quinta-feira, 27 de abril de 2017

Cidade Escola: Pinheirinho é vida


Uma das maiores regiões de atuação do programa Cidade Escola leva o nome de um bairro superfamoso na cidade. Pinheirinho está no diminutivo, mas apesar da delicadeza do nome o preconceito existente pelo lugar é enorme.

A sede do Cidade Escola na região fica no CRAS Jardim Alvorada e as atividades se estendem por uma imensa área chegando aos bairros do Recreio, Jardim São Paulo, Santa Clara, Residencial Vale Verde, Novo Horizonte, além do próprio Pinheirinho. Portanto atende a várias comunidades, totalizando mais de 10 mil moradores. 

Tudo ali é grande: região, bairros, população, número de integradores (28), problemas e soluções. Sim, soluções, porque desde o início das atividades do Cidade Escola, há três meses, pelo menos 10% da população na região aderiu ao programa. São quase mil inscritos, até agora.

É fácil entender a razão de tanta procura. A região do Pinheirinho sofre com o descaso de antigas administrações com problemas sociais graves existentes por ali como exploração do trabalho infantil, negligência familiar, tabagismo, alcoolismo, drogas, mas, sobretudo, com a falta de opções de lazer e convivência. Essas informações não são “achismos”, foram detectadas a partir de dados oficiais. “Aqui, no CRAS Alvorada tem o antigo Serviço de Convivência e fortalecimento de vínculos, que estava completamente parado, e agora se juntou ao Cidade Escola. Elaine é a orientadora social deste programa. O serviço de convivência tem um sistema online em que a gente insere o público prioritário. E foi assim que encontramos todas essas demandas”, explica o coordenador do Cidade Escola na região, Rolién Cirilo.

Mas nem tudo são só problemas, garante Rolién. “O que está acontecendo de especial, na região, é a adesão da comunidade. Antes, não havia nenhuma atividade. Agora, o que divulgamos, sentimos que é muito bem recebido pela comunidade”.

Não é para menos. São vários locais recebendo inúmeras atividades, para todas as faixas etárias. 

No CRAS Alvorada, acontecem atividades de zumba, karatê, capoeira, futebol (masculino e feminino), ginástica funcional para terceira idade, horta comunitária, artesanato (feltro, crochê, ponto cruz, pintura em tecido, corte e costura) e percussão.





Na quadra do Pinheirinho tem futebol e vôlei (masculino e feminino), além da ginástica para terceira idade. Para as crianças das CEMEI, Jardim São Paulo, Leco e Santa Clara, aulas de psicomotricidade.

Em parceria com o Cáritas, acontecem atividades de dança, futebol, zumba, artesanato e reforço escolar. Na escola Teresa Paulino, artes (pintura, desenho técnico), reforço escolar, karatê, artes marciais, violão, teatro, zumba.

No Jardim das Alterosas tem dança e, uma vez por mês, o projeto "Cinema no bairro", em parceria com a empresa Urbis.





Aula de nutrição, com massinhas.
Entre tantas opções, o coordenador Rolién cita uma em especial, que não aparece nessa imensa lista. “Temos aulas de saúde, com a Elizabete Cicone, para grupos de gestantes e adolescentes, além de adultos e idosos. Ela é pedagoga, dentista e fez mestrado recentemente na área de educação sexual. Está trabalhando a sexualidade com os adolescentes e crianças (e também com todas as gestantes). Começamos com duas e já são mais de 15 participando dos encontros. Temos um índice elevado de gravidez na adolescência, em toda a região. Com as crianças, ela também trabalha o tema nutrição, de maneira lúdica, com massinhas”.



"Troca Saudável", 3 toneladas de lixo recolhidos.
E os ares pela região do Pinheirinho estão realmente mudando. A participação e envolvimento da comunidade são impressionantes. “Tivemos a ação ‘Troca Saudável’, e com a divulgação, arrecadamos três toneladas de material de lixo. Fizemos outra ação, com a horta comunitária, e após a divulgação, apareceram 30 pessoas para trabalhar, só que no espaço não cabiam todos de uma vez. Tivemos de fazer por turmas. E mais recentemente, no evento da Páscoa, organizado todos os anos pelo CRAS Alvorada, eram de 60 a 70 crianças por turno, manhã e tarde, agora, com o Cidade Escola, chegamos a mais de 200 participantes”.


Rolién Cirilo
Não é (e será) fácil o trabalho de coordenação de uma região tão ampla. Rolién Cirilo sabe disso, ainda mais para ele, que pela primeira vez assume o desafio de coordenar um grupo tão grande de pessoas dentro do Cidade Escola. 

Apesar da formação em Química, a educação é sua paixão, mas aquela, fora dos muros. “Na área social a gente se sente mais completo. Sou apaixonado por educação, não a educação formal da sala de aula, do olho na nuca. O aspecto social é muito mais legal. Podemos voltar para casa com uma história bonita para contar”.

E para viver e conhecer de perto a realidade de toda a região, Rolién passou a morar por ali há alguns meses. 

E tudo que sempre ouviu falar de negativo, especialmente sobre o bairro Pinheirinho, está ficando para trás, como uma história do passado.

Só mesmo conhecendo as memórias da formação do Pinheirinho para entender o que de fato aconteceu para gerar tanto preconceito. Os mais antigos no bairro sabem que, de fato, existe um marco divisório na comunidade. “Tinha o Pinheirinho velho, por volta de 1980 e ficava para baixo da escola e da igreja. Para cá, o Pinheirinho novo. Começou não muito pequeno, umas 150 casas. A Cohab veio e fez as casas. Quem era a população alvo aqui? A Ipanema e a Monte Alegre (fazendas de café) traziam os peões para trabalhar. Onde os colocavam? Na Cohab. O camarada chegava aqui, sozinho, não tinha família, amor, qualquer vínculo familiar. Foi assim que um começou a matar o outro. O estigma de bairro violento começou assim”, relembra Marco Antônio, pedagogo e morador antigo do bairro.


Professor Marco Antonio Leal
Mas não foram apenas a falta de convívio e de relações sociais que deixaram o Pinheirinho com a fama de bairro violento. “Era a época do breakdance, a turma das gangues. Quando o pessoal do centro da cidade vinha para cá, era briga direto. Eles juntavam para dançar, mas gostavam de brigar, dar porrada. Era tipo gangue dos Estados Unidos, que era o ‘modelo’ da época. 

Era um território dominado, os caras eram amigos mesmo, mas se um desconhecido olhasse torto, a porrada comia solta. Eles saiam para disputar concursos de dança em discotecas da região, Machado, Paraguaçu. Eram bons de briga, mas dançavam muito, ganharam vários concursos”, recorda Marco Antônio.



Com o surgimento do Pinheirinho “novo”, chegaram mais famílias. As fazendas Ipanema e Monte Alegre construíram seus alojamentos. Muitos enraizaram, mas muitos também não se adaptaram e foram embora. “Quando construíram o campo de futebol, a escola e a igreja, a coisa começou a melhorar, a comunidade passou a ter identidade e o Pinheirinho ficou mais povoado. Hoje, é um dos bairros mais populosos de Alfenas, muito por conta dos puxadinhos que cada família foi fazendo em suas casas. O filho casava, a mãe fazia um puxadinho para ele, porque a família não tinha dinheiro para construir outra casa”.


Rádio Pinheirinho
O que acabou aproximando de vez a comunidade do Pinheirinho e região foi a construção da rádio comunitária, conhecida como Rádio Pinheirinho. “Padre Arnoldo, junto com a comunidade, tinha o sonho de ter uma rádio comunitária. Começou bem clandestina. Fazia programação da pastoral da criança. Depois de tudo legalizado, no bairro e na região, só se ouve essa rádio. Quer mandar um recado, sobre qualquer campanha, vacinação, o que for? Todo mundo ouve. 

O legal é que todos que trabalham lá não são profissionais de rádio, tem que ter um dom. A rádio é uma ‘cópia’ das comunitárias das favelas. Começamos assim, com alto-falantes na praça. 

Na feira de domingo, por exemplo, tínhamos alto-falantes espalhados por lá. Também passamos a transmitir a missa da igreja São Pedro, aí a cidade inteira começou a ouvir a Pinheirinho. Tenho certeza que é a rádio de maior audiência da cidade”, garante Marco Antônio.






E para desmistificar de vez a “fama” do bairro, surgiu há seis anos a tradicional feira do Pinheirinho, iniciativa de Sidnei Rosa e Marcos Inácio, o Marquinhos. “A feira foi criada na época do Luizinho prefeito, em 2012. Muitos pais não tinham condições de levar as crianças na feira do centro, aos domingos. E aqueles que iam, não tinham condições de comprar quase nada, uma verdura, um tomate. Foi aí que veio a ideia de fazer a feira no Pinheirinho. O dinheiro que eles gastariam para ir até lá, de condução, já daria para comprar um pé de alface, um repolho”, relembra Sidnei.



E a ideia deu certo. Hoje, a feira acabou promovendo o entrelaçamento de gente de vários bairros da cidade e não somente um ponto de encontro para aqueles que moram no Pinheirinho. São mais de 50 barracas, vendendo de tudo um pouco, como frutas, verduras, roupas, flores, artesanato, comida, bijuterias. Mas Sidnei sabe o quanto foi difícil chegar a este ponto. “Tem feirantes de várias cidades, como Pouso Alegre, Paraguaçu, Fama. A ideia seria trabalhar com todos os feirantes daqui, de Alfenas, mas não foi possível. A maioria tinha medo do bairro. A gente dizia para não terem medo, que não tinha perigo nenhum e ‘vocês vão se dar bem’. Nem um vendedor de sacolinha queria vir aqui para a feira. Agora, já são vários”.


E Sidnei Rosa foi além. Para aproveitar o imenso espaço da praça do Pinheirinho, em que a feira acontece, veio outra ideia. “Começamos a fazer eventos na praça, com um aparelho de som. Trazíamos duplas caipiras, como Índio Cachoeira e outros. Tudo bem simples. Pegávamos umas cadeiras e a turma em volta ouvindo. Mas funcionava. A gente falava das coisas do bairro, dos comércios, da farmácia, da padaria. E aí os comerciantes maiores começaram a formar negócios na própria praça, como o restaurante, pastelaria, pizzaria, bares. Antes eram poucos”.



Simples, assim. Convivência, integração, lazer, pertencimento, atividades que aproximam as pessoas de uma comunidade. Princípios básicos de qualquer sociedade e que o Cidade Escola está promovendo. Então, nada melhor do que promover uma grande festa, na Praça do Pinheirinho, na praça da feira, na praça das quadras de esporte, da igreja, da escola, da comunidade.

No dia 11 de março, um sábado, o Cidade Escola promoveu um dia inteiro de festa, na Praça do Pinheirinho. Mas no Pinheirinho? Como assim? Foi o que muitos disseram e questionaram. Mas lá? E assim aconteceu.


Mais de 10 mil pessoas participaram dos eventos. 

A festa começou às oito da manhã, com música popular e foi até a madrugada, sem nenhuma ocorrência grave ou tumulto, como muitos acreditavam. 

A comunidade interagiu com oficinas do Cidade Escola e acompanhou as apresentações das crianças do Projeto Redescobrir, além dos shows de Saulo Laranjeira, Índio Cachoeira e Banda Café com Cajuína.





No muro que cerca a quadra de esportes, na Praça do Pinheirinho, jovens das oficinas de grafite do Cidade Escola, deixaram gravado para sempre a palavra chave para que o Pinheirinho ou qualquer comunidade de Alfenas consiga resolver seus problemas: coletividade.

























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