quinta-feira, 27 de julho de 2017

Cidade Escola: Cambeta, 30 anos


Em um país que adora esquecer ou enterrar suas tradições, os 30 anos de existência do Cambeta, Campeonato de Bete de Alfenas, tem que ser muito comemorado. Uma brincadeira entre amigos que virou esporte e “febre” e acontece, todos os meses de julho, nas férias escolares, na Praça Getúlio Vargas.

Mas você, que não é mineiro, deve estar dizendo: “Mas isso é jogo de taco”. Não diga isso perto de um dos milhares de aficionados pelo Bete, em Alfenas. Aqui, o taco é conhecido como Bete, e jogado com regras próprias, em um campeonato único, no mundo inteiro.


Uma história de amor e paixão que começou há três décadas. Por que Bete? Parece simples a resposta, mas nem mesmo os estudiosos da Universidade de Coimbra descobriram as origens do jogo Bete, em Alfenas, e Beto, em Portugal, quando estiveram por aqui, há 12 anos, para realizar sua tese de mestrado. Isso mesmo, em Portugal, o jogo chama-se Beto e estava praticamente extinto, por isso os pesquisadores lusitanos tiveram tanto interesse em conhecer o maior campeonato de Bete do mundo. (este é o link da tese https://www.yumpu.com/pt/document/view/18866586/1-indice-de-quadros-quadro-i-estudo-geral-universidade-de-/16 )

E por que pode ser considerado o maior do mundo? Por conta de sua estrutura e organização, com arquibancadas, sistema de som, regras específicas, e, principalmente, pelo número de participantes e torcedores que comparecem ao evento, nos últimos 30 anos.


Sem entrar no detalhamento das regras, os princípios básicos do jogo são os mesmos do taco. Duas duplas se enfrentam, uma arremessando e outra de posse da Bete, para rebater o mais longe possível a bolinha. (Em Alfenas, também é permitida a inscrição de um terceiro jogador, reserva). Uma dupla, quer derrubar a “casinha” da dupla adversária, a outra, defender este pequeno obstáculo. Em Alfenas, esse obstáculo é feito em alumínio, na forma de uma pequena pirâmide, que, em outros tempos, era feito com qualquer tipo de graveto, palitos de sorvete, latinha ou garrafa plástica.


A cada “betada” –, expressão criada pelos alfenenses do Cambeta – bem dada, a dupla de posse da Bete pode (e deve) cruzar entre eles e tocar no espaço da casinha com a ponta da Bete, quantas vezes conseguir, até a dupla arremessadora ter a posse da bolinha. Cada “cruzada” vale dois pontos. 

Ou seja, tudo depende, de onde (distância) o jogador, de posse da Bete, conseguir rebater a bolinha. Algumas vezes, o jogo pode durar poucos minutos, caso o rebatedor “isole” a bolinha, em local que os adversários não consigam acesso. 

Mas, em Alfenas, a disputa e a qualidade de jogos é tão grande que já houve decisões feitas em mais de quatro horas de partida. O jogo só termina quando uma das duplas atingir 25 pontos.






 Os jogos são tão acirrados, no Cambeta, que até cartões são utilizados pelos árbitros. São três cartões: azul, amarelo e vermelho. O azul é advertência. A cada amarelo aplicado, a dupla perde 2 pontos. O vermelho, expulsão. O azul é para coibir o antijogo ou quando há reclamação contra o juiz da partida. E ainda dois bandeirinhas, que ficam nos fundos da quadra, para auxiliar a arbitragem.

Parece fácil, um jogo de rua, brincadeira de criança. Mas, em Alfenas, os 30 anos do Cambeta, mostram e provam o contrário. E tudo começou quando dois amigos, Joselito de Souza, o Lito, e Alessandro Dias Orsi, o Dinho, viram que a brincadeira na praça estava reunindo gente demais para jogar. 


Caio “Tuleco”, participante do primeiro Cambeta, estava entre esses jovens. “Era muita gente para jogar, no famoso ‘barranco’ (gíria que define os times que esperavam para entrar no jogo). Na hora que vimos que havia muita gente para brincar, resolvemos fazer um campeonato. Aí um arrumou um equipamento de som, para animar a turma, o outro, microfone. Tinha que marcar os pontos, então, criaram as súmulas. Tem até uma brincadeira em cima delas, ‘aprovada pela Liga de Bete de Alfenas’. A brincadeira deu certo. Jogávamos só no período da tarde, na praça Getúlio Vargas, do lado da fonte luminosa. Escada, bancos da praça, grama, tudo virava arquibancada, lotava”.


E a cada ano, desde 1986, o Cambeta foi crescendo cada vez mais. 

Das arquibancadas, entre os torcedores, surgiam meninos inspirando-se nos primeiros ídolos que viraram “lendas” vivas, até hoje. Nomes como Dinho, Valtinho, Gilbertinho, os irmãos Abdo e Anuar, Giraia. “Valtinho e Dinho eram os caras a serem derrubados. Jogavam muito, não tinha ‘betadinha’, só pancada, mesmo. Ganhar deles era quase impossível. 

Nos oito primeiros anos do Cambeta, só dava eles”, garante Abdo Zein, coordenador do Cambeta há mais de 20 anos.








Abdo Zein, coordenador do Cambeta
Abdo não é um “cartola” do esporte que apaixona milhares de alfenenses, todos os anos. 

Ele é um ex-jogador, uma das lendas vivas do Bete, na cidade. Ele e o irmão, Anuar. Abdo nasceu em Poços de Caldas, mas chegou para viver com os pais em Alfenas quando tinha apenas cinco anos de idade. 

Cresceu nas ruas da cidade jogando Bete e, aos 12 anos, disputou seu primeiro Cambeta, na categoria infantil (de 9 a 14 anos), criada na terceira edição do campeonato. “No segundo Cambeta, vieram uns meninos de São Paulo, junto com o Gibi, que era daqui, e montaram a equipe ‘Os jovenzinhos’. E entraram junto com os adultos. A torcida queria os ‘jovenzinhos’, porque eles eram ‘fraquinhos’ no jogo, mas encararam os maiores. Foi aí que os organizadores tiveram a ideia de criar a categoria ‘infantil’, no ano seguinte”.






Abdo e amigos do Cambeta
Abdo foi campeão seis vezes do Cambeta, uma na categoria infantil e cinco vezes pela categoria “livre”. Campeão pela primeira vez, em 1991, Abdo garante que Bete não é só um simples jogo ou esporte, para os alfenenses, mas um estilo de vida. “Devo muito ao Bete, sempre pratiquei e foi o esporte que me propiciou estudar gratuitamente em um dos melhores colégios particulares da cidade. Não pagava nada. Era patrocinado por eles, só para disputar o Cambeta. Estudava no Polivalente, e foram atrás de mim, quando fui campeão da categoria livre pela primeira vez. Estava na 8ª série e eles me disseram: ‘se quiser terminar o segundo grau no Promove, vai na segunda-feira lá que não vai pagar nada’. Não pagava material, nada. Jogava para eles todos os anos, davam bicho também”.


Tanta dedicação assim não era à toa. Quem quisesse se tornar um campeão do Cambeta, teria de enfrentar meses de preparação, na praça ou em lugares improváveis. “A paixão era tão grande que, quando criaram a categoria infantil comecei a treinar, um ano antes, na roça, nos campos de café, para poder correr muito mais e voar na hora do campeonato”.

No caso de Abdo, a rivalidade não era só com outros adversários, fortes como ele. Tinha seu irmão, Anuar, outra lenda viva do Cambeta. “Passamos a ser grandes rivais durante os campeonatos, aconteceu naturalmente. Anuar tem mais títulos do que eu. Das quatro finais que joguei contra ele, perdi três. As cinco finais em que fui campeão, nenhuma foi contra ele”, recorda Abdo.






Rivalidade, sim, mas cresceram aperfeiçoando o estilo próprio, como espelho um do outro. Criando até jogadas inéditas, que muitos copiaram. 

Para Abdo, jogar Bete exige muito mais do que talento. “Psicologia, porque sabia como jogar, freio; energia, porque não tinha bola perdida, ia atrás da bola, mesmo. 

E a terceira, o Anuar foi o primeiro cara que deu uma ‘betada’ de costas, girando o corpo e betando. Eu girava, ficando na mesma base, enquanto ele girava totalmente, no eixo do próprio corpo. Ele se inspirou no que eu fiz, mas inovou mais ainda”.











Jogador tentando pegar a bolinha, na fonte da Praça Getúlio Vargas
Em todos esses anos jogando e coordenando o Cambeta, Abdo já viu acontecer de tudo um pouco, na competição. Jogos históricos, como a final que teve dois campeões, porque o jogo nunca acabava e as duplas sem nenhuma força para continuar a jogar. Abdo era um deles. Ou ainda, “O jogo da fonte”, em que o personagem é um grande amigo dele. “Caio Tuleco tinha mais de 100 quilos, formava dupla com o João Sérgio. Um dia, o rebatedor adversário deu uma betada que a bolinha foi cair dentro da fonte. Tuleco saiu correndo, pulou e agarrou na primeira borda da fonte, mas esqueceu que ia ficar sem os pés para apoiar. Pum, caiu para trás, voou água para todo lado”.


E se o grande “barato” do jogo Bete é a “betada”, que isola a bolinha, Abdo não iria se esquecer das diversas histórias engraçadas, inéditas, perigosas, mas que nunca machucou ninguém. “Muitos jogos acabaram na primeira betada. Uma vez, um cara ‘isolou’ a bolinha na betada, e ela atravessou a janela de um carro que passava pela rua. O jogador saiu correndo atrás dela, mas não percebeu que a bolinha foi embora com o motorista. Quando o campeonato era disputado na “mão inglesa” (rua que separa a praça em duas partes), as betadas iam quase sempre dentro da farmácia Bernardes. E eles não devolviam a bolinha. A betada mais alta é do Eduardo Salgado, oitavo andar do prédio que existe na praça. O cara era tenista profissional. Jogava com uma mão só. A dupla fez 6 pontos com os adversários só olhando para cima, vendo onde a bola estava indo”, recorda Abdo.


Abdo também não se esquece dos anos em que a competição chegou a ter eleição da “Garota Cambeta”, festas grandes, em casas noturnas da cidade. Mas, mulheres não só desfilavam. “Teve equipe feminina que muitos homens não aguentariam enfrentar como a de Mila Tiso (sobrinha do Wagner Tiso), a irmã dela, Luiza Tiso, a Juliana, Tatiana Assunção e Mirela. A partir do 8º Cambeta começou o feminino”.

São três décadas de histórias de uma competição que surgiu de uma brincadeira e virou mais do que esporte. Cambeta, para quem é de Alfenas, significa fazer novas amizades, interagir, inspirar, conviver, manter viva uma cultura de rua, ensinar e aprender, princípios que também norteiam o programa Cidade Escola. Muitos namoros, paqueras e até casamentos também surgiram durante os 15 dias da competição. A realização desta trigésima edição do Cambeta, em 2017, tem três personagens que trazem histórias como essas.


O jovem Lucas Braga, ou melhor, Luquinha, de apenas 14 anos, e os veteranos campeões, Zé Rafael, 38 anos, e “Cabelo”, 33 anos, são o exemplo mais claro da paixão causada por esse esporte no povo de Alfenas. O roteiro parece sempre ser o mesmo: um inspirando o outro a se tornar um campeão. Um completando o outro quando entram em quadra para jogar Bete.

Luquinha nunca havia jogado Bete até completar 11 anos de idade. Assim como muitos outros jogadores que surgiram nesses 30 anos do Cambeta, Luquinha foi levado pelo pai, Luciano Maradona, para ver os jogos. Até que Luquinha viu Zé Rafael jogar. E se inspirar. “Achava legal, chamei um amigo de fora e comecei a brincar. No primeiro ano já ficamos na final. Eu falei: ‘caramba’. Fui pegando gosto e quando vi, no primeiro ano já ganhei, a dupla era com o Vinicius Jacob. Aí mudei de parceiro, passei a jogar com o Pacheco, ganhamos dois campeonatos. Mas ele mudou de cidade, neste ano. Aí chamei o Jairo. Estamos sem perder, até agora. E se Deus quiser, vamos ganhar”.


Luquinha e Phelipe, parceiros no Cambeta
Luquinha é daqueles “fenômenos” no esporte. Tudo que começa a praticar, se dá bem, pela dedicação e técnica. É campeão mineiro de tênis, na categoria até 17 anos, joga o sul-mineiro de futebol de campo e futsal, além de já ter jogado vôlei, pela seleção de Alfenas. No Cambeta, não foi diferente, no ano passado jogou pela primeira vez na categoria livre, mesmo sendo da infantil e foi vice-campeão, junto com Phelipe e Jairo, que formam a equipe de nome curioso: Power Guido. Um trocadilho com o instrumento utilizado para jogar Bete: “pau erguido”. E Luquinha foi vice-campeão jogando contra quem o inspirou a jogar. “Ano passado, chegamos na decisão, invictos. Na final, disputada em três sets, ganhamos o primeiro, perdemos o segundo, porque o ‘Cabelo’ deu uma ‘betada’ que acabou com o jogo. A dupla ‘Cabelo’ e Zé Rafael. Tínhamos ganhado deles, antes, durante o campeonato, mas na final não deu”.


Zé Rafael (esquerda) e "Cabelo"
Luquinha é jovem, terá muitos anos pela frente para se igualar a Anderson “Cabelo” e Zé Rafael, dois veteranos imbatíveis do Cambeta nos últimos anos. Campeões nove vezes e desde 2011, invictos. E lá se vão 20 anos de parceria, amizade e muitos títulos. Zé Rafael, 38 anos, começou a disputar o Cambeta tarde, quando tinha 24 anos. “Cabelo”, apelido por conta dos cabelos grandes que tinha quando jovem, tem 33 anos e começou a disputar o Cambeta em 1996.




"Cabelo", 20 anos de Cambeta
“Cabelo” é o exemplo claro do quanto o Cambeta representa na vida de muitas pessoas. Muitos vem passar férias em Alfenas, como um pretexto para jogar Bete. Com ele é assim, há vários anos, desde que se tornou técnico de som de grandes bandas brasileiras. Vive viajando pelo país, mas quando é hora do Cambeta, tudo para. “Peço férias sempre em julho para participar. Minha mãe mora aqui. Teve um ano que um chefe disse para mim que não iria conseguir me liberar para vir para cá. Virei para ele e disse: ‘não tem problema, não, amanhã eu trago a carteira profissional para você dar baixa’. E ele: ‘como assim?’. Disse que iria para Alfenas, ele liberando ou não”.


Zé Rafael, em mais uma "betada"
Com Zé Rafael, não foi diferente. Disputar o Cambeta sempre exigiu disciplina, treinos intermináveis. “Quando comecei a jogar, era muito mais competitivo. O pessoal competia com garra, não tinha bolinha perdida. Antes, quando o Anderson (Cabelo) morava aqui, em junho, a gente começava a treinar. Chegava na praça, duas, três horas da tarde e saia dez, onze da noite. Tinha até papel para marcar os jogos treino das equipes, tanta gente que juntava. Enchia de gente, competidores. Não era como hoje, que arma as arquibancadas e tem os jogos. Havia muito treinamento. Um mês antes a gente estava aqui, treinando, pegando condicionamento, porque só de pegar a bolinha, o braço dói demais, arrebenta tudo, dói muito”.


E assim, treinando, a dupla fez jogos inesquecíveis. Por incrível que pareça, uma derrota, na primeira final que disputou do Cambeta, o faz chorar até hoje, só de lembrar daquele dia. “Tenho um jogo que me marcou muito, contra o Anuar e o Vitinho. Foi nossa primeira final, com o Cabelo parceiro. Foi ali, na mão inglesa (rua que separa as duas metades da praça). Perdemos por um vacilo, mas foi o melhor jogo que fiz no Cambeta, até hoje. Mais de 4 horas de jogo. Chovia e parava, mas o jogo seguia. Eles eram os caras a serem batidos, Pelé e Maradona, juntos. E nós fomos a equipe destaque do Cambeta. Chegamos na final, sem perder para ninguém, arrebentando com tudo. Na arquibancada, todo mundo torcendo para nós”.

Neste instante, Zé Rafael começa a chorar, de emoção, pois no final deste jogo, em vez da torcida correr para abraçar os campeões, foram abraçar a dupla revelação. “Foi bom demais, inesquecível. É por isso que continuei jogando tanto tempo depois. Pretendo parar neste ano. Se Deus quiser, quero fechar com chave de ouro, sendo campeão”.

Campeão ou não, Zé Rafael e Cabelo, Luquinha e todos que participaram dos 30 anos do Cambeta, já são vencedores. 

Carregam na alma um dos elementos fundamentais do programa Cidade Escola: a diversão. 

E, se divertir, sem deixar uma cultura de rua morrer. Parabéns Cambeta, vida longa à competição e ao jogo de Bete.

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Crédito fotos de antigas edições do Cambeta: Arquivo Jornal dos Lagos, Marilson Ottoni e Isabella Alves

                                          




























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