quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cidade Escola: Unidos, por Santa Luzia


Uma das principais características do programa Cidade Escola é ter entre seus coordenadores de núcleos gente que seja, prioritariamente, do próprio bairro ou da região. E mais do que isso, que os moradores o conheçam e confiem nele.

Entre os vários coordenadores de núcleos, há um que tem um vínculo para lá de especial com a comunidade. Se alguém procurar por Bruno Pereira, no bairro de Santa Luzia, certamente não o encontrará. Mas, se chamar por Bruno “Mocotó”, todos saberão de quem se trata.

Ele é jovem, tem apenas 29 anos de idade, mas parece que vive no bairro há muito mais tempo. Todos o conhecem e a recíproca também é verdadeira. Qualquer coisa que se faça ou pense em ser feita no (e pelo) bairro, Bruno estará no meio, com certeza. A paixão pelo Santa Luzia é maior do que tudo.

Hoje, Bruno coordena o núcleo do Cidade Escola, no bairro Santa Luzia, instalado no mesmo prédio onde funciona o Centro Vocacional Tecnológico (CVT). São quatro salas, no andar superior do prédio e ainda uma quadra poliesportiva, em frente ao CVT, e as instalações da creche do Santa Luzia, bem próxima dali. 








Nunca o bairro esteve tão movimentado com as diversas atividades trabalhadas pelos dez integradores culturais como capoeira, manicure, violão, viola caipira, tênis e atividades recreativas na quadra (futsal, pingue-pongue, jogos de tabuleiro, bete/taco). Os participantes do Cidade Escola também podem aproveitar a estrutura do CVT e utilizar os computadores utilizados nos cursos de formação da Uaitec (Universidade Aberta e Integrada de Minas Gerais), e ainda a lousa digital, para exibição de filmes e apresentações de trabalhos dos jovens da comunidade.


Em poucos meses de atividades, já são quase 100 participantes, com destaque para a creche noturna, única nos diversos núcleos do Cidade Escola espalhados pela cidade. “A maioria aqui são jovens abaixo dos 15 anos. Temos também muitos alunos do bairro Santa Edwirges, que fica colado aqui. Os resultados são muito bons até agora. As mães comentam que não ficam mais preocupadas, sabendo que seus filhos estão aqui com a gente. Com a creche noturna, a mãe vai trabalhar ou fazer o que tem que fazer, despreocupada. Tem noites que recebemos até 30 crianças”, confirma Bruno Mocotó.


Mas, quais seriam as razões para tanta confiança de mães e pais pelo jovem coordenador? Primeiro, a herança do respeito deixada pelos pais, moradores dos mais antigos, há mais de meio século, do Santa Luzia. A segunda razão é o envolvimento de Bruno, desde quando ainda era bem pequeno, com eventos de rua, culturais, educativos, musicais, ou, simplesmente, pelas festas organizadas pela comunidade.





Bruno começou a se envolver em atividades culturais quando tinha apenas 8 anos de idade. Isso mesmo, 8 anos. Era apenas uma criança quando se interessou espontaneamente pelas Companhias de Reis, festa que um dia já foi bastante tradicional em Alfenas. Para quem não sabe, nas festas de Santos Reis são feitas representações dos Três Reis Magos por meio da música, dança e versos. Há vários integrantes nas companhias como os Três Reis Magos, Coro, Mestre ou Embaixador, Bandeireiro ou alferes da bandeira, Festeiro e os Palhaços, também chamados de bastiões. Bruno era um bastião, aqueles que se vestem com máscaras e realizam acrobacias usando um bastão. “Comecei pulando bastião na companhia do seu Libertino, depois sai para o Toninho, depois para o Pontalhete, para o Pedro Augusto, difícil qual a companhia que já teve aqui em Alfenas que não saí. Andei pela cidade inteira, sou muito fã, devoto dos Três Reis Santos”, relembra com saudade, Bruno.


Mas não foi tão simples e fácil, assim. Um fato ocorrido neste período de folia de Reis, marcou definitivamente a personalidade de Bruno. Eram as primeiras festas de que participava e, por ainda não saber cantar os versos, acabou “preso”, dentro do quarto de uma das casas visitadas pela Companhia de seu Libertino (uma das mais famosas da cidade), uma tradição nestes eventos. Levou uma “dura” do pessoal, mas decidiu, mesmo sendo uma criança, aprender tudo que envolvia as festas de Santos Reis. “Aprendi os versos de tanto ouvir, tinha interesse, ia na casa dos mais velhos para aprender. Sei dezenas de versos, do Cruzeiro, do Presépio. As companhias me ajudaram a chegar onde estou hoje. Graças a Deus. Pelo conhecimento que tenho, por tudo que vivi, por não ter sido aquelas pessoas que ficam presas em casa, sem aprender nada. E se fosse outra pessoa no meu lugar, como foi nas primeiras vezes, não voltaria mais. Foi ali, naquela humilhação de ficar preso em um quarto, que aprendi, de verdade, os versos. Hoje, onde chego, o povo bate palma. Eu sou assim, o que tenho vontade de aprender, vou atrás, corro e aprendo mesmo”, garante Bruno.


E foi exatamente assim, vendo, aqui e ali, aos 16 anos, que Bruno descobriu outra de suas paixões nas artes das ruas. Gostava de dançar. E não só aprendeu, como passou a dar aulas de street dance, dança de rua, e ter o próprio grupo. “Começamos a dançar com o Vardinho, um dos pioneiros na dança no bairro. Fui aprendendo, era o mais novo de todos. Acabou o grupo e comecei a dar aula por minha conta, fui evoluindo. Depois, montei meu próprio grupo, o The Over Boy’s, que depois passou para Comando de Rua”.



Bruno começou a dar aulas nos porões da igreja Santa Edwirges. Tudo, como voluntário. “Quando começamos, tinha no máximo 10 alunos, depois foi para 30, 40, cheguei a dar aula para 50 alunos, sem cobrar nada, só voluntário. Usava o som da minha casa, pegava o som das minhas irmãs e levava. Corria atrás de tudo”, relembra Bruno.

E foi assim, sempre, correndo atrás que o coordenador do Cidade Escola começava a ficar cada vez mais “famoso” nas ruas da cidade, especialmente, no Santa Luzia. “Juntava todo o povo do bairro, criançada toda. Com as aulas, acabamos montando um grupo para disputar concursos de dança. Ficamos em terceiro no melhor do sul de Minas, realizado em Machado. Depois ganhamos em primeiro, também em Machado. Tem troféu de Carvalhópolis, Divisa Nova. Viajamos o sul de Minas inteiro”.



Bruno é inquieto, festeiro por natureza. E se há algo que envolva a comunidade de Santa Luzia, e ele possa ajudar, pronto. E lá se foi ele comandar a bateria que toca em jogos importantes do Chapadão, a equipe mais tradicional do bairro. Vai onde o time for, não importa a distância. 





Também foi criador e jogador de uma outra equipe no bairro, o Esporte Clube Santa Luzia. No bar que leva o seu apelido famoso, Mocotó exibe com orgulho os vários troféus conquistados.

Mas o que tornou Bruno Mocotó de fato, “famoso” no bairro e na cidade foi o pagode. Junto com outros amigos, criou o grupo Mistura de Raça. Tocou nos quatro cantos da cidade, em quase todos os bares. Ele é o vocalista do grupo, paixão que começou bem cedo. “Já tenho experiência com música, gosto desde criança, fui gravando as músicas na cabeça.


Começamos a ensaiar, tocar só para curtir, mas aí foi melhorando, melhorando, e já começamos a ganhar cachê num bar e outro. Fomos juntando, comprando nossos instrumentos, iluminação. Antes, era tudo emprestado, de um e outro. Fomos ganhando 130, 150 reais, aqui e ali, e sempre juntando, compramos microfone, caixa, cavaquinho”.

E a música acabou levando Bruno para algo que sempre havia sonhado: ter um bloco de carnaval. A experiência como líder de bateria do Chapadão e o grupo de pagode fez surgir o Unidos do Santa Luzia. 


No carnaval 2017 foi o compositor do samba-enredo do novo bloco que se apresentou na Praça Getúlio Vargas. No início, o sonho de Mocotó era bem menor, mas como tudo em que se envolve no Santa Luzia, o sonho acabou tomando outra proporção. “A gente ia sair num bloquinho, de uns 5 ou 6, só para dizer para as pessoas que estávamos chegando. Quando começamos a ensaiar, o povo do bairro pedia para parar com a barulheira de lata. Passava outro, e pedia para parar com isso. Foi passando o tempo, de 5 foi para 10, de 10 para 20, de 20 para 30, e aquele que criticava também resolveu se juntar com a gente. Os vizinhos também resolveram se juntar, e montamos um ‘trem’ que todo mundo curtiu, porque saímos, no carnaval, com mais de 150 pessoas”.


Viver de música e cultura neste país é para poucos. Com Bruno não foi diferente. Tinha de ajudar no sustento da família, seis irmãos, três homens e três mulheres. Não conseguiu realizar o sonho de se formar em Educação Física. Teve de ir à luta, trabalhar em empresas com serviços braçais, pesados. Passou dois anos pela Alfechapas. Depois, mais um período na Tiph, fabricante de peças de caminhão. A aprovação para esta empresa tinha de ter o jeito irreverente e apaixonado por Bruno, pela música, criatividade pura. O apelido de “Peixe”, entre os amigos do trabalho, tem história. “Quando entrei lá, era feita uma seleção, uma peneira entre 20 candidatos. Eles organizam grupos para fazerem atividades, uma música, ou um teatro, tinha que inventar alguma coisa falando sobre as peças de caminhão, porque o desperdício de peças era enorme e o prejuízo muito grande para a empresa. 


Então eles bolaram essas atividades, para ver se saía alguma coisa criativa, para evitar o desperdício. Um grupo fazia teatro, outro inventando o que ia fazer. E o nosso, parado, pensando o que fazer. No meu grupo eram quase todos envergonhados, cabisbaixos. Aí, disse a eles: ‘se quiserem, faço uma música’. Escrevi a letra. O rapaz da empresa chamou os grupos para se apresentarem. Um fez teatro, o outro cartaz, e, na hora do nosso, fui para o meio do mato, peguei dois pauzinhos da árvore, coloquei o boné para trás, e o restante do grupo só com a boca: tumtumtá, tumtumtá, tumtumtá, e comecei a cantar. O cara da empresa ficou doido. Pediu que eu voltasse na outra semana para cantar para o dono da empresa. E ele veio mesmo. Ganhamos brindes, e todo mundo na empresa começou a me chamar de ‘Peixe’”.





Bruno e seus pais.
Tanta criatividade e força de vontade de viver tem fonte de inspiração. Bruno tem um respeito e carinho enormes pelos pais. Ele sabe do esforço e luta deles para criar os filhos em condições tão adversas. O vínculo forte com o bairro Santa Luzia vem desde os tempos, há 50 anos, quando as ruas do lugar, cheia de ladeiras, eram só terra e poucos casebres.

O pai se chama João Pereira, mas todos o tratam como “Paraguaçu”, terra onde nasceu há 75 anos. A mãe, Dulce Rocha. Paraguaçu é muito respeitado por todos no Santa Luzia, talvez o morador, vivo, mais antigo dele. Ver sua pequena casa onde sempre viveu e criou todos os filhos, em dois cômodos, arrumada e bonita, não esconde as dificuldades passadas por eles. “Em Paraguaçu era uma pobreza danada. Trabalhei na Paraguaçu Têxtil, aí minhas irmãs foram para o Rio de Janeiro, desesperadas, trabalhar, para tratar de nós. De lá, pagavam nosso aluguel. Meu pai sofreu muito na roça, trabalhava para os fazendeiros. Com 18 anos fui embora para o Rio. Fiquei 5 anos e vim para Alfenas”.


Paraguaçu e dona Dulce,
moradores mais antigos do Santa Luzia
Seu Paraguaçu veio para ensinar os tecelões da indústria têxtil Saliba, instalada em Alfenas, a fazer panos, pois desde os 14 anos, trabalhou com isso em Paraguaçu. A vida dura o levou a morar em São Paulo, por uns tempos, mas voltou, apesar das enormes dificuldades no bairro que escolheu viver. “Aqui, quando chovia, era uma encrenca, por causa das subidas e descidas, e tudo de terra. Numa chuva forte que teve no passado, derrubou várias casinhas, a minha ficou em pé. Não tinha água, nada, só uma cisterna com uma torneira para o povo usar a água. Às vezes, a gente chegava da ‘panha’ de café, trabalhamos eu e ela (apontando para dona Dulce), tinha dia de chegar às 10 da noite. As crianças tudo pequenininhas, junto. Aqui em casa era fogão a lenha, luz de querosene”.


Dona Dulce reforça a lembrança dos tempos difíceis, nas plantações de café. “Não tinha onde deixar os filhos, tinha que levar. A gente ia de caminhão, não tinha esses ônibus, como tem hoje. Trabalhamos a vida inteira, na roça. Chegava às 10 da noite, fazer comida, tirar água da cisterna, acender fogão a lenha. Enquanto eu fazia a comida, ele ia catar lavagem, porque a gente tinha uns porcos. Dava para contar nos dedos a quantidade de casas que tinha ao redor daqui”.

E mesmo com todas essas dificuldades, seu Paraguaçu não tem queixas do passado, muito menos do presente, pois viu os filhos crescerem, sem se envolver em problemas comuns entre os jovens atuais. “Vimos tudo isso aqui se formar. Foi duro criar os filhos, mas deu tudo certo. Parece que vem de berço, é Deus, é luz”.


Talvez, por tudo isso, Bruno Mocotó está tão entusiasmado e envolvido com o Cidade Escola no Santa Luzia. Sabe que os jovens de hoje estão tendo oportunidades que ele e amigos não tiveram, mas que nem por isso, deixou de se dedicar à comunidade, à cidade que tanto ama. “Em 2009 entrei para o Cidade Escola. Dava aula de dança de rua. Mexia com dança, teatro, música, era bem conhecido. O único que dava aula de dança era eu. Tinha meu próprio grupo de dança. Dei aula na APAE, no Instituto da Ipanema, nos Dias Melhores, no Tancredo Neves e o último lugar foi no Orlando Paulino. Dei aula para muita gente na cidade. Era trabalho voluntário, corria atrás, fazia a coisa acontecer, da mesma forma”.


E assim, Bruno Mocotó continua a fazer. A nova estrutura e os novos conceitos do Cidade Escola só o fazem acreditar em dias melhores. Voltou a dar aulas de dança, participa de diversas atividades como professor. “Sou apaixonado por isso aqui, pela comunidade. Estamos sempre juntos, interagindo, ajudando, participando. Sou nascido e criado aqui, na Rua Barão de Alfenas. Adoro este bairro, o que puder fazer por ele, faço. Tem gente que tem 50 anos no bairro, mas não tem as histórias que já vivi por aqui”.



































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