quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Centro de Convivência: Olhos Divinos


Se há núcleos do programa Cidade Escola por onde circulam milhares de pessoas e com uma grande concentração de usuários, coordenadores e integradores culturais, há também aquele que poderia ser considerado o menor entre todos.

O Centro de Convivência de Alfenas não é um núcleo do Cidade Escola, mas tem entre seus vários “oficineiros”, um integrador cultural do programa. Um lugar, especial, repleto de histórias de vida. Quantos na cidade saberiam dizer o que é, quem frequenta, para que serve e, até mesmo, onde fica o Centro de Convivência?


Uma casa comum, localizada na Rua João Pinheiro, 89, próxima a prefeitura de Alfenas. Um lugar aberto para toda a população, que surgiu para acabar com a discriminação e preconceito, e, sobretudo, proporcionar a reintegração e cidadania para pessoas com algum tipo de transtorno ou déficit mental e que se tornou ponto de encontro para aqueles que, a grande maioria da sociedade, de forma preconceituosa, rotula de “loucos”.


O Centro de Convivência foi criado em 2009, quando o antigo Hospital Neuro Psiquiátrico, em Alfenas, conhecido popularmente como Hospital Bagé, foi descredenciado pelo SUS (Sistema Único de Saúde), por não atingir a pontuação mínima durante auditorias anuais do Programa Nacional de Avaliação dos Hospitais Psiquiátricos (Pnash). Em Alfenas, assim como em diversas cidades do Brasil, vários manicômios foram fechados ou descredenciados. E com as novas exigências determinadas pela Política Nacional de Saúde Mental, que segue a Declaração de Caracas, assinada pelo governo brasileiro em 1990, algum outro caminho deveria ser dado a essas pessoas.

“Com o descredenciamento montaram-se ‘Residências Terapêuticas’. Eram para pacientes que moravam no hospital psiquiátrico, Bagé. Tinha gente internada, lá, havia 8, 10 anos. Os daqui de Alfenas viveram pouco tempo neste hospital mas tem gente, como no Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que passou quase a vida inteira, desde quando ainda eram crianças”, conta a coordenadora do Centro de Convivência, Alessandra Teófilo Silva.


Em seis meses, dezenas de pacientes do Bagé foram retirados de lá e passaram a viver nas residências terapêuticas. Nesse momento, o  preconceito e a discriminação ficaram ainda mais visíveis . “Montaram-se oito casas. Para os pacientes de Alfenas seriam só duas, uma masculina e outra feminina. Só que outros municípios não assumiram esses moradores e Alfenas acabou assumindo todos eles, encontrando uma solução que acabou beneficiando não apenas gente da cidade, mas de toda a região. Como essa demanda iria superlotar o Caps (Centro de Atenção Psicossocial), foi criado o Centro de Convivência”, explica Alessandra.


“O Centro de Convivência ajuda muito na integração deles na sociedade, porque o preconceito, a rejeição é muito grande. Quando fomos fechar o hospital psiquiátrico, diziam que eles iriam sair pelas ruas, matando gente. Sempre foi passado que o ‘louco’ é perigoso, pode agredir. Mas, hoje, os recursos proporcionam um tratamento mais humanizado e deixam eles capazes de circular melhor na sociedade. A gente diz que o público prioritário do Centro de Convivência é o do transtorno mental grave, mas recebemos também os de transtornos leves, como depressão e, também, pessoas da comunidade, que, aparentemente, não apresentam nenhum transtorno. Também recebemos dependentes químicos, alcóolicos, ex-usuários de drogas”, afirma Alessandra.


Quem são “eles”? Como definir o que tem? “Não se fala deficiente ou doente, se diz ‘transtorno mental’. Mas aí começaram a dizer: ‘portador de transtorno mental’. A pessoa não é portadora, ela tem um transtorno. O doente tem uma doença mental, o deficiente, um déficit, uma queda do intelecto. Essa é a diferença entre ‘deficiente’ e ‘doente’. As pessoas precisam entender que problemas com a saúde mental podem acontecer com qualquer um, não escolhe cor, raça, é isso que as pessoas precisam compreender para acabar com esse preconceito. A vida entre eles, aqui, é igualzinha a nossa, em casa, com a família. Se divertem, as vezes brigam também, um ‘arranca-rabo’, nada diferente do que acontece conosco, em casa”, ratifica Alessandra.


Desde os primeiros dias do Centro de Convivência, eles foram chegando. Aos poucos, um foi falando para outro, pelas ruas, que existia um lugar diferente para se conviver. O crescimento foi muito rápido.

E o que se fez (e faz) no Centro de Convivência? Como se estruturou para tudo que acontece, ali? Basicamente, por meio da arte e de muito diálogo, nas diversas “oficinas”, atividades lúdicas que permitem uma maior aproximação com a realidade dos usuários. Tudo começou com apenas um tear, mas a montagem de três projetos culturais, com apoio do Ministério da Saúde, trouxe nova estrutura e resultados incríveis nos trabalhos desenvolvidos dentro do Centro de Convivência.


“‘Tecendo a vida’ foi o primeiro projeto. Com a verba, compramos mais teares. No segundo, ‘Tecnologia nas Artes Audiovisuais, na saúde mental’, equipamos o Centro de Convivência com notebook, filmadora (1 semiprofissional e 4 pequenas, comuns), máquina fotográfica, data show, mesa de áudio, caixa de som, microfone, equipamos todo o Batuki Mental”, conta Alessandra.  

E não foi só isso. “Com a verba conseguimos também fazer o primeiro CD do Batuki e um livro que ainda será produzido. 












Usuários do Centro de Convivência em Inhotim
No terceiro projeto, montamos uma ‘Oficina de Cidadania’, que já acontecia, mas era muito devagar, mas aí já pudemos contratar um oficineiro, que era voluntário. Fizemos um passeio para Inhotim, no final do ano passado, com tudo pago pelo projeto, ônibus, refeição. Fizemos, também, em novembro, a ‘Mostra de Arte e Cultura da Saúde Mental’. Teve o Batuque, veio pessoal de Poços de Caldas, Muzambinho, vários outros Caps, um encontro muito legal”.








O Batuki Mental é, sem a menor dúvida, a “menina dos olhos”, do Centro de Convivência. E tudo começou, por acaso. “Em 2010, surgiu o Batuki Mental, nas oficinas de música. Monitores e usuários começaram a se perguntar: ‘Vamos fazer uma música?’. E começaram a compor. Foi num dia 18 de maio, quando fazemos o evento que todos os anos marca o dia de luta antimanicomial. O tema, normalmente, é nacional. Naquela época, aconteceu a tragédia do Haiti, e o tema foi: ‘Solidariedade há em mim, há em ti’, um jogo com a palavra Haiti. 



Aí fizeram uma música, que o refrão tinha o tema da campanha: ‘Solidariedade há em mim, há em ti’. A partir daí, não pararam mais de compor: ‘Vamos compor uma música da roça?’. E assim passaram a compor, em grupo, novas músicas. Nessa música, relacionada ao tema Haiti, começaram a dizer que o Centro de Convivência era como a segunda casa deles. Vários dizem isso, até hoje”, garante a coordenadora Alessandra.




Rodrigo Martins, integrador cultural do Cidade Escola 
Sim, a segunda casa, não apenas para usuários. O integrador cultural do Cidade Escola, Rodrigo Martins, quem o diga. No Centro de Convivência, há também muita arte “de primeira” sendo feita. Rodrigo e outras duas “oficineiras”, cada um na sua especialidade, trabalham diversas formas de artesanato como crochê, flores, pintura em vidro, pintura em vasos, telhas, decoupage, mandalas.




No Centro de Convivência, quem faz as oficinas são pessoas que sabem o seu ofício: tear, pintar, artesanato. Quem ministra oficina de música, é músico, e não um psicólogo ou especialista em saúde mental. Rodrigo é a exceção. É psicólogo, formado pela Unifenas, mas também é artista, e é isso que faz no Centro de Convivência. Os estágios realizados nas “residências terapêuticas” e no Caps, deram a ele experiências incríveis. “Eles saíram dos manicômios e foram para as residências terapêuticas. É a residência deles, a casa onde moram. Nosso trabalho, na época, era esse: falar para eles que ali era a casa deles, não estavam mais num manicômio, não estavam mais internados, estão dentro de suas casas, podendo ir e vir. A intenção é que eles sejam reinseridos na sociedade para que as pessoas os vejam com outros olhos. 







Porque tem pessoas que tem a referência de que o ‘louco’ é uma pessoa perigosa, agressiva, vai causar alguma coisa na cidade. Tem receio, medo. E é exatamente o contrário, dificilmente veremos um ‘louco’, que esteja sendo acompanhado, que seja agressivo. Eles são muito mais tranquilos do que nós, neuróticos, que somos ditos ‘normais’, mas que com qualquer coisa estamos estressados. Eles, não, levam uma vida mais tranquila. Eles têm esse direito, de levar a vida que nem levamos. Eles têm os problemas deles, cuidar da casa, pagar conta de luz, ir na padaria, supermercado, assim como nós. As residências terapêuticas e o Centro de Convivência têm essa mensagem, de passar que eles têm cidadania”.









E o integrador do Cidade Escola, no Centro de Convivência, vai ainda mais longe, quando a questão é cidadania. Afinal, somos todos iguais. “Quase todos, aqui, passaram por muitos problemas, foram institucionalizados, é a palavra que usamos. O que fazemos é um processo de desinstitucionalização, tirar deles essa coisa do ‘eu sou doente’, ‘não posso fazer nada’, ‘que dependo de todo mundo’. Temos de mostrar que eles têm cidadania, podem ir ao supermercado, viver sozinho, fazer amizades, casar, namorar, usar a internet, enfim, as possibilidades que todos devem ter. É difícil para todos, e eles vão ter que entender que com eles não será diferente, que existem leis que temos de seguir. E, as oficinas são as oportunidades que temos para falar sobre tudo isso, que há momentos em que as coisas dão errado e temos de esperar para tentar de novo”.


O trabalho desenvolvido por Rodrigo, junto aos usuários do Centro de Convivência, é repleto de alguns dos principais princípios norteadores do programa Cidade Escola. “É uma troca, a oficina é legal porque eles estão sempre trazendo alguma coisa que é deles. Sempre deixo espaço para essa subjetividade. Trabalho, agora, com vasos de barro, decoupage, pintura, colagem, o que surgir, mas o que vier deles, porque dou esse espaço para surgir o desejo deles. Isso é cidadania, ter a sua vontade, não é chegar aqui e dizer a eles: ‘Hoje vou ensinar tal coisa’. A gente tem o barro, o que isso te lembra? Às vezes, trago uma simples ideia. Uma usuária daqui não achava o jeito de fazer o vaso dela. 


Aí, de repente, vi que ela tinha uma tatuagem de personagem de seriado. E perguntei: ‘Que nomes são esses?’. Ela me explicou que eram figuras de seriados. Começamos a trocar ideias sobre seriados, filmes, cinema. Aí, falei sobre super-heróis e perguntei: ‘Que tal fazermos um vaso que tenha essa referência de super-heróis?’. Na hora ela começou a pintar vasos, nosso armário está cheio de vasos com super-heróis. É essa a troca, ir conversando e descobrindo o que gostam, o que podem trazer de referências. Por ser psicólogo, deixo trazerem essa referência, e acabam me ensinando também. São princípios do Cidade Escola: ensinar e aprender”, afirma Rodrigo.


E pensar que quase todos que entram na Psicologia, incluindo Rodrigo, também tinham “medo” da área de saúde mental. Aos poucos, porém, os que trabalham com isso acabam descobrindo outro princípio integrador do Cidade Escola. “Íamos atrás da cultura que o ‘louco’ é violento, vai te bater, falar coisas que você não quer escutar. Tem que se ter muita paciência, centrado. Não vamos ‘curar’ ninguém, pois ser ‘louco’, não é uma doença, é o jeito dele ser. Mas, e aí? Fiz psicologia e não posso mudar a cabeça deles? A resposta é não, mas podemos aprender a conviver. Sempre foi muito difícil, para mim, no Caps, principalmente, chegar lá e ter pouco o que fazer por eles. Só que passei a entender que, é esse pouquinho que faz a diferença. Para eles é muito, principalmente para os que vieram de manicômios, com o histórico de estar preso, vivendo em condições desumanas”.


E os resultados são enormes, pelo menos para Rodrigo. “As pessoas das residências terapêuticas, às vezes me veem, se lembram de mim e dizem: ‘Vamos lá, na minha casa’, já é um outro discurso, antes, estavam apáticos, internados. É muito bacana encontrá-los nas ruas e cobrando: ‘Você não apareceu mais na minha casa’. Fico feliz em saber que um trabalho que fiz, lá atrás, em 2013, hoje tem um efeito positivo na vida deles. No Centro de Convivência, não é diferente. Uma coisa que eles têm muito, aqui, é a gratidão, saber que você escutou o que tinham para falar. São pessoas que ficam excluídas, a mercê de quase tudo das convenções sociais. Quando tem, agarram, aproveitam. E quando não agarram, ensinamos. É esse o nosso trabalho”.


Vivalci, usuário do Centro de Convivência
É exatamente o que Vivalci, um dos usuários do Centro de Convivência, que é deficiente visual e um dos integrantes do Batuki Mental, confirma. “Faço tear porque me deixa mais tranquilo, sossegado. Imagina você ver tudo escuro, tempo integral. Estou em Alfenas há 10 anos. Participo do Centro de Convivência há uns cinco anos. Passei seis anos na Aliança de Misericórdia, que era como uma cadeia para mim. Gosto muito de vir para cá, tem uma energia boa”.





Luciana, a Lú, usuária do Centro de Convivência
Mas é no depoimento de Luciana, a Lú, natural de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, que vemos os resultados concretos do Centro de Convivência. “Basta vir aqui, no Centro de Convivência, para ver quantos trabalhos os ‘loucos’, como as pessoas de fora nos veem, fazem: cantamos, compomos músicas, pintamos, fazemos artesanato. Faça sol ou chuva, venho todos os dias. Estou há cinco anos em Alfenas, moro com minha irmã. No Rio de Janeiro, fazia aula de pintura, mas era particular, paga. Não tinha esse convívio que temos aqui, se relacionar um com o outro. As pessoas vendo os nossos trabalhos, nas ruas, nas apresentações, nas mostras, vão pensar: ‘poxa, são deficientes, e podem fazer isso? Por que eu, que não tenho nada, não consigo fazer aquilo?’. Por que? Por isso não gosto desta palavra: deficiente mental. Não vejo ninguém com deficiência. Deficientes, acho eu, são aqueles que nos acham deficientes. Aqui, a gente se diverte, brinca, se tiver que chorar, a gente chora, porque sabe que tem alguém para consolar”.


Alessandra, coordenadora do Centro de Convivência, vai além no discurso de Lú. “Quando a gente leva a arte para as pessoas, quando o Batuki Mental toca, ninguém faz ideia do que acontece. Já vi professores na Unifal chorando. 

A Lú, falar, e ver os professores chorando, é emocionante, até arrepia. Com a arte, conseguimos mais aproximação, conhecê-los”.








Alessandra, coordenadora do
Centro de Convivência
Palavras da coordenadora Alessandra, que trabalha com saúde mental há 21 anos. Formada pela Universidade Federal de Minas Gerais em Terapia Ocupacional, Alessandra revela que vem de longe o prazer pelo trabalho que desenvolve. “Minha mãe me fala que quando eu era criança dizia que iria ser psiquiatra. Tenho gosto de trabalhar com a saúde mental, é um prazer melhorar a autonomia das pessoas. Sempre fico na dúvida se estou trabalhando ou se estou inserida. Somos todos um tanto doidos. Ainda bem”, afirma sorrindo a coordenadora do Centro de Convivência.

Alessandra, e todos que desenvolvem trabalhos na área da saúde mental, têm que ser assim: querer o bem das pessoas, sem se importar com rótulos da sociedade. Por isso, também, ela é a "focalizadora" de uma atividade pouco conhecida das pessoas, em Alfenas, a dança circular. Ela contra sobre seus benefícios. “Dou aula de dança circular, que é uma dança de roda, de mãos dadas, na segunda à noite, e é aberta para todos da comunidade. Às quintas, para os usuários do Centro de Convivência. Fazem uma comparação, aqui, no Brasil, com a nossa ciranda, as danças que os índios dançavam para as colheitas, agradecimentos. A dança circular tem vários sentidos, significados. Para uns tem efeito terapêutico, de cura, para outros é uma meditação ativa”.


Quem deu esse formato à dança circular foi o coreógrafo alemão/polonês Bernhard Wosien. No Brasil, é praticada desde 1984. De acordo com o site Dança Circular, “o principal enfoque não é a técnica e sim o sentimento de união de grupo, o espírito comunitário que se instala a partir do momento em que todos, de mãos dadas, apoiam e auxiliam os companheiros. Assim, ela é indicada para pessoas de qualquer idade, raça ou profissão, auxiliando o indivíduo a tomar consciência de seu corpo físico, acalmar seu emocional, trabalhar sua concentração e memória e, principalmente, entrar em contato com uma linguagem simbólica, que embora acessível a qualquer um, não é utilizada no dia a dia (http://www.dancacircular.com.br/oque.asp)”.


"Olho Divino", feito pelo Sr Vicente
E é assim, experimentando novas formas de convívio e arte que o Centro de Convivência seguirá seu trabalho. É como expressa a mandala feita por um dos usuários de lá, o senhor Vicente. Chama-se “Olho Divino” (Si’Kuli), um objeto sagrado, originário da cultura indígena Huichol, do México, que tem o significado literal do trabalho desenvolvido pelo Centro de Convivência, na saúde mental, e que todos deveriam seguir: “O poder de ver e compreender as coisas desconhecidas; ver as coisas como elas realmente são”.









































Nenhum comentário:

Postar um comentário