quarta-feira, 5 de abril de 2017

Cidade Escola: Valorizando vidas


O programa Cidade Escola está espalhado por todas as regiões de Alfenas (11 no total) e em diversos bairros da cidade. E em cada núcleo, uma variedade enorme de atividades, para todos os tipos e gostos.

Mas existem núcleos dentro do Cidade Escola com atividades inovadoras, desconhecidas para muita gente que procura se inscrever no programa. É o caso dos núcleos instalados nas escolas Tancredo Neves e na Emei Dona Zinica. O primeiro, fica na região dos bairros Jardim América (I, II e III), Residencial Oliveiras e Pôr do Sol. O segundo, no Jardim São Carlos.

São atividades para todas as idades. No Tancredo Neves tem Zumba, Canto, Violão, Teatro, Dança de Salão, Inglês, Xadrez, Futsal, Ginástica, Karatê, Jiu-jitsu, Arte em EVA, Arte em MDF, Pintura em Tecido, Psicomotricidade, Capoeira e Valorização Humana.


No Dona Zinica tem Capoeira, Ginástica, Zumba, Pintura em MDF, Grafitagem, Horta Comunitária e Valorização Humana.

Entre tantas opções, uma atividade em especial tem chamado a atenção de muitas pessoas, em particular, mães e filhos: valorização humana.

Você leu direito, sim: valorização humana. Uma atividade em funcionamento nos dois núcleos.



Atividade Valorização Humana ou Tertúlia Literária
Na verdade, o nome da atividade foi batizado desta maneira para facilitar a compreensão daqueles que procuram se inscrever, pois seu nome verdadeiro é Tertúlia Dialógica Literária.

Parece complicado, não é mesmo? Mas é muito mais simples do que se imagina. A Tertúlia Dialógica Literária surgiu em 1978, na Espanha, mais precisamente, na Escola de La Verneda de Sant-Martí. É uma atividade cultural e educativa que consiste na leitura dos clássicos da literatura universal como forma de superação da exclusão social. A dinâmica está baseada no diálogo, que é gerador de aprendizagem.

E como a tertúlia veio parar no Cidade Escola, em Alfenas? Ideia de duas amigas, pedagogas, que queriam trazer algo inovador dentro das atividades propostas pelo programa da prefeitura.

Uma é Stela Rogatti, neuropsicopedagoga, coordenadora dos núcleos do Tancredo e Dona Zinica. A outra é Ana Maria, psicopedagoga e integradora cultural do programa.

Na manhã do dia 29 de março, lá estavam as duas, trabalhando com a primeira turma inscrita nas tertúlias literárias do Cidade Escola. Um grupo de jovens e crianças de várias idades, ambos os sexos, entre 6 e 13 anos, diferentes origens e situações sociais. Naquele dia, aconteceu a leitura de dois clássicos da literatura: “O Pequeno Príncipe” (Antoine de Saint-Exupéry) e “Malasaventuras – Safadezas do Malasartes (Pedro Bandeira). Não era o primeiro encontro do grupo, muito menos os dois livros lidos desde o início da atividade. Já se reuniram mais de 15 vezes, nas 3 aulas semanais da tertúlia. Também já leram e interpretaram outros clássicos, como “João e Maria” e “O velho, o menino e o burro”.

Mas, afinal, como tudo isso funciona, na prática? “Existem outros tipos de tertúlias: musical, arte, desenho, que alcançam uma variedade enorme de saberes. No caso dessas crianças, o que nós fazemos? Ana Maria entrega vários clássicos da literatura, agora, por exemplo, estamos trabalhando com o Pequeno Príncipe. Então, o que ela faz: há uma leitura do livro, e cada criança coloca o seu entender. Não é a versão do que eu ou você temos sobre o livro, é o que a criança entendeu dele. E que gera uma curiosidade muito grande nela”.

A neuropedagoga conta que já viu outras aulas de Ana Maria com as crianças, com outros livros e garante que é possível “viajar” nas conversas e nas respostas que os alunos dão.  “Tem crianças remetendo a leitura (mostrando a roda do Pequeno Príncipe), à questão da família, à importância que a família tem para eles. Eu sempre havia interpretado o Pequeno Príncipe nas questões da gestão, da competência, sempre vi desta maneira, e eles já viram de outra forma. Hoje, quando chegamos aqui, ouvi que, da leitura, saiu o assunto ‘praia’. E, dali, começaram as perguntas: ‘Quem conhece praia e as vivências que tiveram nela?’. Uma das crianças, lembrou da irmãzinha, que estava na praia e quase se afogou. Ou seja, remeteu-a à uma situação familiar, de risco. Vejo o trabalho da Ana Maria, não como o de um professor, mas de uma condutora, ela articula, não dá aula”, conta Stela.

“O grupo tem idade variadas, 13, 11, 6, 7 anos. Com os menores, trabalhamos a ‘leitura de imagens’.

O objetivo maior é trabalhar essa interação. E associar o que eles encontraram nessa literatura, o que chamou a atenção, o que mexeu com eles.

O menor de todos, por exemplo, pode enxergar e interpretar coisas da leitura que os maiores não viram”, complementa Ana Maria.










Érica, mudanças em pouco tempo de atividade da Tertúlia.
E os resultados alcançados impressionam, pelo curto espaço de tempo com a tertúlia literária neste primeiro grupo formado no Cidade Escola. Érica, a mais “velha” da turma, está vivendo em Alfenas há poucos meses. Era de São Paulo e começou a estudar, por aqui, na escola estadual Samuel Engel. A garota teve sérias dificuldades de se adaptar ao novo grupo de amigos. Isolou-se, quase não falava mais, porque os novos amigos não compartilhavam de seus gostos musicais e do jeito de pensar o mundo. Em poucas semanas participando das tertúlias, Érica é outra menina. “Quando descobri a tertúlia, comecei a fazer porque, aqui, eu posso dar minha opinião, do jeito que eu quero”, afirma a garota.


Érica acaba nos revelando outro princípio integrador do Cidade Escola: a troca de saberes. Em meio a roda de conversas, ela começa a falar de sua paixão pelas culturas norte-americana e coreana, das séries que adora ler e assistir, e, de repente, “ensina” à integradora Ana Maria e a este jornalista, variações de expressões entre os dois idiomas, o inglês e o coreano:  “Já aprendi frases em coreano que no inglês tem diferença, por exemplo, “come on” (siga, vamos lá), em coreano, é “pare”. Tem diferenças que até eu me confundo às vezes. Já aprendi a frase em coreano ‘o que você acha de mim?’ (‘dunauatê’?).

Érica mudou tanto, em tão curto espaço de tempo, que até um jornal sobre o Cidade Escola, feito por eles (e para eles, crianças e jovens) já está sendo preparado. Até mesmo a psicopedagoga e integradora cultural Ana Maria se surpreende com os resultados alcançados pelo grupo. “O que mais me chamou a atenção, até agora, foi a capacidade dos maiores de lidar com os pequenos. Aceitar e respeitar a opinião deles, dos menores. Um dos meninos mais novos da turma, chegou agitado, e agora já está entrando no ritmo da turma, serenou. Outra pequena, sansei, era muito quietinha, agora, entra na sala dando ‘bom dia, professora’. Eles estão desenvolvendo um carinho muito grande um pelo outro, amizade mesmo. E antes, isso não existia, mesmo eles estudando na mesma escola. Não tinham proximidade um do outro. A leitura é a base de todo conhecimento”.

Cibeli, resultado concreto dentro das atividades do Cidade Escola.
A tertúlia literária e a “valorização humana” (nome oficial da atividade) aparecem e revelam resultados concretos e rápidos, como no caso emocionante descrito pela coordenadora Stela Rogatti. “A quem nos procurava, explicávamos o que era a atividade. Ou seja, uma atividade que serve para crianças com qualquer tipo de dificuldades, emocional, psicomotora, déficit de atenção, hiperatividade. Temos uma aluna no Zinica, a Cibeli, que a Ana Maria está fazendo um trabalho especial. Ela tem uma deformidade no rosto, vai fazer 12 anos, mas não lê e não escreve. Estava desmotivada porque está no 6º ano e faz parte de uma turma que não consegue acompanhar. A vontade dela continuar a ir para a escola foi diminuindo. Além da questão pedagógica, de não saber ler e escrever, ela tem a dificuldade da autoestima, porque, infelizmente, tem uma deformidade, é a ‘diferentona’ da turma. Como professora e pedagoga, fico muito triste, porque, até hoje, nada havia sido feito para essa menina. Primeiro, por ela não ter conseguido acompanhar a turma no conhecimento, mas a meu ver, o conhecimento, no caso dela, é o que menos interessa. O que mais me dói é saber que ela sempre foi deixada de lado. Passou por uma escola de ensino infantil, fundamental e nunca ninguém se mobilizou para que fosse atendida. Ela não precisa ser atendida para aprender a ler e a escrever. Precisa ser atendida como um ser humano. O educando não tem que aprender só a ler e a escrever. A criança tem que aprender a se socializar”, avalia Stela.

Ela conta que quando a garota foi para a escola Dona Zinica, ela ficava no cantinho da sala nas primeiras aulas, foi aí que a integradora Ana Maira começou a trabalhar com ela a questão da escrita para que conseguisse pelo menos entender algo, pois nesse momento a menina não sabia nem o que é o número zero. “ Conseguimos uma sala só para ela, para não se dispersar. Ela sai da aula regular e trabalha conosco na sequência. Primeiro, ela se retraía muito. Não queria sequer conversar com a gente. Lá, é educação infantil e as crianças maiores têm 5 anos, mas já prestam atenção no rosto, na deformidade dela. Na hora do almoço, a Ana começou a pedir às crianças da turma ‘regular’ para convidá-la para almoçar com elas. No início, não aceitou, porque é uma mesa coletiva, mas, agora, já se senta com as outras crianças, sem se sentir incomodada. Ou seja, ela percebeu que a rejeição era dela também. Ontem, estava toda feliz na atividade. Evoluiu muito. Até me emociono, é por isso que a gente diz que vale a pena insistir, não desistir dos outros. Ela já está escrevendo as consoantes, os numerais de 0 a 9. São esses resultados que nos motivam. Tenho 60 anos, sou supervisora, poderia tranquilamente estar só passando por lá, mas vivenciar esses problemas e atingir resultados nos motivam e emocionam”, relembra Stela.

Integradores do núcleo Dona Zinica:
Stela Rogatti é a 5ª em pé, da esquerda para a direita. Ana Maria é a 7ª.
É por isso que Stela e Ana Maria se identificaram como amigas e profissionais. A paixão pelo que fazem. E por suas histórias de vida, também. Ambas vieram de São Paulo e fizeram de Alfenas a terra do coração.

Stela Rogatti tem uma trajetória incrível na educação. Até quase os 40 anos, tinha apenas a antiga 8º série escolar (o que corresponderia hoje ao 9º ano). O pai, militar, achava dispensável que a filha estudasse na adolescência. Moravam em Araraquara, interior de São Paulo. Stela casou-se e veio morar em Alfenas. E lá se foram 34 anos de muitas vivências no mundo da educação. Primeiro, na luta para conseguir uma vaga para a filha na escola Estadual. Nas longas filas que se formavam para conseguir uma vaga, ela acabou conhecendo o diretor do Estadual, o professor Leco. Neste encontro, Stela disse a ele que gostaria de voltar a estudar, mas que não tinha esperança de conseguir uma vaga, porque, se para a filha já estava difícil, quanto mais para ela, uma mulher com quase 40 anos.

Para a surpresa dela, porém, as duas vagas foram obtidas. A filha passou a estudar de manhã, e ela, à noite. “Conclui o terceiro colegial em 1997, prestei vestibular para Letras, em Machado. Passei. No ano seguinte, já dava aulas no mesmo colégio em que estudei, inclusive para colegas de sala que tinham sido reprovados. Depois fui para o Tancredo Neves, fiquei 15 anos como voluntária em uma ONG, no projeto Telecurso 2000. Chegamos a atender 650 alunos”.

Stela Rogatti, de preto, sempre extrovertida.
Por todo esse trabalho, Stela foi convidada a dirigir a creche do Caic. Ficou por lá entre os anos de 2005 e 2009. Inquieta, não se conformava com o formato e as estruturas do ensino infantil: com portas fechadas, alimentação errada e vários outros problemas. Por gostar de desafios, decidiu ficar. Neste período, fez faculdade de Pedagogia, pós-graduação em orientação, supervisão, inspeção e administração escolar. E não parou por aí. “Estava com a Ana, trabalhando numa CEMEI e nunca tinha vivenciado ou estado frente a frente com uma criança que necessitasse de tratamento especial, ou ultraespecial. E nessa escola tinha dois autistas. Foi então que me vi sem saber como lidar com o caso. Eu era supervisora, à tarde, e professora, de manhã. A princípio, fiz um curso de 120 horas sobre autismo, e comecei a perceber que era pouco. Foi então que decidi fazer outra pós-graduação, em Neuropsicopedagogia. A neuropsico pode ajudar na percepção dos problemas. Hoje, me sinto mais capaz de identificar a dificuldade da criança. Não no tratamento, mas nas ações que possibilitem ajudar tanto no aprendizado como na socialização. Lembro de uma ação recente que fiz chamada ‘abraço grátis’. Às vezes, o que mais precisamos, é só disso, um abraço”.

Ana Maria e sua turma da Tertúlia Literária, no Teatro Municipal.
A amiga e integradora Ana Maria tem caminhos parecidos. Ela recorda-se de uma experiência semelhante vivida com um aluno autista. “No primeiro dia que cheguei a sala de aula, foi muito impactante, ele era muito agressivo, por isso, muito isolado. Era uma sala com dez alunos hiperativos, mas hiperativos mesmo, de não parar um minuto. E ele, o autista, com esse nível de agressividade. Perguntei a mim mesmo: ‘e agora, o que faço?’. Tinha que proteger as outras crianças, e ao mesmo tempo, incluir esse menino. Usei a terapia do abraço. Ele nunca me agrediu. Os outros, hiperativos, logo que cheguei, me deram uma ‘bonecada’ que até tirou meu rosto do lugar”.

Ana Maria e Dra. Wilma Laino
Ana Maria revela que gosta de estar sempre “no olho do furacão”, no que diz respeito a causas sociais. Não é à toa. Dos seus 56 anos de vida, passou os últimos 22 em Alfenas. Antes, vivia em São Paulo, fazendo de tudo um pouco. Foi motorista, cozinheira, faxineira, cuidadora, babá. No período em que trabalhou como cuidadora, acabou conhecendo a mulher que mudaria seu futuro. “Ela era muito ligada ao meio artístico. Advogada, empresária, e sempre envolvida com o teatro, cinema. Por ser a cuidadora dela, acabei entrando nesse mundo cultural. Ela não dirigia, então eu acabava sendo motorista e acompanhante. Um dia ela se virou para mim e disse que eu estava ‘desperdiçada’ na vida, porque achava que tinha talento, capacidade de ser ‘muito mais’. E perguntou: “por que não vira educadora? Tem tanta habilidade para lidar com crianças”.

Ana Maria também trabalhou com jovens em diversas comunidades carentes em São Paulo, antes de chegar a Alfenas. Comprou uma casa para ela e o filho estarem perto da família que vive há muitos anos por aqui. Até que resolveu seguir os conselhos da antiga patroa paulistana e há quatro anos formou-se em psicopedagogia. “Estudei pedagogia em Machado. Minha primeira opção era Serviço Social, queria ir no furacão dos problemas, mas acabei entrando na minha segunda opção, pedagogia, que também tem uma função social. Não tem aluno que não consiga aprender, basta descobrir o jeito dele aprender. Nosso trabalho é esse, investigar o jeito dele aprender. Gosto dessas propostas diferentes de aprendizado, para mim, a sala de aula é um ‘aquário’. As pessoas não dão chance ao diferente”.

Ana Maria e jovens dos núcleos Zinica e Tancredo.
Ana Maria realmente gosta de “experimentar” tudo e toda experiência que pode surgir de uma boa conversa, um dos princípios integradores mais importantes do Cidade Escola. Relacionar-se, trocar experiências e vivências, são outros princípios integradores do programa. E essa é a vida de Ana Maria em sua própria casa. “Tenho um grupo ‘piloto’, com meus filhos e amigos deles. Gosto muito de propostas diferentes de atividades culturais, como as do Cidade Escola. Na minha família, temos o ‘macarrão filosófico’. Todas as sextas-feiras, juntamos amigos, irmãos, vizinhos, todos em volta da mesa, e, enquanto comemos o macarrão, conversamos sobre diversos temas, viajamos pela infância, diversos tempos”.

Ana Maria e, principalmente, Stela, a coordenadora dos núcleos Tancredo Neves e Dona Zinica sabem que há muito trabalho pela frente com o Cidade Escola. Os resultados alcançados em curto espaço de tempo com a tertúlia literária e as diversas atividades desenvolvidas nos dois núcleos do Cidade Escola alimentam essa certeza. Ainda mais depois do que Stela descobriu, após as primeiras leituras na tertúlia com uma das crianças. “Luizinho vai receber uma carta, onde as crianças recomendam a ele o livro Pequeno Príncipe. Escrevem que ele deve ler porque acharam o livro muito interessante. Por que aconteceu isso? Após a leitura e algumas interpretações, a Ana Maria perguntou a eles se haviam gostado do livro, e, se gostaram, se queriam indicá-lo a alguém. E cada um indicou uma pessoa. Um falou que seria a professora, o outro para outra pessoa, até que uma das crianças sugeriu: ‘vou indicar para o Luizinho, prefeito’. Quando ela perguntou a razão, a criança disse que queria agradecer a ele, porque se não existisse o Cidade Escola, ela não teria conhecido o Pequeno Príncipe”.


E aqui vai outro princípio fundamental do Cidade Escola: respeito, gratidão por tudo que Alfenas está vivenciando em seus diversos bairros.   


Agradecimentos a todos os integradores dos núcleos Dona Zinica e Tancredo Neves: 

Rodolfo (Karatê, Zinica), Edvaldo (futsal, Tancredo), Maria (cantinho do cuidado, Zinica), João Paulo (ginástica, Zinica e Tancredo), Marlene (culinária, Zinica), Nodimarques (dança de salão, Tancredo), Reinaldo (capoeira, Zinica), Lara (zumba, Zinica), Tânia (arte em EVA, Tancredo), Juliana (canto e violão, Zinica e Tancredo)...






















Um comentário:

  1. Nome complicado mas que traz em si esta linda atividade integradora de família e escola.

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