segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Cidade Escola: Ti Rob, o fazedor de pipas


No próximo dia 24 de setembro um pedacinho de céu da cidade de Alfenas, mais especificamente, no bairro Pinheirinho, estará mais colorido. Após ser abandonado pela antiga administração pública, o Campeonato de Pipas, evento tradicional da cidade há 10 anos, retorna com força e apoio total do Cidade Escola.

Sim, Cidade Escola não é construído somente com atividades físicas, esportivas e culturais, mas também com eventos, gente na rua, convivendo, aprendendo e se divertindo. E quer coisa melhor do que empinar pipa, resgatar e preservar essa brincadeira que encanta de pequenos a marmanjos?


E a produção desta edição do Campeonato de Pipas não poderia ser feita por outra pessoa com apelido para lá de curioso: Ti Rob. Só por ele não, mas também pela inseparável esposa, Simone.

Este casal não é só apaixonado por pipas, mas, principalmente, por todas as experiências diárias que passaram a ter com crianças de quase todos os bairros da cidade. Pipas e crianças, duas paixões na longa e emocionante história de vida deste casal.


 Ti Rob além de ser apelido de um homem virou marca da loja que o casal toca com tanto esforço e carinho há mais de 15 anos na cidade. 

Mas, afinal, por que Ti Rob? A pronúncia correta de Rob é com o som de acento circunflexo na letra “ô”, e não agudo, de Rób. “Me chamo Roberval, ficou Rob porque os sobrinhos da Simone começaram a me chamar de ‘tio Rôb’. Outras pessoas ouviram e o apelido pegou, porque eles falavam rápido, e parecia estarem dizendo Ti Rôb. As pessoas passam, aqui, na rua, e me chamam: ‘ei Ti Rob, ei Ti Rob’, às vezes nem sei quem é, mas respondo”.










E ainda hoje, Ti Rob  nos telhados
Ti Rob já teve outro apelido, aos seis anos de idade, quando começou a paixão por empinar pipas. 

“No bairro Aparecida, próximo a igreja, existe o bar do meu pai, seu Nenê. Foi onde nasci e me criei. Ficava o dia inteirinho em cima de um telhado. Meu apelido no bairro até hoje é ‘caquinho de telha’. 

Era muito magro, petitico, e ficava lá em cima do telhado, empinando pipas, com a ‘flechinha (modelo de pipa no formato de um peixinho) na mão o dia inteiro”.











E Rob cresceu assim, sempre soltando e fazendo pipas, até chegar a adolescência e se apaixonar por Simone, sua esposa há 20 anos. Ele conta que conheceu Simone aos 16 anos. “ A gente brinca, porque digo que iria denunciar ela um dia por ‘abuso de menor’. A vida inteira ela mexeu com roça e minha família inteira também. Montava em boi, na roça do Ernani, na Companhia de Rodeio 5 Estrelas, que fica próximo do Clube do Banco do Brasil, no Pinheirinho. Trabalho até hoje, lá, como salva-vidas, quando acontecem os rodeios. Meu trabalho é chamar a atenção, distrair o boi, quando o peão cai, para não deixar ele se machucar”.


Rob, salva-vidas em rodeios
E as afinidades do casal pelas coisas da vida na roça os aproximou ainda mais. A paixão pelas pipas era algo ainda impensável. “Desde pequeno ele acompanhava meu cunhado, que levava bois do rodeio para outros lugares. O Rob gostava muito e ia atrás dele. Morei sempre no centro, mas a infância cresci na roça, no bairro Capoeirinha. Minha mãe teve 15 filhos, sou a caçula, me teve com 41 anos. Vivemos na roça, vida boa, dura, mas boa. Trabalharam a vida inteira na roça. Meu pai plantava e vendia de tudo: alho, batata doce, amendoim, tudo que se pensar ele plantava. E é vivo até hoje, 90 anos”, relembra Simone.












Rob namorou Simone até completar 18 anos. No ano seguinte, teve de servir o Tiro de Guerra, mesmo a contragosto, porque estava a caminho um personagem fundamental no surgimento do comércio com pipas, o filho Gabriel. Simone estava grávida e por isso Rob queria largar o Tiro de Guerra. Segundo ele, foi difícil conseguir a dispensa. “Teve concurso para ir para o Rio de Janeiro, Angra dos Reis, passei em tudo, era bom de correr, nadar, passei na aptidão física inteira. Eles me disseram: ‘você passou, mas para ir, não pode ter filho registrado em seu nome. Você decide, se for, não pode registrar seu filho’. Claro que não quis ir”, recorda Rob.


Gabriel e Rob, pai e filho, paixão por pipas.
O filho Gabriel foi também um dos responsáveis pela paixão do casal por pipas. Rob trabalhou durante quase oito anos na Unifi (Indústria de Tecidos), como “manipulador”, pegava caixas movimentando-as para lá e para cá, o dia inteiro. Até que um dia... “Deu tendinite, nos dois cotovelos, não aguentava erguer mais nada, tomava remédio, injeção. Cheguei a ir até Campinas para me tratar, mas nada resolvia, até que um dia, o médico da Unifi me disse: ‘Olha Roberval, sinto muito, não tem cura. Você vai ter que sair do serviço se quiser parar de ter dor’. Então respondi a ele: ‘Mas doutor, como é que vou sair se tenho que sustentar minha família?’”





Gabriel, sempre empinando pipas.
Não teve jeito, Rob teve de deixar o trabalho. Em um final de semana, quase 10 anos atrás, Rob saiu de casa, para comprar pipas, para brincar com o filho Gabriel. Foi até a Vila Betânia, na casa de um senhor de apelido “Paulista”, o único lugar de Alfenas que se vendia pipas. E a decepção foi enorme. “Quando cheguei lá, não quis vender e respondeu bravo para mim: ‘Vem depois, não tá vendo que estou lavando a grelha, agora é hora de churrasco, não é hora de pipa, não’. Fiquei sentido, voltei, vim embora”.

Rob estava desempregado; havia acabado de receber o que tinha direito da Unifi. Era pouco dinheiro, mas o suficiente para que o sonho de um casal começasse a acontecer, sem eles mesmo saberem. “Fizeram o acerto dele. Ele pegou um dinheirinho e me perguntou: ‘Por que você não vai para São Paulo, comprar roupa para vender, aqui?’, conta Simone. Nesse mesmo dia, Rob contou à mulher a história do vendedor de pipas. Isso parece que acendeu uma ideia na cabeça de Simone. “Foi quando disse a ele: ‘Poxa, só tem esse cara que vende pipa aqui e vocês gostando tanto disso. Por que não começa a fazer pipa para vender, então?’, questionou a mulher.



Ti Rob no início da loja
E assim começava a surgir a Ti Rob. “Não me esqueço disso. Fomos para São Paulo. Tinha sobrado uns 3 mil reais da rescisão do trabalho do Rob. Compramos 2 mil em roupas e 500 reais em pipas. Meus irmãos queriam nos matar, por ter gastado 500 reais em pipas”, lembra Simone, com um sorriso.

Com os 500 reais, Rob e Simone compraram de tudo um pouco, 250 pipas, carretéis de linha, rabiolas. O resultado do pequeno investimento, assustou o casal. “Chegamos aqui, colocamos todas as pipas na sala, aí, o Gabriel, nosso filho, falou para os amiguinhos dele daqui da região. Acabou tudo em 3 dias. Uma semana depois tivemos de voltar para São Paulo e comprar mais. De 500 reais, a segunda compra já foi de 1.200, tenho as notas fiscais até hoje. Dos 2 mil de roupas, tem gente devendo pra gente até hoje, enquanto os 500 reais das pipas, foi só aumentando. Graças a Deus”, relembra com orgulho Rob.





Deus e muito trabalho e suor do casal. “Era longe o lugar para comprar as pipas, muito complicado, pegar ônibus, metrô, com aquele tanto de coisa pra trazer. Era pra lá de Diadema, Vila Missionária, uma verdadeira ‘missão’ chegar até lá, muito sacrifício e sofrimento. Aí arrumamos um carro de um sobrinho da Simone pra ir, um Fiat, pequeno, mas eu e ele não tínhamos habilitação, então, a gente tinha que pagar um motorista pra ir com a gente. Quatro num carro pra trazer as compras de pipas”, recorda emocionado Rob.




Simone, fascinada pelos desenhos das pipas, lembra-se das primeiras compras em São Paulo. “Fomos no ‘escuro’, pesquisamos e encontramos uma loja de atacado na internet. Nenê Pipas, mesmo nome do pai do Rob. Era linda, enorme, faziam pipas com desenhos artesanais”.















Foi uma explosão de cores, desenhos e modelos. A loja de Ti Rob tornou-se rapidamente a alegria de milhares de crianças de Alfenas. Gente de todos os cantos da cidade e toda a região descobriu que havia uma loja de pipas “de verdade” em Alfenas, e a notícia se espalhou por cidades como Campos Gerais, Areado, Machado, Campo do Meio. “A gente vai a outras cidades soltar pipas, nos finais de semana, porque vendemos pra toda essa região. Tem muito freguês, compram para revender. A gente acaba fazendo amizade, aí todo mundo vai”, afirma Simone.



O casal compra as pipas em grandes quantidades, no atacado, mas Rob passou a produzir suas próprias pipas também e por uma razão simples, como empinador e fazedor de pipas desde os seis anos, ele sabe muito bem o que fascina uma criança. “Como vendem para o Brasil inteiro, eles colocam nos pacotinhos as mais bonitas do lado externo, mas, no meio, como não tem como abrir o pacote fechado, sempre acaba vindo várias rasgadas, feias, estragadas. O prejuízo era grande, então, comecei a fazer também, porque a gente gosta de boniteza, beleza. Fomos estudando e começamos a comprar as varetas, folhas, faço mais barato, sai mais no jeito. Faço desenhos também, tudo na mão, recorte por recorte. Chego a fazer 200 pipas num dia”.









Construir pipas é uma arte, exige técnica e conhecimento. Nos tempos de infância de Rob, os acessórios para construir uma pipa eram bem mais simples. Hoje, só estão mais sofisticados, mas continuam com a mesma finalidade. Antes, eram as latas de óleo, azeite, extrato de tomate, agora, são os carretéis coloridos que facilitam na hora de enrolar a linha. As latas hoje são pintadas e mais bonitas.

Os carretéis de mão são de plástico e chamados de “cones”, é possível encontrar em vários tamanhos, cores, modelos. Existem também as carretilhas, pequenas, médias e, enormes, que chegam a ter 24 mil jardas de linha.


Máquina para transferir linhas
dos carreteis para latas ou cones.
A tecnologia chegou também no mundo das pipas. Até enrolar a linha na lata, que era complicado no passado, ficou muito fácil. Nem esse trabalho as crianças têm. Com uma máquina, Rob transfere em segundos a linha do pequeno carretel para a lata, cones ou carretilhas. Outra máquina faz a “rabiola”, espécie de calda com fitinhas de plástico que vai amarrada no final da pipa.

E as próprias pipas, o que mais interessa a todos, também ganharam nova “tecnologia”. Antes, eram feitas em bambu ou varetas finas chamadas de “japonesa”. Agora, utiliza-se também varetas de fibra sintética.












Um modelo de raia
Os modelos continuam os mesmos, com nomes diferentes nas diversas regiões do país. Antigamente, existiam basicamente três tipos de pipas: “peixinho”, que pode ser chamado de flechinha; “raias”, um formato maior de peixinho e “maranhão”, a pipa tradicional. Em Alfenas, Rob constrói a “Chupão”, a antiga raia, só que bem maior; pipa “estilo pizza”, mais ligeira, larga, flexível, para pegar vento mais fácil e a pipa “murcha”, mais larga, com vareta mais mole, no ar, chega a murchar.

Tantos formatos de pipas são para permitir que elas voem mais rápido, e, também para debicar, ou seja, fazer a pipa ir para os lados, direito ou esquerdo com pequenos trancos na linha do empinador, ou realizar o ‘retão’, que é fazer a pipa debicar em linha reta para baixo por um longo tempo.









O modelo que Ti Rob prefere nas pipas
Entre tantos modelos de pipa, Ti Rob tem o seu preferido, criado por ele. “A estética tradicional é diferente, a vareta da horizontal, de baixo, é menor, para que a pipa fique mais ligeira, é bem mais ‘mole’, levanta e debica mais fácil, mergulha, faz de tudo”, garante Rob.

Ti Rob pode ser considerado um “designer” de pipas, pois ele garante que tudo é tirado de sua própria cabeça. “Minhas pipas foram todas construídas na intuição. A ‘centopeia’, por exemplo, nunca vi em lugar nenhum, fiz da minha cabeça. 



Centopeia criada por Ti Rob
Só tinha visto um dragão chinês, mas do formato daquela centopeia, nunca ninguém fez, e fiz no escuro”. E também com vários outros desenhos diferentes como a do Palhaço, Cowboy (vestido com calça de couro, cinto de fivela), Coração, e a Brasileira (pipa com quase 7 metros de altura que solta fumaça verde e amarela).









Foi com essas pipas, enormes, coloridas e lindas, que Rob e Simone conquistaram, em Alfenas, todos os campeonatos de pipas dos quais participaram desde 2011. A mesma competição que, eles ajudarão a organizar junto com o programa Cidade Escola. A expectativa é enorme. “Faz quatro anos que não acontece. Esse campeonato foi criado pelo Elvis há uns 10 anos. Antes, existiram outros (décadas de 1980 e 90), organizados pelo Paulinho “Gasolina”, no motocross, indo para a Vista Grande, próximo aos predinhos do Jardim São Carlos”.




 As regras da competição, continuam as mesmas. “São quatro categorias: a maior e menor pipa, a mais criativa, a mais bonita. E uma regra obrigatória: tem que ficar no ar pelo menos 2 minutos, cronometrados. Vamos premiar também o pipeiro mais novo, mais velho, categoria feminina. Eles ganharão vários tipos de prêmios, mas o mais importante são os 500 kits que o Cidade Escola vai distribuir, gratuitamente, com uma pipa flechinha, rabiola e linha”.




E assim as pipas de Ti Rob vão continuar a colorir o céu de Alfenas, integrar e aproximar pessoas, princípio norteador do programa Cidade Escola. Rob e Simone conhecem essa rotina há muitos anos, viram gerações crescerem diante dos seus olhos, tudo por conta da paixão que eles e a garotada têm pelas pipas.






A foto que até hoje emociona Rob e Simone.
Emocionados, Simone e Rob fazem questão de mostrar uma foto que revela exatamente isso, os princípios do Cidade Escola e a paixão deles, pelas crianças, pelas pipas. “Olha isso, estão todos grandes, quase homens feitos hoje. Essa foto resume muito a cidade, garotos de vários bairros como Vila Betânia, Pinheirinho, Santa Rita, e outros, cada um de um bairro, comprando pipas aqui, na mesma hora. Às vezes, ficamos eu, o Rob e o Gabriel (nosso filho) vendendo, e a loja lotada, com gente até fora, na calçada, na rua. Junta muita criança”.


E a razão para tanta emoção pessoal é simples.  “Todos nos chamam de tios, tia Simone, tio Rob, pegamos tanto carinho que acabam virando quase filhos da gente”, reconhecem, com lágrimas nos olhos.








































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