sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Cidade Escola: Caic, transformando vidas


Em apenas seis meses, o programa Cidade Escola já começa a apresentar resultados incríveis, em seus diversos núcleos espalhados por toda a cidade de Alfenas. Não são números ou estatísticas, mas mudanças reais no cotidiano de milhares de pessoas, especialmente, dos mais jovens.

Basta um olhar mais atento para o que vem acontecendo no maior núcleo do Cidade Escola, instalado na Escola João Januário de Magalhães, conhecido como CAIC, para entender de fato que mudanças são essas.


Por se tratar de um núcleo que atende uma região muito populosa, a expectativa sobre os “resultados” era grande. São sete bairros, Itaparica, Campos Elíseos, Vila Promessa, Jardim Primavera, Vila Esperança, Jardim Eunice e Vista Grande. Uma região que concentra milhares de moradores com problemas sociais, até pouco tempo atrás, esquecidos pelo poder público. Havia pouco, ou quase nada para se fazer, a não ser trabalhar e correr atrás das dificuldades impostas pela vida. Lazer, atividades físicas, culturais, esportivas, sorrir, se relacionar, integrar, para que tudo isso em comunidades acostumadas ao descaso?


No início do Cidade Escola, os números de inscritos na região já impressionavam: pouco mais de mil pessoas inscritas. Seis meses depois, já são quase 3 mil inscritos em 32 atividades. Duas mil e duzentas crianças, 800 adultos. Só no Caic, são quase 700 inscritos que tem à disposição 42 integradores culturais nas práticas de violão, karatê, ginástica terapêutica, monitor de leitura, futsal (masculino e feminino), basquete, corte e costura, artesanato, horta comunitária, balé, vôlei, psicomotricidade, xadrez, percussão, jiu-jitsu, hip-hop/break, estética, grafite, fanfarra, ritmos, teatro, informática, skate, dança de salão, desenho artístico, taekwondô, pilates, dança, handebol e natação. Apenas duas atividades não acontecem ali, natação, que é feita no Centro Esportivo Municipal de Educação (CEME), e corte e costura, pois o maquinário está em outro núcleo do programa.


Se números não servem para garantir quase nada na vida, neste caso, justificam o enorme sucesso alcançado durante a realização da 1ª Colônia de Férias do Cidade Escola, ocorrida nas duas últimas semanas de julho, exatamente nas dependências do Caic. Quase 500 pessoas, entre crianças, jovens e adultos, puderam brincar, dançar, relembrar jogos de infância, se divertir, entre as diversas recreações, lanches, refeições e doces, oferecidos gratuitamente.


Mas é no dia a dia do Caic, fora das férias escolares, que se percebem os resultados positivos e concretos do Cidade Escola. Uma das maiores e mais tradicionais escolas de Alfenas está instalada numa imensa área do bairro Vila Esperança. Ali tem creche para 264 crianças, 632 alunos matriculados no ensino fundamental, além de 17 cursos técnicos profissionalizantes do Etec-Caic para 1400 alunos do pós ensino médio e mais 540 do Medio Tec, para quem cursa o ensino médio (a partir do dia 26/08).


Só para o Cidade Escola, são reservadas oito salas de um dos prédios do Caic, fora as atividades realizadas fora delas, nas quadras, arredores e PSFs. Tudo sobre a coordenação do trio BBB, Binho, Biloca e Beiçola, já retratados aqui, em matéria.
(https://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/03/cidade-escola-o-trio-bbb-de-alfenas.html)


Entre as mais de 30 atividades, algumas começam a se destacar e a revelar mudanças na vida das pessoas. “Ginástica terapêutica, balé, dança, pilates, que é uma novidade para muita gente, e, percussão, atrai dezenas de pessoas diariamente. Karatê é imbatível, a estrutura é maravilhosa. O povo gosta, adoram a Cecília, o Sidnei e o Osvaldo. Karatê tem tradição na cidade. As aulas do Sidnei e do Osvaldo têm em média quase 50 praticantes diários. As da Cecília são interessantes porque a atividade é só para os bem pequenos, a partir dos 3 anos. Ela costuma perguntar para as mamães: ‘Tá andando? Então me dá ele aqui’. Começam a treinar bem cedo”, afirma sorrindo um dos coordenadores do núcleo Caic, Everton Piva, o popular Biloca.


Otair, revelação no Jiu-Jitsu
E é exatamente em outra arte marcial, no jiu-jitsu, que se nota o primeiro exemplo, entre os vários que seguirão logo abaixo, de mudanças de comportamento por conta das atividades e princípios que norteiam o programa Cidade Escola. “Otair, 11 anos, é o resultado mais visível no programa, aqui, no Caic, até agora. Menino muito complicado, pai e mãe, problemáticos. Chegou causando problemas de todo tipo. Começou a praticar o jiu-jitsu e mudou completamente seu comportamento. Dentro da escola, tínhamos que correr atrás dele. No primeiro torneio que participou, já ficou em terceiro lugar”, revela Biloca.





Otair, junto com o trio BBB.
O que realmente surpreendeu os coordenadores do Cidade Escola foi outra mudança, essa, muito mais importante e um dos princípios norteadores do programa: dar oportunidades às pessoas. “Levamos o Otair, no domingo, para uma competição, em Boa Esperança, e foi campeão. Percebemos uma coisa interessante, no caminho, pela estrada. O olhar dele estava distante, não estava preocupado com a competição, mas deslumbrado com a paisagem que via pelo caminho. Perguntava a todo instante: que horas vamos passar na Ponte das Amoras? Dissemos que, quando estivesse perto, avisaríamos. Na hora em que viu aquele mundo de água, o olhar dele era indescritível, nunca teve oportunidade de conhecer este lugar, apesar de tão próximo do centro de Alfenas”, lembra emocionado o coordenador Biloca.

E a “surpresa” maior estava por vir. “Na competição, foi a mesma coisa. Todos de quimono, agitados, e ele nem aí, sentado, tranquilo. O psicológico dele já está pronto para aquilo ali, lutar, faltava o empurrãozinho que foi dado a ele, estrutura para treinar, convívio com amigos, regras, disciplina e orientação de um mestre como Camburão. Ele mudou radicalmente seu comportamento”.


Sabe-se que a prática de artes marciais, diminui a agressividade, cria disciplina, aumenta a autoestima de qualquer praticante.

Mas, e se a atividade não gerar adrenalina, será que também pode ajudar na mudança de comportamento de uma pessoa? “Temos também uma criança, de apenas 9 anos, que era bastante problemático na escola, comportamento agressivo. Há seis meses, ele faz ‘monitoramento de leitura’ (similar a reforço escolar), uma atividade que exige exatamente o que ele não tinha: calma, paciência. Melhorou muito. Chegou a nos dizer que, antes, pensava em ser bandido: ‘se meu pai está preso, também quero’. A ‘gíria’ (linguajar) dele, no começo, era forte, agressiva, agora, mudou. Antes, tinha medo, enfrentava, agora, demonstra respeito quando temos que pedir disciplina”, afirma Biloca.







João Paulo, professor Ginástica Terapêutica
E não são só crianças e jovens que estão conseguindo mudar suas vidas com as atividades do Cidade Escola, no Caic. Uma dessas atividades, a ginástica terapêutica, começou discreta, com poucas mulheres, no barracão da escola Napoleão, e, após seis meses de atividade, está virando “febre”. João Paulo, integrador cultural, é bastante conhecido na cidade. Professor de Educação Física e Fisioterapeuta, desenvolve há sete anos esse tipo de atividade. Ele foi o primeiro a se surpreender pelo interesse tão grande desta turma pela ginástica terapêutica.






Mas o que seria isso? “Ginástica terapêutica porque usamos a qualidade de vida. Não usamos aparelhos de musculação, só o próprio corpo. Na ginástica localizada e terapêutica, trabalhamos mais a qualidade de vida para evitar uma série de doenças, como a depressão, stress. A atividade é feita em um circuito. Fazemos o aquecimento, exercício de equilíbrio, coordenação motora, força, agilidade, concentração. Formamos grupos em cada tipo de exercício, acabou um, passa para o outro, até chegar onde iniciou. Fortalecimento muscular é um dos mais importantes, porque, dependendo da idade, a pessoa vai perdendo massa muscular, densidade óssea. Fazendo força com o nosso próprio corpo, vamos recuperando tudo isso, diminui também a osteoporose. Encontramos todos esses perfis nas aulas”, explica o professor João Paulo.



Agora, de segunda a sexta, bem cedinho (no barracão da escola Napoleão) ou começo da noite, as mulheres tomam conta do Caic. São quase 400 alunos, do professor João Paulo, entre as escolas Tancredo, Lago Azul, Caic e Napoleão. Só no Caic e barracão Napoleão, são 120 participantes, de segunda a sexta. Os benefícios? “Dona Selma, por exemplo, 68 anos, me mostrou exames pedidos pelo seu médico, e, após o início das atividades, retornou para saber se havia melhorado. Todos os níveis baixaram. Ela não deixa de fazer um dia sequer as aulas, não saía de casa, tinha depressão. Dona Joelma tomava remédio para depressão, hipertensão arterial, teve problema de joelhos, por causa do excesso de peso, agora, já diminuiu bastante o peso, é outra pessoa”.



Além dos benefícios físicos, João Paulo garante que, terapêutico, mesmo, são os princípios do programa Cidade Escola acontecendo diariamente com essa turma: integrar e conviver. “A proposta é promover a socialização entre as pessoas, uma passar a conhecer a outra, porque passam na casa uma da outra pela manhã e chegam juntas, interagem, conversam e praticam exercícios. A ideia é fazer a pessoa melhorar, dentro de casa, pois, após a atividade, vão para casa, tratam bem o marido, filhos. Suas vidas vão melhorar em torno desta qualidade de vida com os exercícios e o convívio. Não é força, movimentamos o corpo para obter qualidade de vida”.

E não é só a comunidade que se beneficia das atividades do Cidade Escola. Quem trabalha no programa também entra na contabilidade das transformações que estão ocorrendo com as pessoas.


Eliezer, integrador horta comunitária do Caic
No Caic, o jovem Eliezer, integrador cultural, um dos responsáveis pela atividade de horta comunitária, é o exemplo mais claro de um dos princípios básicos do Cidade Escola: ensinar e aprender, sem ser, necessariamente, um mestre, professor. Aos 19 anos, ele não ensina, mas tenta aprender a conviver com seus próprios dramas, apesar de ainda tão jovem. Largou os estudos há quatro anos, quando cursava a 6ª série, na escola Napoleão, pela mesma razão de vários outros jovens da região: o envolvimento com drogas.




Mas, no ano passado, quando soube que o Cidade Escola estava para começar, decidiu que era hora de mudar, tentar novos caminhos para a sua vida. Voltou a estudar, no mesmo Caic, onde, agora, mantém a horta comunitária do local. Está cursando o 9º ano do ensino médio e ainda um curso técnico em agropecuária. “Não sabia nada sobre horta comunitária, mas fui atrás, internet, aqui e ali, cada dia aprendendo uma coisa nova, tentando ficar por dentro do assunto. Acho que está dando certo, né? (apontando para a horta).



Quando terminar meus estudos, quero fazer Agronomia. Com a horta, já estou adquirindo conhecimento, na prática. As crianças, junto com as professoras, ajudaram no início. A horta ajuda muito a acalmar a garotada, e a mim também. A gente fica mais em paz. Com o tempo, passaram a me chamar de ‘professor’. É bom ouvir isso, para poder firmar o pé no chão e não errar mais. Basta querer, só tinha pensamentos ruins, agora, procuro melhorar a cada dia”.




Neuza Marques, integradora Pilates e Dança
Cidade Escola chegou para mudar a vida das pessoas, na cidade de Alfenas. Fazer sorrir, interagir, conviver, se divertir, ensinar e aprender. E não há exemplo mais claro do que acontece com a professora de pilates e dança, no Caic, Neuza Marques. Aos 50 anos, mãe de dois filhos, ex-modelo, vive entre Campos Gerais, sua terra natal e Alfenas. Desde os 4 anos de idade é dançarina, depois, passou a desfilar em passarelas e shows por diversas cidades do Brasil. Está cursando Educação Física e começou a trabalhar como integradora do Cidade Escola com uma atividade praticamente desconhecida pela grande maioria: Pilates. A atividade já é um sucesso, com número enorme de praticantes.


Nestes seis meses de Cidade Escola, Neuza começou a criar vínculos muito fortes com a comunidade da região, muito mais pelo convívio do que pela qualidade de vida que passaram a ter com a prática de exercícios. “O negócio, aqui, é explicar, o tempo inteiro, que, além do Pilates, dos alongamentos, existe a vida, aprendizado, convívio. Devagarzinho, vamos explicando. A maioria sequer sabia o que era isso, Pilates, então, durante as aulas, nos alongamentos, por exemplo, na bola suíça, começamos a criar outros vínculos de proximidade. Começaram a me chamar para ir em suas casas. Conversamos muito. A maioria faz a atividade porque realmente precisa se exercitar, mas a carência maior é a emocional. A autoestima delas mudou completamente”, garante Neuza.



O maior aprendizado e realização que Neuza está tendo mesmo, é com as crianças nas aulas de dança, sua grande paixão. E essa aproximação com elas tinha tudo para dar errado, pois, suas aulas não ensinam apenas ritmos diferentes do que estão habituadas a dançar e ouvir, como sertanejo e funk, mas outros gêneros como flamenco, catira, country e tantos outros, e como podem enriquecer suas vidas. “Estou trabalhando muito mais a questão de ‘cultura’, para terem noção do que é uma dança, como são os costumes em outros locais, estados, países.




Nesta fase, temos que instigar outras coisas, outros ritmos, também para verem a diferença, como fiz no Dia das Mães. Fiz um ‘pupurri’, coloquei frevo, dança do ventre, Michael Jackson (que as crianças nem sabiam ou conheciam). Anos 60, adoraram, saíram todos pela rua, cantando. Aos poucos, vamos mudando. Trouxe minhas meninas de Campos Gerais, dançamos um outro estilo. Uma mulher, como eu, de 50 anos, para elas é um incentivo a mais, para verem que tem uma outra saída, poder resgatar outras formas que não só o funk e o sertanejo. Saímos aplaudidos, várias mães vieram dizer que queriam a filha ‘naquela dança’. Através desta apresentação, surgiram ainda mais crianças nas aulas”.



Carta das crianças para Neuza
Neuza transformou-se em muito mais do que uma professora de dança. As dezenas de crianças estão mudando, e, ela, muito mais. “A gente começa a perceber as mudanças, o carinho delas. Muitas me adicionam no facebook, no zap, me chamam de mãe, me abraçam quando chegam nas aulas. Me emociono a toda hora. Elas me levam até a rua de cima, para eu pegar minha carona para dar aula em Campos Gerais. Tem dias que faço de conta não ver ninguém vindo atrás de mim, e de repente, estão várias ao meu lado. Tudo pelo carinho, respeito. Isso tudo é fruto da carência delas em suas vidas”.

Neuza aprendeu que para entender essas expressões de sentimentos teria de “entrar”, conhecer melhor a realidade de vida dessas crianças. “A gente acaba fazendo parte das famílias deles, mesmo sem querer. Passamos a ser a irmã que elas não têm, a mãe ou o pai, ausentes. Uma aluna me perguntou em uma mensagem de zap: ‘professora, o que é agradecer?’”.




A resposta a essa pergunta, que parece tão simples, chegou no diálogo seguinte, que deixou Neuza ainda mais emocionada e a fez acreditar que o Cidade Escola está transformando vidas, com gestos para lá de simples. “Ela queria saber porque fico mandando figurinha de beijinhos, no zap. Respondi que era porque gostava. E ela retrucou: ‘mas a senhora gosta de mim?’. Então, disse: ‘sim, gosto’. A resposta final dela é o significado de todo esse trabalho e convivência: ‘eu queria te agradecer por isto’”.






















































2 comentários:

  1. O caminho das pedras está aí! Oferecer oportunidades de práticas de vida saudável, física e emocionalmente aos desprovidos de tantas coisas e oportunidades. O resultado positivo pode ate nao ser 100%, mas qualquer valor que seja já será um grande bem. Parabéns a todos os envolvidos.

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  2. Foi bom demais viu valeu mesmo
    Foi um prazer trabalhar com vocês
    Do cidade escola

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