sexta-feira, 2 de junho de 2017

Cidade Escola: Polivalente, Estadual e muito mais

Escola Polivalente

Entre todos os núcleos do Cidade Escola, espalhados pelos quatro cantos da cidade, existe um que concentra um público para lá de especial dentro do programa. A região central de Alfenas é onde se localiza o maior número de escolas tradicionais, estaduais e municipais da cidade. Um número impressionante de crianças e jovens, que chega a quase seis mil –  sem contar a comunidade do entorno destas escolas formada por  pai, mãe, amigos – ,  e que faz do núcleo Centro um dos maiores do programa Cidade Escola.


Em breve, estudantes das escolas Polivalente, Estadual, Judith Viana, Dirce Moura Leite, Levindo Lambert e Samuel Engel terão um leque enorme de opções para a pratica de diversas atividades como vôlei, tênis, artesanato, fanfarra, teatro, xadrez, Jiu-Jitsu, karatê, taekwondo, pilates, ginástica, treinamento funcional, contação de histórias e customização de roupas. Além das escolas, o projeto Cidade Escola também estará presente no Centro Espírita Sarai e no Centro de Convivência, oferecendo atividades com intervenções externas, de teatro urbano, na Praça do Coliseu e no Terminal Rodoviário.


Muita gente e muito trabalho pela frente. Por isso, um coordenador e 19 integradores culturais já começam a desenvolver as atividades, com duas novidades em relação a todas as realizadas nos diversos núcleos do Cidade Escola: uma oficina de pipas e aulas de balé. “Ti Rob, muito conhecido na cidade, dará oficinas sobre a arte de fazer pipas. A diretora da escola Estadual, Elvira de Moura, já fez a experiência e foi um sucesso. Até festival será feito. Não é só cortar o gravetinho. O jovem vai aprender porque a pipa de peso X, não sobe, e a de Y, sobe. É aprender matemática de maneira diferente. No Polivalente, teremos aulas de balé”, confirma o coordenador de núcleo, José Henrique da Silva Junior.


Mestre Oswaldo, Karatê nas escolas.
E terá muito mais, sempre com os diferenciais de aprendizado e convívio. “Com o xadrez, teremos um professor bem dinâmico, campeão sul-mineiro. Ele vai trabalhar também a memorização das crianças, em atividades lúdicas, fora do tabuleiro, pois o xadrez promove isso nas pessoas. 

Vamos levar o teatro para as ruas, na Praça do Coliseu. O karatê, também, ao ar livre, com o professor Osvaldo, supertradicional na cidade. 

A ginástica, com a terceira idade, já está acontecendo na Praça da Estação. Ou seja, a proposta é levar para as ruas esses tipos de atividades que podem ser praticadas ao ar livre, princípio fundamental do Cidade Escola”, afirma Junior.








Mas o grande desafio do núcleo Centro do Cidade Escola está no próprio nome do programa: as escolas. O número de alunos, só nas escolas maiores, como a municipal Polivalente e o Estadual, assusta. No Polivalente, para alunos do ensino fundamental II (6º ao 9º), além do EJA (Escola para Jovens e Adultos) são cerca de 1.200. No Estadual, para alunos do ensino médio, o número é idêntico, chegando a 423 só no período da tarde. Conciliar tantas atividades e interesses das escolas será o grande desafio. “O núcleo Centro é diferenciado por isso, temos parceria forte com as escolas. E em todas fomos muito bem recebidos, todas abriram literalmente as portas. Estamos fazendo reuniões, com os pais, para expor as atividades que já estão acontecendo e as que devem começar em breve. A diferença de trabalhar só com as escolas é que a direção normalmente quer todas as atividades só para ela, mas temos que dividir essas atividades entre todas as outras também. Vemos em cada escola o que a comunidade mais quer fazer e quando quer fazer”, garante Junior, coordenador do núcleo.


Aliás, enfrentar desafios não será novidade para esse coordenador do núcleo Centro, do Cidade Escola. José Henrique da Silva Junior é conhecido e tratado por todos nas escolas da região como Junior. Formado em Educação Física, tem 36 anos e mora em Alfenas desde os 7 anos, quando sua família se mudou de Poços de Caldas para cá. Desde então, a vida de Junior é feita de muita luta pela sobrevivência e do sonho de trabalhar em projetos envolvendo questões sociais. Queria ter sido jogador de futebol profissional, fazendo e passando em testes das equipes do Mogi Mirim e do Sport Recife, quando estiveram na escolinha do Alfenense realizando peneiras com jovens da região. Por causa da idade, 15 anos e de estar estudando, o pai não o deixou ir embora. Pouco tempo depois, outra frustração, ou melhor, decepção, sobre o futuro a seguir. “Queria fazer algo ligado ao esporte que pudesse ajudar outras pessoas. No primeiro momento pensei na fisioterapia, prestei vestibular, mas não consegui entrar, me desiludi”. Junior acabou decidindo pela Educação Física. Concluiu o curso na Escola Superior de Educação Física de Muzambinho (ESEFM) há dois anos, com muitos sacrifícios. “Neste meio tempo fiz de tudo um pouco na vida. Vendedor, comerciante. Fui pai muito novo, tenho uma menina que vai fazer 13 anos. Tinha que trabalhar, sustentar a família. Foi difícil, trabalhei na Alfechapas, chapas pesadas, maquinário pesado, trabalho braçal. Não sei como aguentei, é porque precisava muito, mesmo”.


Nas voltas que a vida dá, Junior acabou encontrando o caminho que o levaria ao que sempre sonhou: projetos sociais. Foi trabalhar na Fazenda Ipanema, uma das maiores produtoras de café do Brasil. Começou empacotando café e também na produção, até conseguir uma vaga como professor de Educação Física no projeto social da Ipanema. 

Mal sabia ele que a base de qualificação para chegar ao Cidade Escola estava acontecendo. “Dava aula de ginástica laboral, na Fazenda Conquista (pertencente ao grupo Ipanema), para todos os setores da produção. Foi uma experiência fantástica. Maquinário, tratorista, expedição, ensacador. De lá, fui para outra fazenda, em Conceição do Rio Verde, aplicar o mesmo serviço com os trabalhadores. Dormia lá, ficava nos alojamentos. Era fantástico, quatro anos de muita batalha e convívio”.





Atividade Jiu-Jitsu no Polivalente com Carlos "Camburão"
Para Junior, a chegada ao Cidade Escola estava próxima, mas não sem antes passar por outro período de dificuldades. Ele saiu da Ipanema e teve de ir novamente para as ruas, batalhar pela sobrevivência da família. Até que o convite para integrar o Cidade Escola chegou. Começou coordenando o núcleo do bairro Santos Reis até se transferir para o núcleo da região central. Em comparação a tudo que já havia passado na vida profissional nos últimos anos, os problemas encontrados, inicialmente, na maioria das escolas, eram pequenos. “Nesses lugares, antes do Cidade Escola, não havia quase nenhuma atividade. Existiam vários tatames, no Polivalente, guardados em sacos havia dois anos. Não havia um programa para a utilização destes materiais. Esse foi o problema maior encontrado em quase todas as escolas: a falta de uso de material, falta de atividades, o que se dava mesmo era só a educação física tradicional”.



Mas agora, tudo deve começa a mudar. A vinda de novos integradores culturais do Cidade Escola para as diversas escolas da região central e a oferta de muitas atividades prometem mudar a realidade de milhares de crianças, jovens e comunidades destes entornos. “Está sendo um desafio para mim. Nunca pensei ser coordenador de um programa tão grande e importante como o Cidade Escola. Mas vamos colher muitos frutos, aqui. Dá para conquistar todos os sonhos que sempre tive nas questões sociais. Nós vamos fazer acontecer. Brinco com nossos integradores que esse será o melhor núcleo do Cidade Escola. Porque, aqui, é um dos maiores, tem que movimentar, mesmo, crianças e pais tendo muitas atividades”.



Junior sabe o tamanho da responsabilidade que têm pela frente, afinal, está trabalhando dentro de algumas das escolas mais tradicionais da cidade. Por conta da continuidade dos ciclos de aprendizado que oferecem, a grande maioria da população alfenense já cumpriu esse trajeto: Escola Coronel José Bento, Polivalente e Estadual. Escolas que já formaram milhares e milhares de cidadãos bem-sucedidos na vida, pessoal e profissional. Lugares, que fazem muita gente se emocionar, até hoje, pela vivência e formação que por ali tiveram.


Adriano Csizmar
 É o caso de Adriano Holanda Csizmar, que nasceu praticamente junto com a criação da escola Polivalente. Ele, 47 anos. Ela, a escola, completa 45 anos desde a sua inauguração, no dia 12 de junho. Adriano passou por todas as fases dentro do Polivalente. Foi aluno, a partir do ano de 1982, e mais tarde, a partir de 2000, construiu a carreira como professor, coordenador e vice-diretor. No cargo atual, na secretaria da escola, Adriano é obrigado, pela formalidade, a escrever nos documentos oficiais que recebe e envia, o nome de “Antonio Joaquim Vieira”, patrono do lugar. E, invariavelmente, recebe o questionamento: “mas que escola é essa?”.

Não adianta, toda e qualquer pessoa só conhece a escola como Polivalente. Mas, afinal, por que Polivalente? O que isso significa? O sinônimo natural é o de versátil, multifuncional, e é aí que se encontra a resposta para o nome mais conhecido. Não apenas um nome, mas um marco na história da educação brasileira. Está tudo explicado, no site da própria escola (http://polivalente1.wixsite.com/polivalentealfenas):


Inauguração da Escola Polivalente, junho 1972.
As Escolas Polivalentes começaram a ser construídas no período da ditadura militar no Brasil, com a assinatura dos acordos entre os Estados Unidos e universidades brasileiras. Por meio desses convênios, os Estados Unidos da América disponibilizaram recursos financeiros à educação brasileira.

A criação dessas escolas fazia parte da reforma educacional já prevista pela Lei nº 5.692/71, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que reformulou os ensinos de 1º e 2º graus, tornando este último obrigatório e profissionalizante. Esta lei determinou que dos 7 aos 14 anos, o ensino passasse a ser obrigatório e gratuito, constituindo um ciclo comum de educação geral, de 8 anos de duração, que nas séries finais visava também a sondagem de aptidões e a iniciação para o trabalho.


As escolas ou ginásios polivalentes foram criados por meio do Premem (Programa de Expansão do Ensino Médio). Foram criados para serem centros de excelência e escolas-modelo, com o objetivo de preparar os jovens para a vida profissional. Além das disciplinas tradicionais, a escola oferecia também Práticas Agrícolas, Técnicas Comerciais, Artes Industriais e Educação para o Lar. Havia laboratórios de Ciências e Artes.

O alto custo de manutenção desta estrutura fez com que a proposta, embora inovadora, não durasse muito tempo, especialmente depois do fim dos convênios estrangeiros”.









Essa é a história oficial, mas só quem participou, pode contar o que de fato acontecia nesta construção, de estilo único, diferente, horizontal, com dezenas de salas espalhadas por vários prédios.  Histórias que Adriano Csizmar se recorda muito bem. Desde a diferença de período letivo, na época, a cada seis meses. “Tínhamos aulas de Práticas Industriais, onde aprendíamos a fazer as ferramentas de tipografias, as letrinhas para fazer impressos. Tínhamos aula de cerâmica, onde fazíamos aparadores, suportes para panelas. Também fazíamos raladores de queijo, com sucatas de latas de óleo. Tínhamos também aulas de Práticas Agrícolas. Íamos para as hortas de verduras, cada dois alunos cuidavam de um canteiro de alface, beterraba, cenoura, repolho, couve. Eu e um colega cuidávamos de um dos canteiros, mas no dia da aula, todos nós irrigávamos os canteiros dos outros. Era comunitário, mesmo. Na época da colheita, a cantina muitas vezes não dava conta, porque a horta era gigantesca. Toda a produção ficava para a merenda da escola, o excedente, podíamos levar para casa”.


Adriano, na área onde existia a horta no Polivalente
E não era só isso, como relembra Adriano. “Tinha também as Práticas Comerciais, onde aprendíamos a preencher uma nota fiscal, a datilografar, a fazer atendimento de balcão. Existiam prateleiras, armários cheios de latinhas de massa de tomate, sardinhas, embalagens em geral, onde tudo tinha preço. Aprendíamos a calcular desta forma, selecionando os produtos e fazendo o cálculo de quanto teríamos de pagar. Aprendíamos, assim, também a ser um vendedor de uma loja, supermercado”.

Eram muitas atividades, mas de uma, em especial, Adriano jamais se esqueceu. “Tínhamos também a Educação para o Lar. Aprendíamos a cozinhar. Tenho receita de pizza em casa, até hoje, escritas nos cadernos que utilizávamos”.


Apesar de conceitos completamente diferentes, as recordações de Adriano sobre as atividades que eram feitas dentro do Polivalente remetem ao que acontece agora, com o Cidade Escola. Uma verdadeira “ocupação” do espaço escolar existente. E quem viveu esses “bons tempos”, não consegue deixar de acreditar no novo projeto do Cidade Escola, como se tudo estivesse acontecendo novamente por ali. Se antes, eram no máximo 500 alunos, agora, são quase 1.200, quatrocentos deles já em atividades que acontecem no Polivalente. 


“O Cidade Escola tem diversidade de atividades. Muda o comportamento no dia a dia das crianças e jovens. Eles ainda não tiveram noção do tamanho do benefício que estão tendo com as atividades do Cidade Escola, porque existem cidades até maiores do que a nossa que não têm esse tipo de programa. Tenho certeza que em pouco tempo, um aluno vai puxar o outro para as atividades e só aumentar os participantes. É um projeto muito bom. A tendência é só crescer”, acredita Adriano Csizmar.

E assim também será com todas as escolas do núcleo Centro e com todas as comunidades que fazem parte do Cidade Escola.
































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