segunda-feira, 13 de março de 2017

Cidade Escola: Residencial Alfenas, lugar de gente feliz


Ela se chama Rosemar Cristiane Rosa, ou melhor, Rose Cris. Melhor ainda, para a criançada que mora no Residencial Alfenas ela é a “tia Rose”. Ao falar do lugar em que Rose vive pelo nome do Conjunto Habitacional talvez ninguém saiba identificar o bairro, mas se disser, no “Predinho”, com certeza, moradores do Jardim São Carlos e gente de outros bairros, logo farão a associação.

Pena que esta associação ainda seja tão discriminatória. Rose mora no conjunto habitacional desde que foi entregue às famílias há quatro anos. Vive com o marido e duas filhas. Com o passar do tempo, tornou-se uma espécie de síndica não oficial do lugar. É funcionária pública, Auxiliar de Desenvolvimento Humano (ADH), na CEMEI Beija-Flor, mas em breve será professora, pois está concluindo o curso de Pedagogia.

Rose gosta de gente, do trabalho social. A vocação nata para ajudar a quem precisa levou-a naturalmente a fazer parte do programa Cidade Escola. É a coordenadora do projeto no condomínio e região, afinal, um dos pilares do Cidade Escola é exatamente este: sair dos intramuros e ganhar as ruas da cidade. Gente conhecendo gente. Gente, aprendendo, ensinando e convivendo.

E o Residencial Alfenas é o lugar perfeito para que o Cidade Escola revele todo o seu potencial de integração entre as pessoas. Rose sabia disso e não pensou duas vezes em aceitar o desafio de coordenar as atividades do Cidade Escola no local. 


Roda de conversa com os jovens do Conjunto, organizada por Rose.

Não será tão complicado assim “administrar” a vida de quase 3 mil moradores espalhados nos quase 500 apartamentos dentro do projeto, afinal, já faz isso desde que se mudou para lá: “O pessoal chega em casa e pede ajuda pra tudo, e eu tento ajudar do jeito que posso. Dia desses fizemos uma campanha, de porta em porta, pedindo para quem pudesse ajudar uma das nossas famílias, com saco de arroz, qualquer coisa. Conseguimos entregar a eles duas cestas básicas”.

E assim, na solidariedade para tudo e com todos, Rose ganhou a confiança da comunidade. No sábado, dia 11 de fevereiro, aconteceu o primeiro evento organizado pelo Cidade Escola no Residencial Alfenas, o popular “Predinho Jardim São Carlos”. 

Um evento multicultural, mas com foco principal na cultura hip-hop, que, literalmente, fascina os jovens do lugar. Ou seja, outro pilar do Cidade Escola mostrando sua cara: fazer o que se quer fazer, quando quiser, com o que lhe traz prazer.

Foram os próprios moradores, com o trabalho de articulação de Rose, que escolheram as atividades da festa inaugural batizada de “Hip-Hop na Comunidade”. 

Mas não teve só Hip-Hop, durante quase todo o dia ocorreram “batalhas de MC’s”, apresentações de dança breaking, interpretação teatral com a artista Jéssica Lenine, do MC Pellegrini, além dos grupos Resistente Manifesto, Coliseu Crew, Street Art Duas Faces e DMC MC’s.

Para chegar a este menu de atividades, Rose teve de se aproximar dos jovens da comunidade: “De dia ou de noite, formamos grupos de conversas com a molecada. Se estou no meu apartamento e vejo um grupo deles conversando, eu desço e me enturmo com eles. Muitos deles, no começo, com o hip-hop, só rimavam palavrão, xingando um a mãe do outro, falando de drogas, só coisa ruim. Então, sentei com um deles e conversei, expliquei que hip-hop não é só isso, é cultura também, que poderíamos fazer o hip-hop da paz, da comunidade, com as coisas boas”.

E foi assim que surgiu o evento inaugural do programa Cidade Escola no Predinho São Carlos. E o ponto alto das apresentações, uma pequena encenação teatral, feita pelos jovens da comunidade, reflete o tema deste artigo. “Somos todos iguais” é o título dado pelos jovens à peça feita e preparada em apenas uma semana. 

Pela inexperiência com o teatro, decidiram criar frases e palavras curtas impressas em papel. No palco armado, um grupo de jovens, apenas no gestual de seus corpos e com o cartaz representando o que queriam dizer, deixou a mensagem para os participantes do evento. Um mosaico de reflexões sobre tudo que vivem, mas especialmente, contra a discriminação que sofrem dia a dia, desde que se mudaram para o “Predinho São Carlos”.

Rose não tem dúvida de afirmar que todos ali são discriminados e revela uma história inadmissível: “Eles se sentem muito, mas muito discriminados. Um exemplo é o das várias pessoas que estavam procurando por algum emprego. Elas colocavam o endereço do Conjunto e não conseguiam a vaga no trabalho. Bastou mudarem o endereço, colocando o de familiares que moravam em outros bairros e logo conseguiram a vaga. Foram muitos casos assim”.

Só mesmo os que ali vivem, sabem como a palavra preconceito é forte, apesar de saberem que a “fama” negativa do lugar foi gerada por alguns poucos moradores: “Aqui é tudo tranquilo. O povo de fora tem muito preconceito. Moro aqui dentro, convivo com eles. Droga existe em todos os bairros. Sempre quando alguém rouba na cidade, dizem: ‘é o povo do Predinho’”, afirma Rose.

Outro depoimento sobre a discriminação é o de um jovem da comunidade, morador nas ruas do entorno do “Predinho”. Gabriel Pellegrini ajudou a introduzir a cultura hip-hop na comunidade. 



Gabriel Pellegrini

Tem apenas 16 anos e mesmo antes do condomínio ser construído já atuava pelas ruas do bairro com os amigos da região praticando o rap, a dança breaking: “Eu amo dançar. Disputei um campeonato aos 8 anos só que aí, me envolvi com drogas. Me afastei da igreja, foi quando conheci o rap, onde eu conseguia me expressar, desabafar. E treinava muito. Não tinha tempo pra pensar em bobeiras. Fui treinando e tô aqui até hoje, um eterno aprendiz”.

E no evento inaugural, Pellegrini foi um dos protagonistas da apresentação teatral. Com a ajuda dos amigos e da coordenadora Rose, fez um texto que emocionou a todos. O preconceito e a discriminação entre classes está presente de maneira muito forte em seu discurso: “Somos todos iguais, não importa raça, cor condições sociais... Somos todos iguais, nascemos, vivemos e morremos... Somos todos iguais porque amamos e queremos ser amados... Não adianta querermos ser nem mais nem menos do que os outros... Embora viva num mundo onde o rico é mais privilegiado...aquilo que o homem semear nesta vida, é aquilo que ele deverá colher... Para Deus não existe ninguém melhor ou pior. ‘Ele’ não faz acepção de pessoas...”

Rose acredita que o Cidade Escola chegou na hora certa para todos os moradores do Predinho São Carlos e toda a região: “Eles não tinham mobilização para quase nada. Eles precisam disso”.

Rose chegou a pensar em deixar o lugar, já que seu apartamento se tornou pequeno para a família. Mas não conseguiu. Os moradores pediram para que ficasse lutando junto com eles por um sonho. E ela aceitou o desafio: “Aqui é praticamente um bairro, muita gente. O Cidade Escola é como uma esperança pra gente, aqui dentro. Mais estrutura, trazer o povo de fora para dentro, e o daqui de dentro, para fora, nas ruas e lugares da cidade”.

Rose entendeu a “alma” do Cidade Escola.


Rose e equipes da prefeitura vistoriando os prédios para reformas.

Poucos dias após o evento inaugural, Rose e toda a comunidade que mora no Residencial Alfenas ficaram ainda mais felizes. 

Ela recebeu a visita de arquitetos, engenheiros e o pessoal da Secretaria de Obras para iniciar melhorias em todo o conjunto habitacional. Também recebeu materiais esportivos para as atividades desenvolvidas no Cidade Escola. 


                                 Prefeitura nos Bairros: Luizinho, no Predinho Jd São Carlos

E mais do que isso, no dia 7 de março, o prefeito Luizinho escolheu o Residencial Alfenas Jardim São Carlos para cumprir mais um dia do programa Prefeitura nos Bairros, dia em que ele despacha, ouvindo diretamente a população e recebendo secretários de governo. Outra boa notícia foi dada pelo prefeito neste dia para a população e também para o futuro do projeto Cidade Escola: “Recebemos o Superintendente de Educação do Estado, Prof. Erivélton Ramos. Entre os assuntos, assumimos compromisso com a criação do Cidade Escola Técnica, que são cursos para alunos do Ensino Médio. Vamos criar mais oportunidades de aprendizado e formação técnica para os jovens”.

Rose recebendo material de trabalho dos coordenadores do Cidade Escola.
Rose e os moradores do Residencial tem razões de sobra para acreditar em dias melhores no lugar em que escolheram para viver. 


O Cidade Escola faz parte deste sonho que está se transformando em realidade.





Fotos: Sergio Andrigo
















Um comentário:

  1. Quando ainda estava na Direção da Escola Estadual Dr Emílio Silveira,o então Prefeito Luizinho,numa tarde qualquer me procurou e disse:Beth, preciso abrir o Curso Normal Noturno pois tenho ADHs que não possuem este curso e elas precisam se garantir na função.Tenho uma listagem,posso contar com você?"Imediatamente comuniquei com Vander da SRE e fizemos a proposta que foi aceita,o curso aprovado e acontece ainda hoje na escola.Quando o Luizinho me enviou a listagem um dos nomes era de Rose Cris,que hoje é habilitada com Curso Normal.Foi excelente aluna,sempre presente e prestativa.Este é mais um pedacinho da história desta encantadora mulher.

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