasil. E um dos integradores culturais do programa Cidade Escola tem ligação direta com a construção desta história na cidade. Mas, para chegar até ele, é preciso conhecer o significado desta luta e de outra pessoa extremamente importante neste contexto.


Não apenas uma luta, porque a capoeira é uma expressão cultural brasileira que mistura arte marcial, esporte, cultura popular e música. 

Ela foi desenvolvida no Brasil por descendentes de escravos africanos e cresceu tanto que acabou recebendo da Unesco, em 2014, o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.






 A capoeira é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e complexos, utilizando chutes e rasteiras, além de cabeçadas, joelhadas, cotoveladas, acrobacias em solo ou aéreas. O que distingue a capoeira das demais artes marciais é sua musicalidade, pois, seus praticantes aprendem não apenas a lutar e a jogar, mas também a tocar os instrumentos típicos e a cantar.







Mestre Buiu
 A história da capoeira, em Alfenas, tem que, obrigatoriamente, passar pelo nome de uma pessoa: Oriel Rezende. 

Opa, mas alguém saberia de quem se trata? Se disser, mestre Buiu, com certeza todos irão identificá-lo. 

Ele é do interior de São Paulo, Caçapava, onde criou o grupo de capoeira “Caminho do Sol”. 











Mudou-se para Alfenas e alterou o nome para “Raiz Mineira”, um grupo criado no ano de 2.000 com o objetivo de preservar e cuidar da raiz da raça negra e da cultura mineira, valorizando a arte da capoeira. 

São mais de 30 anos difundindo a arte da capoeira, em Alfenas, em todos os cantos do Brasil e diversos países. 

Retornou há alguns anos para o estado de São Paulo, onde criou um Centro Cultural, na cidade de Biritiba Mirim.





Mestre Buiu e "Gigante", ainda bem jovem (a direita).
Em Alfenas, formou dezenas de discípulos e ensinou para milhares de jovens a arte da capoeira. 

Entre tantos seguidores, um é especial. Fernando de Paula Reis justifica o apelido recebido. 

“Gigante”, não é só ironia pela baixa estatura, 1,63m, mas pelo imenso talento que possui na pratica de qualquer esporte. 

Ele é um dos integradores culturais do Cidade Escola. Dá aulas de capoeira. Começou nos núcleos da Vila Promessa e Caensa, como voluntário, e, agora, inicia as atividades na Unifal, com a mais recente parceria do programa.






Fernando "Gigante", paixão por capoeira desde bem jovem.
Fernando “Gigante” é um jovem de apenas 26 anos e começou a jogar capoeira aos 6 anos de idade, ou seja, “respira” esta arte desde sempre, paixão que vem de berço. 

“Nasci em 1991 e naqueles tempos, a capoeira era má vista. Para minha mãe e muitas pessoas era coisa de vândalo, marginalizada mesmo. 

Além disso, ela não tinha condições de pagar. Comecei a ver exibições na tv, e copiava tudo, sozinho”, recorda Gigante.




"Gigante" em um de seus saltos espetaculares.
Até que um dia, ele conheceu alguém que o marcaria para sempre. “Quando comecei a praticar, de verdade, já tinha muita noção de tudo. Um dia, no Poliesportivo, meu mestre e seus alunos estavam lá e fui acompanhar. 

Comecei a saltar e ele ‘pirou’ de ver as coisas que fazia. 

Na hora me falou: ‘menino, você tem que treinar comigo’. Mestre Buiu, uma história linda de vida”.




Mestre Buiu (a direita), Fernando "Gigante" e amigos da capoeira.
Fernando “Gigante” não tem dúvida. “Falar em capoeira, em Alfenas, tem que falar de mestre Buiu. Ele é referência, aqui, no Brasil e no mundo”. 

De família humilde, treinar na academia do mestre de capoeira mais importante da cidade não passava de um sonho. “Ele tinha os meninos que pagavam, e tinha os que mantinham a academia, os atletas, o cara bom, que é o menino da favela, só que muitos começaram a desviar nas drogas. 




"Gigante" nas primeiras turmas de capoeira
Comecei a treinar muito com ele, mas não tinha dinheiro para pagar. Era bolsista, limpava a academia uma vez por semana. Vendo e praticando. Era das 7 às 8 da noite. Das 8 às 9, adultos. Ele me passou de criança para adulto, rapidamente. Havia um título que ele dava para o melhor aluno do mês, mas decidiu parar, porque eu ganhava todos, seis vezes seguidas. Ele dizia: ‘olha só a dedicação desse menino entre tantos praticantes’. Nesta época, ele tinha uns 350 alunos, de vários colégios particulares”.




“Gigante” é daqueles fenômenos precoces no esporte. Começou na capoeira, mas descobriu bem cedo também que tinha dois outros talentos. “Comecei na capoeira, mas aí veio o futebol. Era muito bom, fiz testes, cheguei a jogar em Monte Sião. Jogava de lateral esquerdo, no futebol de campo, e na quadra, em qualquer posição”.









E ainda sobrava tempo e disposição para outra modalidade. “Futebol e capoeira, sempre juntos, desde os 6 anos. Mas, com 10 anos, meu pai me ensinou a nadar. Existia o Joesa (Jogos Escolares de Alfenas) e ganhava de todos do colégio das irmãs, que tinham muito mais preparação do que eu. Eles treinavam na Peixinho Dourado, uma academia de natação. Meu pai mostrou um vídeo meu nadando para o Paulo Marcio, reitor da Unifal, e ele, na hora, disse para meu pai que pagaria as aulas na Peixinho Dourado”.




Capoeira, futebol e natação. “Gigante” nadava, nadava e nadava, chegando a ganhar um campeonato sul-mineiro. Conciliar tantas atividades em alto nível, não era nada fácil. Em pouco tempo, “Gigante” começava a descobrir outro talento nato, o de professor. Coordenava um projeto social, mesmo ainda tão menino. “Mestre Buiu me colocou para dar aula quando tinha apenas 14 anos. Eu tinha um projeto lá no campo do Pôr do Sol. Estudava meio período, fazia natação, ia do Jardim Nova América (onde morava), até o Peixinho Dourado, a pé. Nadava 3 km por dia. Só eu de pobre, o restante eram todos ricos. E ainda o futebol, na escolinha do Alexandre, quarta e sábado. No fim do dia, pegava o som, e ia para o campo do Pôr do Sol dar aulas”.





A cada novo dia, “Gigante” revelava um novo talento. “Das 6 às 8 da noite dava aula. E das 8 as 9, treinava com os adultos. Dar aula e treinar, nunca dá certo na capoeira. Fui o único, e o mestre tentou com vários”. A explicação para tanta energia e disposição? “Eu sempre tive o dom do esporte. O esporte é minha vida. Se eu entrar amanhã, no Karatê, que eu nunca pratiquei, tenho certeza que vou despontar. Me dedico, mesmo. Tudo que faço, tento fazer bem feito”.






E foi exatamente por toda essa determinação, paixão pelas lutas, que “Gigante” acabou entrando, também, no mundo do MMA, artes marciais mistas, e ainda do Muay Thai, arte marcial tailandesa.

No MMA, fez quatro lutas, duas vitórias e duas derrotas. No Muay Thai, dá aulas. No universo das artes marciais, “Gigante” acabou descobrindo algo fundamental para seu comportamento diante da vida.

“O MMA tem uma coisa que nem a capoeira, a natação e o futebol me ensinaram. Quando perdi uma luta, no Tênis Clube, não sabia perder na vida, em nada, só apelava. E, neste dia, perdi, e mesmo assim, todo mundo me aplaudindo, ‘isso aí Guerreiro, lutão’. Aprendi que perder não era tão ruim quanto imaginava. O povo gritava: ‘Giganteee’, porque fiz uma boa luta, e eu vou e perco, saí chorando. Foi um pedacinho só da minha vida, mas de grande proveito”.







Perder, não uma luta, mas uma oportunidade decisiva na trajetória de vida. Foi o que aconteceu com “Gigante”, quando tinha apenas 14 anos de idade. O talento e habilidade para jogar capoeira, mesmo ainda tão jovem, fez com que recebesse o convite para se apresentar na Coréia em um show de capoeira. Mesmo com todas as despesas pagas, sua família não autorizou a viagem. Ficou a decepção, mas não a vontade de continuar evoluindo no mundo da capoeira. Todos os anos, participava das competições e eventos que surgiam, em Alfenas, ou em qualquer cidade do Brasil.


Apesar de tanta experiência, mesmo ainda tão jovem, a capoeira, como esporte, tem suas características, e, talvez, por isso, “Gigante” ainda não tenha o título oficial de “professor”. “Poucos sabem, mas na capoeira, fui considerado o melhor capoeira do Brasil, entre os jovens. Tivemos poucas competições, porque a capoeira é uma arte muito desorganizada, não é como o karatê, que faixa preta é preta em todo lugar. A minha ‘corda’ (na capoeira utiliza-se o termo corda e não faixa), por exemplo, é verde e roxa. Tem lugar em que o verde é a primeira, e na minha é a oitava, e ainda falta confirmar a roxa, porque a roxa é para instrutor. Depois, seria roxa e marrom, para professor. Depois, marrom e vermelha, mestrando; depois vermelha e branca, que é a do mestre Buiu. Ele ainda tem que confirmar a de mestre, que é a branca. Cada corda varia o tempo. Eu, por exemplo, muitos dizem que já deveria estar com a corda de professor, porque jogo igual a qualquer professor ou mestre, mas isso é uma decisão de meu mestre”.


Tantos detalhes assim, porque a capoeira tem também diversas linhas de trabalho. “Angola, Regional, Maculelê (que engloba na capoeira). Capoeira é uma arte que as outras artes culturais estão amando, tipo samba, samba de coco, jongo, congo. A capoeira dá espaço para elas e assim começa o resgate da arte. Regional é a capoeira de mestre Bimba. Tem a capoeira de mestre Pastinha, que é Angola. Criaram essas divisões, só que capoeira é capoeira. Mestre Buiu é da capoeira regional, mas a regional contemporânea, nova. Somos meio contra os angoleiros porque a gente joga Angola, mas eles não jogam a Regional. São raros os que jogam”.


Por iniciar tão cedo na capoeira, “Gigante” cresceu aprendendo, também, sobre as origens desta arte. “Capoeira era uma luta violenta, mas começou a se transformar em dança, por causa da música. Mas o porquê da música? Quando os escravos estavam lutando, era proibido. Tem um toque que se chama ‘cavalaria’ e quando tocavam isso, que imitava a passada de um cavalo, eles começavam a dançar, de verdade, para disfarçar os feitores. Capoeira é uma luta disfarçada em dança. Capoeira foi proibida, no século passado, as pessoas eram presas por ‘vadiagem’”.


Mas para quem pensa que não há “disputa”, e apenas shows ou apresentações, se engana. “Na competição, há categorias, como acrobacias, entrada e saída eficientes (que é a ‘tesoura’ bem aplicada, martelo no rosto, golpes encaixados). Tem a parte da música, porque existem grandes cantores na capoeira. Tem também a parte de instrumentação (quem tira o toque mais afinado), como se fosse um campeonato de violão, atabaque, berimbau”.



Por incrível que pareça, por conta do tempo que se dedica à capoeira, “Gigante” nunca ganhou um centavo com isso. 

Nem mesmo quando participou, há dois anos, como voluntário, da criação de um projeto social em Alfenas chamado Zara. Agora, como bolsista do Cidade Escola, recebeu seus primeiros 500 reais na vida como integrador de capoeira, no núcleo Caensa. 

Também não deixou de seguir os passos de mestre Buiu, exibindo-se em diversos cantos do país, pela rede criada pelo seu mestre: Rede Anca, núcleo Agbaiyê.








Para sobreviver, “Gigante” teve que se virar, e ouvir as recomendações de seu mestre sobre o seu futuro na capoeira. 

Em breve, Alfenas poderá perder um dos mais fiéis seguidores da arte da capoeira. 

“Meu mestre vende berimbau para o Brasil inteiro no site dele. Ganha mais do que dando aulas de capoeira. Ele se vira e me diz que viver de capoeira, no Brasil, não é possível. 

Já me falou para pegar firme nas minhas coisas e quando surgir uma oportunidade ir embora para o exterior. Já conversei com minha esposa. 

O plano é esse, ir e ficar uns 6 meses por lá e ela ir depois”.






"Gigante" em sua serralheria, em Alfenas.
“Lá”, que afirma “Gigante”, é na África, Angola, porque gostam da “capoeira show”, especialidade dele. Enquanto o sonho de viver da capoeira não chega, mesmo que em terras distantes, ele segue lutando para sustentar a família, mulher e filhos. O projeto de se mudar para outro país também se deve a outra arte que “Gigante” aprendeu para crescer profissionalmente na vida. “Faço portão, fachada, letra-caixa, corrimão, tudo que tiver ferro, eu faço. Desde os 14 anos mexo com isso, mais da metade da minha vida. Fui aprendendo, sozinho. Nunca, ninguém me ensinou a fazer um portão, hoje, faço qualquer tipo deles”.


“Gigante” mantem, com muita dificuldade, uma pequena serralheria no quintal da casa onde mora. E justificando outro apelido que tem, “Guerreiro”, continua a sonhar com voos maiores na sua vida. “Meu sonho é montar uma empresa de serralheria, mas moderna, tudo limpinho, arrumado. Nos Estados Unidos, mulheres trabalham em serralherias, uniformizadas, macacão branco. Não é como aqui, tudo bagunçado, escuro, sujo, parecendo oficinas mecânicas antigas. Eu penso fazer isso, só que é tudo difícil, né, ‘guerreiro’? Tô na luta, o tempo todo, não para”.


Não para, mesmo, nem com a grave contusão sofrida há alguns meses no tendão do pé que o impede de dar seus saltos perfeitos e altos na capoeira. 

“Gigante” nunca parou para reclamar das dificuldades que a vida impôs a ele, por suas origens. “Nunca passei fome, mas passamos muitas vontades. Sempre fui um cara que tirava da minha boca para ajudar o próximo. Esse é o meu coração”.

Ao invés de se queixar das dificuldades, “Gigante” prefere desabafar com outro talento desenvolvido por ele. Canta e também já compôs dezenas de poemas e letras de músicas. “Já participei de um grupo de rap, ‘Sistema louco’, que tinha o lema: ‘vivendo de lama, atrás de diamante’. Era o que a gente vivia”.






Na letra abaixo, cantada por ele quando gravou este depoimento ao blog do Cidade Escola, aparece a citação de dona Ana, sua mãe, a pessoa, segundo “Gigante”, “minha maestrina maior. Ela me acompanhava em todos os jogos e apresentações que fazia, desde menino”.

E sem nunca perder o que as diversas práticas esportivas lhe deram ao longo da vida, especialmente com a capoeira, “Gigante” segue com disposição para continuar a lutar. 











“Aí, sofredor, vamos ‘junto’ sonhar, sonhador, pegar as taças e vamos brindar, de tênis de pano, abrigo colorido, boné de mano, falando na gíria, mas sempre na paz, ensinando os humildes perdoar os rivais;

Eu vou de Comodoro preto, Cadillac, ouvindo a melodia do meu mano Tupac, o céu ‘loco’ estrelado, preto fosco, desculpa dona Ana, pelo desgosto, tirar o sorriso do seu lindo rosto, chapando, jogando bilhar, desandando, Jesus morreu por nós, em um madeiro romano;

De chão vermelho encerado brilhante,
Vivendo na lama atrás de diamante,
A lua ofuscante vai clareando ao céu, e o caminho dos humildes, só Deus é fiel, vem aventurar, aventureiro, com amuleto da sorte, guerreiro,

De fundo de quintal a terreiro, meu berimbau comemora,
Liberdade do negro”








E “Gigante” ainda reforça. “O trecho ‘de chão vermelho, encerado, brilhante’, é por causa do chão da casa da minha avó, que era vermelhão, brilhante. ‘Vivendo na lama, atrás de diamantes’, tipo, sofrendo, para um dia ser alguém na vida, na honestidade. Tenho vários amigos, hoje, que são tudo do ‘corre’ (comércio de drogas), ganham dinheiro, mas não são felizes, não dormem, eles me falam. É um caminho sem volta”.








"Gigante", no núcleo Vila Promessa do Cidade Escola.
Bem diferente de “Gigante”, do “Guerreiro” Fernando, que mesmo se partir para ganhar a vida com a capoeira em outro continente, voltará um dia para a Alfenas que o projetou neste universo da ginga, saltos e toques afinados de berimbau. 

Bons voos, “Gigante”.


























































Um comentário:

  1. Parabéns guerreiro eu fico muito orgulhosa lendo tudo isso. Saiba que apesar da distância eu sempre estarei aplaudindo seu sucesso, fixo muito feliz e acredito no seu sucesso. E o que mais desejo è que um dia vc possa ter experiências fora do Brasil 😃 sucessos garoto admito muito seu talento grande abraços de sua amiga Shirley

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