quarta-feira, 10 de maio de 2017

Cidade Escola: Uma Vila Formosa


Nem todos sabem, mas um dos bairros de Alfenas e sede do núcleo do Cidade Escola, carrega o nome de fundação da cidade. Antes de virar Alfenas, a cidade era conhecida como Vila Formosa de São José e Dores. Restou o bairro, Vila Formosa, simpático, encravado em ladeiras próximas à avenida Lincoln da Silveira. E pensar que há pouco tempo o lugar ainda tinha chácaras e ruas de terra. “Conheço muita gente no bairro. Estou há 25 anos aqui, cheguei quando tudo era praticamente mato, ruas de terra, chácaras. Ia buscar alface, nas chácaras, a pé”, recorda Marcelo Divino, coordenador do núcleo do Cidade Escola na região.

Ou seja, o jovem Marcelo passou praticamente a vida inteira na Vila Formosa, pois tem apenas 33 anos de vida. Jovem, mas experiente. Na região, o Cidade Escola atende as comunidades de Vila Formosa e Santos Reis, outro bairro antigo e tradicional na cidade. Como acontece em outras regiões do programa, um lugar em que, até a chegada do Cidade Escola, pouco ou quase nada havia para se fazer. “A região tinha apenas natação, no CEME, e ginástica localizada, na creche, que mantivemos, mas estruturamos, porque não tinha material algum para a atividade”, afirma Marcelo.

E não foi nada fácil começar a estruturar as diversas atividades do Cidade Escola na região. Primeiro, faltava um lugar adequado. “A primeira ideia era instalar o núcleo no campo de futebol da Vila Formosa, mas o espaço estava bastante deteriorado, sem limpeza havia três anos”, conta o coordenador Marcelo.

E foi andando pelas ruas, que Marcelo tanto conhece na Vila Formosa, que ele percebeu que a solução estava bem próxima de onde ele mesmo mora. E sem saber, surgia uma parceria que virou programa do governo (ver matéria completa em http://cidadescolaalfenas.blogspot.com.br/2017/04/cidade-escola-e-saude-parceria-para.html ). “Estávamos sem um local adequado para todas as atividades e encontrei a Rosangela, na época, enfermeira responsável pelo PSF da Vila Formosa. Aqui, aconteceu uma parceria natural entre PSF e Cidade Escola. Ela nos acolheu de imediato, cedendo até sala para que eu pudesse ter um canto para poder conversar com os pais reservadamente”.

Em breve, 14 integradores culturais estarão responsáveis por diversas atividades como zumba, karatê, treinamento funcional, xadrez, teatro, artesanato, violão, pilates, futebol (masculino e feminino) e tênis (em parceria com a Academinas). Todas elas funcionarão (algumas já estão em andamento) no campo de futebol, da Vila Formosa, na creche Lago Azul, na creche do Santos Reis e nos fundos da sede do PSF Vila Formosa.



 Sim, isso mesmo, a sede do Cidade Escola da região fica dentro de um PSF. E o que muitos poderiam imaginar que não daria certo, acabou mudando a realidade do local. “Nos fundos do prédio do PSF há uma área em que acontecem várias atividades como violão, xadrez e pilates. Aqui, a comunidade aceitou muito bem estarmos dentro do PSF, porque acabou aproximando as pessoas. Tirou a ideia ou imagem de que PSF é um pronto socorro, usado apenas por pessoas que precisam de cuidados médicos. Aqui, por exemplo, já vi mãe sendo atendida pelo médico enquanto a filha está fazendo aula de violão. Virou um espaço muito acolhedor”.

E o Cidade Escola foi ampliando a parceria e utilização do espaço, antes reservado só para atendimento médico no PSF. “A gente tem aula de treinamento funcional. E o que é treinamento funcional? Temos uma academia ao ar livre, próxima ao campo de futebol, que não foi utilizada na gestão passada e ficou totalmente abandonada. Então, trouxemos uma professora para dar aula de ginástica neste local para o pessoal da terceira idade. É ela também quem dá aula de pilates. O que acontece, na prática, nesta parceria? Uma pessoa do PSF, no começo da atividade de ginástica, mede a pressão das senhoras, faz toda a triagem e vê como a pessoa está. A diferença é que fazem tudo isso se divertindo, interagindo e ‘melhorando’, naturalmente”, conta Marcelo.

Outra mudança percebida no núcleo de Vila Formosa, que funciona dentro do PSF, é o público de usuários. “Quando cheguei aqui, era só o pessoal da terceira idade. Eu não via adolescente neste espaço. PSF tem a ‘imagem’ de gente só com problemas de saúde. E adolescente, tem muita energia. Agora, não. A gente vê muitos adolescentes, todos os dias. Violão, por exemplo, começamos com dois alunos, e agora já são vinte e cinco, divididos em duas turmas” revela o coordenador.


No bairro Santos Reis, o Cidade Escola também está presente. Pequeno, mas repleto de história e tradição por ter em seu pedaço de chão a igreja de Santos Reis, a mais antiga do Brasil. No final deste ano, em 17 de dezembro, devem acontecer inúmeras homenagens e comemorações pelo centenário da igreja. Mas nem tudo foi razão de festa por ali. Poucos sabem, mas no livro escrito por Edson Velano, “Sombras na Vila Formosa” (acesse para ver a obra completa https://issuu.com/leandronunes07/docs/sombras_na_vila_formosa_-_edson_antonio_velano ), a abertura do capítulo 43, revela um passado sombrio. 


“Dona Rosa sobe a rua Ruy Barbosa com seus dois burrinhos. Carregam verduras em balaio. Frutas, marolos, produtos da terra que dona Rosa vende pelas ruas. Dona Rosa mora no bairro dos Aflitos, chamado agora Santos Reis. Por que o nome dos Aflitos? Dizem que para aquela região da cidade encaminhavam os moribundos, os pobres sem eira nem beira apanhados pela gripe espanhola, mortos-vivos que se afligiam deixados ao léu, até morrer, porque os não infectados tinham medo do contágio...”.


Quase cem anos depois, o Santos Reis vive, com sua gente simples, espalhados pelas poucas ruas existentes por ali. Um lugar em especial, agora, começa a dar novos ares à pequena comunidade. A creche do bairro é quem recebe as atividades do Cidade Escola. Tem karatê, treinamento funcional, cantinho da beleza e o cantinho do saber, espécie de reforço escolar, só que tudo de forma lúdica. “Na creche, trabalhamos o cantinho do saber (reforço escolar), mas sem usar lápis ou papel, tudo lúdico. A ideia é simular um supermercado, levando material reciclável, uma garrafa PET, uma latinha de milho, e outras coisas. Pegamos um brinquedo que imita uma caixa de supermercado e notas de 1 real de brinquedo. Distribuímos um valor para cada criança, ela vê os preços, faz as compras, passa no caixa, e recebe o troco. Quanto tem que voltar? É assim que trabalhamos a matemática, totalmente de forma lúdica”.


Se no passado distante, Santos Reis era sinônimo de isolamento, agora, com o Cidade Escola, é a esperança de novos tempos, um dos principais princípios integradores do programa. “Nossa região atinge, Vila Formosa, Santos Reis, mas atinge também o Jardim Aeroporto (bairro nobre), que está começando a ‘descer’ para algumas atividades. São poucos, mas estão aderindo também. E isso é raro, a burguesia que não se misturava com a comunidade do Santos Reis. E o inverso, idem. Já levamos turmas de treinamento funcional da terceira idade no Santos Reis para fazer caminhadas pelas ruas do Jardim Aeroporto”, confirma Marcelo Divino.



Marcelo Divino, ator e coordenador Cidade Escola
E quase 500 pessoas já se inscreveram nas atividades do Cidade Escola que estão sendo implantadas na região. E entre tantas opções, uma é especial para o coordenador Marcelo Divino. Teatro é a sua grande paixão. Descoberta feita numa época em que ele mesmo percebeu um grave defeito em sua formação. “Tinha ciúmes terrível da minha namorada. E ela resolveu fazer aula de teatro, num curso gratuito que surgiu por aqui, em 2002. Eu parecia ter uma viseira de cavalo, não enxergava o mundo, era muito machista. No primeiro dia do curso, o professor pediu para que todos se sentassem num local e começou a perguntar um a um, por que vieram fazer teatro. Quando chegou na minha vez, disse que era para vigiar minha namorada. Dei uma resposta atravessada para o professor, e ainda assim, ele continuou me ironizando de forma sutil. Achei genial, comecei a gostar do negócio, fazer as cenas, atividades, exercícios”.




E lá se foram quinze anos de muita luta nos palcos teatrais, dezenas de peças encenadas. Entre tantos projetos desenvolvidos, um se tornou especial. Marcelo montou um grupo chamado Fábula, pequeno, mas que em parceria com o Cidade Escola, em sua primeira versão, em 2009, fez total diferença. Os resultados alcançados, já naquele momento, revelam o potencial que o teatro terá, agora, na nova versão do Cidade Escola. “Chegamos a ter 250 alunos espalhados pelas regiões do CAIC, CRAS Alvorada, Gaspar Lopes, Polivalente e na escola Orlando Paulino. Oitenta e oito, em uma única sala de aula, no Polivalente. O teatro foi um sucesso na primeira edição do Cidade Escola. Tivemos uma força muito grande. E não será diferente, agora”.







Turma do Cidade Escola, no festival de teatro em 2012.
Mas faltava algo mais para toda essa moçada. Só fazer aulas? E depois? Foi aí que Marcelo, professor de teatro no Cidade Escola da época, teve uma ideia. Procurou a secretaria de educação e propôs uma seleção, entre todos esses alunos do Cidade Escola, para integrarem seu grupo teatral, na época, com apenas quatro integrantes. Vinte alunos foram escolhidos. “E a coisa foi tomando uma proporção muito maior, até chegar no final do ano e quando fizemos um festival de teatro do Cidade Escola, em 2012. Foi no Teatro Municipal, três dias de apresentações, com direito a premiação com troféus, três jurados professores de teatro, que não tinham contato com os alunos. Neste festival, participaram 66 alunos do programa”, recorda Marcelo.


Muito mais do que apresentações, Marcelo fala com orgulho dos resultados individuais alcançados com alguns dos alunos formados dentro do Cidade Escola. “O Thalyson, por exemplo, foi meu aluno, no centro, na escola Polivalente, e veio fazer parte do grupo Fábula. Fez todo o processo do Cidade Escola. Depois, resolveu ir embora para São Paulo. Chegou a participar de uma peça de teatro. De lá, foi para o Rio de Janeiro, e passou a fazer figuração na novela Geração Brasil, da TV Globo. Chegou a fazer teste também para atuar em Malhação, e participou de outro teste, para uma minissérie sobre adolescentes, num canal a cabo”.


Nos últimos quatro anos, quase todos os grupos teatrais da cidade foram obrigados a parar suas atividades, por total falta de apoio. Agora, o Teatro Municipal está em boas mãos, com o diretor Anselmo Cesário –  que será  em breve, tema de reportagem neste blog. Mas daqueles tempos, Marcelo não se esquece. “Montamos uma peça chamada ‘Cô Zé, nem o Diabo Pode’, uma obra inspirada no Mazzaropi e no Auto da Compadecida (obra de Ariano Suassuna). Um dia, resolvemos fazer a apresentação em uma quarta-feira, por não haver data no domingo. Metade do grupo disse que eu estava louco, pois não iríamos ter ninguém no teatro neste dia. Na época, precisávamos de dinheiro para pagar aluguel da nossa sede, era o único jeito. No dia, meia hora antes de apresentarmos a peça, choveu. A zeladora ironizou: ‘não vai dar ninguém aqui, só os parentes de vocês’. E nesse dia, fez fila no teatro de dar volta no quarteirão. Nunca tinha visto tanta gente no teatro. Eram 17 atores, 14 do Cidade Escola”.


Para Marcelo Divino, teatro e Cidade Escola tem tudo a ver. “O que acho mágico no teatro é a oportunidade que ele dá de você ser o que não é. Sempre digo isso para os meus alunos, que queria ser jogador de futebol, mas não tinha habilidade nenhuma para isso, no teatro eu posso ser, e convenço um monte de gente que sou bom de bola”.





E muito mais do que isso. “O teatro ajuda a compreender um pouco o mundo da pessoa, você consegue pegar qualquer história e trazer para o palco. Essa é a magia, pegar um livro, cheio de letras, contando uma história, e fazer aquela história virar real. O lado social também é forte com o teatro, porque é uma força de expressão muito grande. Recuperamos muitos alunos do Cidade Escola por conta do teatro”.






E assim será, novamente. Com teatro e as diversas atividades integradoras propostas pelo Cidade Escola, na Vila Formosa, no Santos Reis e em todos os núcleos espalhados pelos quatro cantos da cidade. Cidade Escola é teatro vivo, nas ruas, integrando e interagindo saberes e vivências. “A ideia do Cidade Escola é não taxar idade, é misturar, diferente do que acontece numa sala de aula. No começo todo mundo assusta, mas funciona, é legal ver uma pessoa de 25 anos ‘ensinando’ um menino de 8, que ele nem conhece. Ou o contrário. No Cidade Escola, os professores ensinam, mas deixam um leque de opções para os próprios alunos ensinarem um ao outro. Há espaço para a conversa, para você ser, hoje, o mestre, o professor, e, amanhã, o aluno”, garante Marcelo Divino.

























2 comentários:

  1. Marcelo parabéns por todo esforço e trabalho. Seus frutos são e serão lindos. Sucesso!

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  2. Marcelo parabéns por todo esforço e trabalho. Seus frutos são e serão lindos. Sucesso!

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