quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cidade Escola: Barranco Alto, um núcleo especial

Entre os vários núcleos existentes no programa Cidade Escola, um é para lá de especial. Tudo por conta de sua localização geográfica e pela riqueza histórica desta pequena comunidade.

Barranco Alto é um distrito de Alfenas e fica a 45 quilômetros de distância do centro da cidade, numa viagem que envolve a travessia de balsa e mais 30 quilômetros de estradas de terra. Também é acessível pela rodovia BR 491, a partir da cidade de Alterosa, só que por ali, o total de quilômetros sobe para 75.

Mas como um lugar tão distante assim pode pertencer a Alfenas? É uma longa história, e as águas de Furnas explicam o quase isolamento dessa comunidade.

A viagem rumo ao núcleo do Cidade Escola em Barranco Alto começou no dia 31 de março, uma sexta-feira, de céu completamente azul e águas mansas da represa de Furnas. A travessia da balsa, localizada no bairro Harmonia, até às margens da estrada rural que leva ao Barranco Alto, é tranquila, feita em menos de meia hora. Na sequência, mais 30 quilômetros de estrada de terra com paisagens incríveis. Uma hora e dez minutos após a saída do centro de Alfenas, avista-se a comunidade.

 A chegada ao Barranco Alto é encantadora, quase um cenário de novela, com casas antigas, tudo muito conservado e limpo. Mas não era bem assim, pelo menos, até cinco anos atrás, quando aconteceu a chegada do asfalto. Tudo ali era terra. E água, sim, as águas da represa de Furnas que mudaram a vida de muita gente.

 As ruas ficam assim mesmo, completamente vazias, um silêncio total, durante toda manhã e até o fim de tarde. Quase todos estão trabalhando, nas roças e fazendas existentes por ali. Movimento, no início da manhã, só mesmo na Escola Municipal Abrão Adolpho Engel, a única existente por ali, e também a sede do núcleo do Cidade Escola no Barranco Alto.

Mara Cristina, ou melhor, Cris, como é conhecida na comunidade, é a responsável pelo núcleo do Cidade Escola. Há seis anos ela é professora na escola que, atualmente, tem 120 alunos (mas chegou a ter 280) do ensino infantil (pré-primário) até o 9º ano do ensino fundamental. À noite, funcionam três salas emprestadas à Escola Judith Viana, de Alfenas, para os alunos do ensino médio.

Cris (3ª da esquerda para a direita) e os integradores culturais:
Dayane (horta), Erika Reis (artesanato), João Luiz (fanfarra),
Eder Domingues (futebol), Alex dos Reis (violão),
Dolores Mendes (esportes) e Vera Silva (informática e biblioteca
).
Cris mora a seis quilômetros de distância do Barranco Alto, em um sítio, na Serrinha, um dos vários pequenos bairros dos arredores como Coruja, Pinhal e São José. Aos 39 anos, não se arrepende de ter trocado a vida mais agitada em Alterosa, para viver com os dois filhos e o marido na região do Barranco Alto. Passa o dia inteiro com os sete integradores culturais do Cidade Escola aproximando a comunidade das atividades de capoeira, fanfarra, artesanato, violão, esportes, jogos pedagógicos, futebol, contação de histórias, informática, biblioteca e horta comunitária.

Nada disso existia antes, no Barranco Alto, um lugar que ficou esquecido por muitos anos por antigas administrações. Crianças, jovens e adultos não tinham absolutamente nada para fazer, fora do horário escolar ou profissional. Com poucos meses de atividades do Cidade Escola este cenário começa a mudar. “Quase todos os alunos da escola aderiram ao Cidade Escola. As senhoras da cidade participam das aulas de artesanato e violão. Tem gente até do meu bairro, a Serrinha, que faz aulas de violão, aos sábados. À noite, o bairro não tem nenhuma atividade. Tudo triste, bem complicado. Agitação por aqui, só no dia da festa do santo padroeiro, São João Batista. Poucos vão para o centro de Alfenas, tem crianças que nem conhecem a cidade”, garante Cris.

Até agora, já são quase 80 inscritos no Cidade Escola, um número que parece pequeno, mas para um lugar que não passa dos 500 moradores, é uma enorme conquista. “Integradores e professores convidam mulheres para participar das atividades do Cidade Escola, mas muitas ainda dizem não, alegando cansaço, depois da rotina de trabalho duro nas roças”, afirma Cris.

A coordenadora do Cidade Escola não se arrepende de ter aceitado há alguns anos a sugestão das professoras mais antigas da escola, Nivalda Alves de Lima Franco (atual supervisora) e Selma Prado, para que estudasse e virasse professora.

Selma é personagem especial na vida do Barranco Alto. Ela foi a responsável pela chegada da escola na comunidade no ano de 1992. Antes, havia apenas uma sala multiseriada, no Barranco Alto, e outras, nos pequenos bairros dos arredores. O relacionamento próximo com o político Abrão Adolfo Engel fez tudo mudar.

Apesar de a comunidade viver distante e quase isolada de centros mais estruturados, a escola tem qualidade no ensino, fato que deixa a professora e, várias vezes, diretora, Selma, ainda mais orgulhosa. “Temos um aluno que foi para os Estados Unidos, cientista. Temos um medalha de ouro na Olimpíada de Matemática. Temos também um aluno que fez mestrado e doutorado no México. Todos, nascidos e criados aqui. Antes da construção da escola, em 1992, era assim, acabou o quarto ano, se vire, vá para a enxada. Havia alunos que chegavam aqui, na escola, sem saber ler e escrever, sem saber o que é um lápis, caderno. Não tinham noção de nada”.

Selma tem que se orgulhar de verdade, porque viu de perto muitos anos de sofrimento, dela e de toda a comunidade do Barranco Alto. E tudo por conta das encantadoras águas da represa de Furnas. O que hoje é razão de contemplação, no início dos anos 1960, foi causa da morte e desespero de muitas pessoas.

Aos 65 anos, Selma, filha de uma tradicional família alfenense (Moura Leite), não se arrepende de ter ido morar em uma fazenda próxima ao Barranco Alto. Casou-se aos 20 anos, teve dois filhos, e viu de perto o sofrimento e a agonia do povo do Barranco Alto. “Saí da praça, Largo da Matriz, centro de Alfenas, e quando cheguei por aqui, não tinha luz, não tinha nada. Furnas tinha chegado em 1961 e eu cheguei dez anos depois. Peguei um período da comunidade muito triste, muito pobre, muita dificuldade. O pessoal que morava aqui, e tinha condições, foi embora. A água foi chegando, teve gente que ficou chocada. Não acreditavam que águas de Furnas fossem um dia chegar e alagar parte da comunidade, que a represa fosse encher. Meu sogro mesmo perdeu mais de 117 alqueires de terra para a represa. Criou uma cicatriz muito forte nas pessoas”.

E pensar que um dia, Barranco Alto foi uma comunidade próspera, e que chegou a ter mais de 2 mil pessoas morando por lá. Com a chegada da represa, a maior parte das casas da comunidade ficou submersa nas águas de Furnas. E aí sim, os problemas começaram. “A comunidade era próspera. Estava onde são as margens da represa atual. Tinha o vapor (barco de transporte), que trazia produtos de Fama e região. Tinha laticínio, banco, farmácia, vários comércios. Mas quando cheguei, não tinha mais nada disso.



Vapor que fazia o transporte de
passageiros e cargas no Barranco Alto.
A economia deles era baseada na agricultura de vargens (sem precisar usar adubo, fertilizante, nada), e a pesca. O rio tinha muito peixe. A maior parte da sobrevivência era (e é ainda) da agricultura. Plantava-se muito arroz, milho. Com a chegada das águas cobrindo as vargens existentes com as plantações de arroz, tiveram que mudar os locais, mas quem tinha condições de plantar com irrigação? A agricultura teve que subir para os morros. Quem teve condições de comprar equipamentos de irrigação, passou a cultivar milho, batata, café, mas foram poucos”.

Mas o problema mais grave ainda estava por surgir. “Com as águas de Furnas cobrindo onde estava instalada a comunidade, a água ficava com uma espécie de nata por cima, fervilhando, cheiro ruim, forte. Misturou fossa com cisterna. O problema era os moradores continuarem a tirar água das cisternas, que estavam mais contaminadas do que as águas de Furnas. Houve mortalidade grande de crianças, desidratação, diarreia, febre. Porque o pessoal ficava completamente isolado, aqui. Não tinha nada. Não tinha luz, carro, estrada. Para eu poder ir à cidade, ia de cavalo até um trecho, no alto da serra. Meu sogro vinha me buscar de jipe, atravessava a água, de barco”.

Mané e seu mercadinho
A vida no Barranco Alto nunca foi fácil para ninguém. Que o diga o homem mais conhecido por lá. Quer conhecer o Barranco? Se não falar com o Mané do Mercadinho, não vai saber de quase nada. Ele é uma espécie de “síndico” do lugar. Hoje, cuida da agência do correio local e administra o mercadinho familiar. Conhece morador por morador. E lá se foram 44 anos de Barranco Alto, seu tempo de vida. Filho de seu Benedito Jonas de Ávila e Ernestina Gonçalves de Ávila, Mané sabe bem o sofrimento que era viver por essas terras. Mas também soube, pelos pais, que a vida por ali um dia foi próspera. “O pai sofria muito aqui, porque antes não tinha nada. Ele morava há uns 10 quilômetros daqui. Vinha a pé para ir na missa. Ele e meus avós vinham e voltavam a pé. Antes da represa, o Barranco Alto era bem movimentado, o povo de toda essa região em volta vinha para cá. Tinha banco, 18 comércios, açougue, padaria, pequenos comércios, dentista, a farmácia do Serafim. Se você tivesse um caminhão de boi para vender, na época, não precisava nem perguntar, bastava vir para cá porque aqui teria um comprador. Ou um caminhão de arroz em casca, poucos iam a Alfenas, bastava vir aqui”.

Mané relembra o passado de descaso com o Barranco Alto, mas prefere recordar também das conquistas dos últimos anos. “Sou funcionário público há 26 anos, já passei por várias administrações, e o que acontece aqui é o descaso. Até o prefeito Luizinho trazer o asfalto há 5 anos, era só terra, buraco mesmo. Trabalhei com o serviço de arrumar ruas. Não vencia. Colocava 10 caminhões de cascalho, e, em 10 minutos de chuva, acabava tudo, descia tudo para a represa. Aqui sempre foi um ponto de parada. Tinha a balsa, que atravessava o rio num cabo de aço, antes da represa chegar. Tínhamos comunicação com Carmo do Rio Claro, Alfenas, Alterosa. Porque havia um ônibus de Alfenas até Carmo do Rio Claro. Hoje, temos um ônibus que leva só até Alfenas. Mas temos o carro da saúde, que leva os pacientes, temos um carro no plantão médico, para o caso de alguém passar mal. Temos também dois médicos, que, antigamente, não tinha nada, mas nada mesmo. Muitos fazendeiros, na época da represa, queriam que acabassem com o Barranco Alto”.

Mas o Barranco Alto nunca acabará, pelo menos no que depender do Mané do Mercadinho. “A represa foi uma desgraça. Meu avô era rico, ficou pobre da noite para o dia. Hoje, são no máximo 500 pessoas vivendo no Barranco. São mais de 150 casas de turistas, fechadas. Os turistas vieram com o seu Bruno, que já morreu. Djalma Vilela, o Djalma Sapateiro, foi o primeiro a trazer os turistas. Vinham do interior paulista, Valinhos, se encantavam, compravam uma casa e só usavam para feriados e fim de semana. Apesar de todos os problemas, nunca vou desistir do Barranco Alto”.




Dona Valentina
Nem o Mané, nem a Selma, a Cris e algumas moradoras das mais antigas do lugar, como Dona Maria e dona Valentina deixarão um dia o Barranco Alto. 

Dona Maria e sua filha









As duas já tem várias décadas de vida no lugar. Criaram filhos, netos, bisnetos, todos ali, um canto quase esquecido para muitos.


Entre todos a expectativa é uma só com a chegada do Cidade Escola por lá: esperança e perspectiva de vida, especialmente para os jovens da comunidade. É que no Barranco Alto existe algo assustador para qualquer pai ou mãe de uma família: todos sabem que os filhos terão de ir embora, ao terminar os estudos do ensino médio, para tentar novos caminhos. “Antigamente, os jovens pensavam em sair logo daqui. Hoje, na aula que estava dando para a turma do 9º ano, estava chamando os alunos à responsabilidade. 

Porque até esta fase, estamos aqui, como família, pai, mãe, orientando. A partir do ensino médio, eles vão ter que decidir o que querem da vida, no futuro, para caminharem com as próprias pernas. Criar algo para a comunidade ou sair, ir embora. Perguntei a eles: ‘quem vai continuar estudando?’. Existem faculdades a distância (EAD) e disse a eles: ‘quem faz o aluno não é a escola. É o aluno que vai atrás. Eles não têm o hábito de estudar. Digo a eles para se qualificarem, melhorar a qualidade da educação”, diz a professora Selma.

E é neste ponto que Selma tem esperança na formação e experiência que as crianças e jovens estão tendo, a partir de agora, com o projeto. “O Cidade Escola está socializando, integrando. É uma luz no fim do túnel para haver uma transformação, uma geração com outras expectativas de vida”.



























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