terça-feira, 20 de junho de 2017

Cidade Escola: Chapada, onde tudo começou


Faz pouquíssimo tempo, mas para os mais esquecidos, o Programa Cidade Escola foi lançado oficialmente em 3 de fevereiro, com a assinatura de um decreto. E justamente o lugar escolhido para o evento, o Complexo Esportivo da Chapada, deixava claro à toda população alfenense, um dos principais fundamentos do Cidade Escola: quebrar preconceitos.


Sim, porque quem é da Chapada, convive com o estigma de bairro perigoso. A festa de inauguração, naquela sexta-feira de fevereiro, acabou definitivamente, com qualquer dúvida sobre a segurança do lugar. 

Um dia inteiro de shows, culminando com a apresentação da banda Detonautas, levou à Chapada milhares de pessoas de todos os cantos da cidade. Nenhuma ocorrência policial, clima de paz e harmonia, foi tudo que se viu.




Desde então, o Complexo Esportivo da Chapada, com sua quadra, seu campo de futebol e sua área de lazer, foi “ocupado” como nunca antes havia ocorrido na longa história deste bairro tradicional. Se o lugar ficou conhecido pelas práticas de futsal e futebol de campo, agora, centenas de crianças, jovens e adultos começam a praticar diversos outros tipos de atividades como tênis de mesa, zumba, yoga, horta comunitária, capoeira, e, em breve, duas novidades, uma delas, karatê. “Buscamos o que a comunidade quer e gosta de fazer. Devemos colocar em breve, também, o basquete de rua”, afirma o coordenador do Complexo, Carlos Henrique Correa.


Prof. Carlos Henrique, o Iti.
Opa, mas lembre-se de que se aparecer um dia por lá, nem adianta perguntar por este nome, pois é quase certo que ninguém saberá de quem se trata. Agora, se procurar pelo Iti, todos vão saber. A história do Complexo Esportivo da Chapada não seria a mesma sem o trabalho do professor Iti, apaixonado por tudo que há na Chapada. Quase toda a família nasceu e cresceu nas ruas do bairro. O avô, Benedito Correa, era ferrador de cavalos, mandava gado de um estado para outro, no berrante, indo e vindo com a tropa.

Iti mudou-se para o Jardim Nova América quando tinha 12 anos, mas nunca deixou de frequentar a Chapada sempre. O preconceito que muitos carregam sobre o bairro, o incomoda. “Existe um bloqueio em relação ao nome Chapada. Quando você fala Chapada, todo mundo assusta. Professores que dão aula no Complexo, e que nunca haviam pisado no bairro, se apaixonaram pelo lugar. Pessoal aqui é hospitaleiro. A vantagem daqui é que a comunidade não tem tantas vaidades, são pessoas humildes, honestas, simples”, garante Iti.


Com apenas 35 anos de idade, Iti se preparou para abraçar a responsabilidade de coordenar o Complexo Esportivo da Chapada. Formou-se em 2004, na Escola de Educação Física de Muzambinho (Esefm), tem pós-graduação em Educação Física Escolar e está cursando Gestão e Direção escolar. E já se prepara para novos desafios, pois também faz curso sobre Educação Física Especial (portadores de necessidades especiais).

Apesar de ter se preparado para fazer o que faz, o que o levou a optar pelo trabalho no Complexo da Chapada vai muito além do trabalho como educador. Há alguns anos, após passar em concurso público, não pensou duas vezes. “Tinha condição de ser efetivado, aumentar número de aulas, no Coronel José Bento, mas me efetivei na Escola Arlindo Silveira Filho, que fica aqui na Chapada. Larguei o centro, onde tinha acesso melhor, meus filhos estudam por lá, seria menos trabalho para mim, levar e buscar. Mas eu quis aqui. Minha vida é isso aqui. E aos poucos estamos mudando a realidade do bairro, alguma coisa de diferente tinha de ser feito. E a comunidade vem abraçando isso”.


Iti não diz tudo isso da “boca para fora”. Vive um caso de amor com a comunidade que utiliza o Complexo da Chapada. “Gosto mais daqui do que da minha casa. É um caso de amor. E eu sou ciumento. Não gosto que sujem, baguncem. O princípio de tudo é organização e planejamento. Chamar o jovem, perguntar do que gosta, como será, trazer para nós. E, muitas vezes, delegar responsabilidades. E eles estão adorando se apoderarem disso tudo. Sentem-se importantes, valorizados, ensinando algo para outro amigo menor do que ele. Tenho certeza que em dois anos isso tudo aqui estará ‘voando’”.


E não foi nada fácil chegar até aqui. Pai jovem, aos 16 anos, teve de ir à luta, trabalhar para sustentar a filha. E por muito pouco, ele deixaria de ver as transformações que a Chapada vem passando. “Fui trabalhar na Vidro Minas, fiquei 5 anos. Cortei o braço, tive duas paradas cardíacas. Com 18 anos estava na Santa Casa de Belo Horizonte, perdendo sangue e enfartando. Não tinha sensibilidade no braço, o médico disse que não iria movimentar mais. Mas hoje já consigo movimentar, a sensibilidade está voltando com o tempo”.




O braço perdeu a sensibilidade, mas o coração, nunca. Iti faz de tudo pela comunidade. Foi atrás de doações de computadores e videogames e montou no antigo vestiário do Complexo Esportivo, uma sala onde, atualmente, centenas de jovens tem acesso à internet. 

E continua se doando para a comunidade, mesmo em área que não seja de sua formação profissional. “Tem um senhorzinho que mora aqui perto, que eu saía daqui para fazer a barba e o cabelo dele. Cheguei a cortar, aqui, no Complexo, 15 cabelos por dia”.








Iti não para. Além das aulas que dá como professor de Educação Física na Escola Arlindo Silveira Filho e do trabalho como coordenador do Complexo Esportivo, dentro das atividades do Cidade Escola, ele também é técnico de futebol do Chapadão, uma das equipes do bairro. 

Viajou para diversas cidades mineiras, conquistando títulos, como o mais recente, de tricampeão regional entre 2014 e 2016.



O bairro da Chapada respira futebol, literalmente. O campo, parte do Complexo Esportivo, tornou-se ponto de encontro de milhares de pessoas do bairro e de toda a cidade. 

É ali que se fez muitas amizades, adversários de equipes que se formaram ao longo de várias décadas, como o América, Grêmio, Vila Nova, Chapadense, Grêmio, Santos e muitos outros.



Muitos jogos e campeonatos já foram disputados no campo da Chapada, desde que o Complexo Esportivo foi inaugurado, em 1988. E de lá, muitos talentos também foram revelados para o futebol brasileiro e mundial, como David Saconi e Luiz Fernando, que jogaram no Palmeiras; Roni, que disputou a Champions League pela Roma; Cacá, lateral direito do Santo Cruz e Alício Julião, do Atlético Mineiro. A lista seria imensa, pois o campo da Chapada tem muita história para contar. Tempos em que o campo ainda era de terra, sem cercas.

Histórias que começam no ano de 1929, quando o campo começou a ser construído (e ampliado em 1940), em outro lugar do bairro (atual supermercado Néder), por um grupo de amigos e moradores da Chapada, na base do enxadão, picareta, pás e carrinhos de mão.


Nelson Martins, agachado (1º a direita)
Esforço coletivo, mas que se perpetuou por várias décadas, pelo trabalho especial de dois homens em uma das equipes mais tradicionais do bairro: o Atlético da Chapada. Primeiro, com Zé Netinho, no início da década de 1950, e, principalmente, com Nelson Martins, que assumiu o comando da equipe na década de 1960. Muito mais do que ser o “dono” do Atlético da Chapada, Nelson Martins é o responsável por hoje o campo da Chapada existir. Tudo porque, em meados da década de 1970, o campo de terra teria de sair de onde estava (atual supermercado Néder) para outro local. E Nelson não arredou pé do lugar, enquanto outro não fosse arrumado pela administração pública. Depois de procurar vários terrenos, o escolhido foi onde hoje está o atual campo de futebol no Complexo da Chapada.

Nelson, assim como Iti, atual coordenador do campo e do Complexo Esportivo da Chapada, cuidava do campo com muito amor, pois quem o viu sempre por ali, sabia dos ciúmes que tinha pelo lugar. Mesmo no início, com o campo sendo de terra e aberto, sem grades, ele não permitia a entrada de nada no local, nem carros ou bicicletas.


Infelizmente, Nelson Martins deixou os campos e os estádios de futebol. Perdeu a visão, que poderia lhe permitir ver o campo da Chapada iluminado, com refletores. Não viu, mas, com certeza, ficou feliz ao saber da disputa recente do primeiro campeonato noturno, batizado de “Corujão”. E como o campo da Chapada parece ser coordenado sempre por apaixonados pelo lugar, Iti, o atual, comemora. “Muita, mas muita gente mesmo, participou. Jogando ou assistindo. Isso nunca aconteceu antes. Algumas equipes não se inscreveram por preconceito, e, hoje, os jogos do campeonato municipal são feitos aqui e na Vila Formosa. Agora, estão vindo aqui e mudando essa concepção do preconceito contra o bairro”.

Iti está ainda mais feliz e esperançoso com o campo da Chapada porque em breve começará a funcionar no local, aulas de futebol para crianças e jovens entre 4 e 17 anos.


Nelson Martins, Iti, Zé Netinho e tantos outros apaixonados pelo bairro da Chapada talvez não saibam, mas onde funciona o atual Complexo Esportivo era uma área pertencente a Estrada de Ferro. Os trens saíam da estação, onde é o campo e faziam manobras neste exato local. 

O campo também marca a divisão entre os bairros da Chapada e de Santa Luzia, mas tudo, ali, parece ser uma comunidade só. Os trilhos de trem que atravessavam a avenida Lincoln Westin também não existem mais, mas, o lugar nunca deixou de ser um ponto de encontro.


Agora, a realidade do Complexo Esportivo da Chapada é completamente outra. 

Atividades diárias, do Cidade Escola, campo de futebol aberto à toda comunidade, às terças-feiras à noite. “Vem gente de todos os bairros. Fazemos um rachão. Terminado o jogo, ficamos ali, conversando com os mais velhos, lembrando histórias daqui, do bairro, dos times, da vida”, fala com emoção Iti.





Entre o passado e o presente, o coordenador do Complexo Esportivo da Chapada tem uma certeza sobre o futuro. “Antes das atividades, os garotos viviam se atracando aqui, entre eles. Agora, isso acabou. O diálogo aqui é constante. Já demos um passo bem grande em relação ao que era e no que está se transformando. Mudou mil por cento”.

E mudará, muito mais. É o que a comunidade da Chapada quer e terá.






























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