quarta-feira, 15 de março de 2017

Cidade Escola: Uma Casa Aquarela na Chapada


Olhando por fora parece ser mais uma das casas simples que compõem o cenário do bairro da Chapada. Mas não é. Basta entrar e as cores fortes, espalhadas pelas paredes internas, revelam a origem de seu nome de batismo: Casa Aquarela.

É ali que o programa Cidade Escola encontrou mais um parceiro para trabalhar seus conceitos e desenvolver suas atividades para a comunidade.

Uma história curta de vida, mas que precisa ter suas origens explicadas para que se entenda melhor as diferentes atividades que são desenvolvidas ali pelo Cidade Escola.

Tudo começou há quase três anos, quando dois produtores socioculturais, Romulo Spuri e Henrique (professor de capoeira e grafite), além de outros amigos, decidiram criar um evento na cidade, batizado de Coliseu Cultural. “Surgiu no começo de 2015, como um evento, na Praça Dr Emílio da Silveira. Para a primeira edição, percebemos que havia um amigo que fazia rap ou ainda outro que escrevia poesia ou ‘beats’, que é o instrumental. O movimento rap e o hip-hop estavam crescendo na cena nacional, só que com o pessoal indo ‘beber’ só coisas de fora (exterior). Foi então que pensamos nesses encontros, na praça, para criar uma ‘cena’ local”, relembra Spuri.


Não foi nada fácil, mas deu certo. E já se foram oito edições do evento. Nas primeiras delas, pouca gente da cidade acreditou no movimento que começava a surgir: “Até a quarta edição do Coliseu, fiz tudo praticamente sozinho. Tinha uma equipe, mas que ajudava só no dia do evento. Mas o ‘corre’, para organizar, ir na prefeitura, agilizar tudo, patrocínio de comércio, implorar 30 reais para o evento, fazia tudo sozinho. Não tinha grana pra nada disso. Fui atrás e deu certo”, recorda Spuri, com sorriso no rosto.


Quando Romulo Spuri pensou o projeto Coliseu, não queria ver apenas eventos esporádicos acontecendo. Havia uma elaborada linha de produções que deveriam se atrelar uma a outra, gerando assim, um movimento, que acabou abraçado rapidamente por gente de todos os bairros da cidade: “Na segunda edição, comecei a abranger mais o projeto. Não seria só um evento na praça. Ele trabalharia também com oficinas e aulas socioculturais, além da produção cultural (registro). Tinha as aulas de rap, aula de breaking. Os alunos que aprendiam nessas aulas, quando fizessem uma música, teriam um evento periódico para se apresentarem. E para “registrar” isso, teria o Coliseu, para gravar essa música. Se era um poeta, a gente dava um jeito de viabilizar a gráfica para transformar a criação em um livro. Se fosse músico, um CD. Além do evento, tudo isso se transformou numa continuidade do Movimento”.

E o Movimento acabou chegando aos olhos e ouvidos do poder público. O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), da prefeitura, percebeu que as atividades normalmente aplicadas aos adolescentes (reciclagem, horta), que deveriam cumprir medidas socioeducativas, não traziam resultados positivos. 

Foi então que a cultura de rua, pregada pelo Coliseu Cultural, entrou em cena: “Eles nos perguntaram: ‘vocês conseguem dar umas oficinas, aqui?’. Respondemos no ato que sim. Era esse público que queríamos. 


Moldei os quatro modelos tradicionais do hip-hop. Montei onze aulas, todas as segundas. Primeira aula, apresentação geral, e, depois, cada elemento, um por dia. Os quatro elementos são: o MC rap, grafite, DJ e Breaking. KRS-One, militante americano, inspiração de muitos, colocou também o beatbox (com a boca), conhecimento de rua, que está intrínseco em todos os elementos e que era o que Mandela, Malcon X usavam, o conhecimento fora da faculdade, mostrar ao povo oprimido que eles têm poder, conhecer uma realidade; a moda de rua, criar uma vertente de camisetas e fazer um desenho seu, o style; a linguagem de rua, a gíria, riqueza muito grande do jeito de falar da rua; o empreendedorismo de rua, que é o que mais me encanta, por não depender dos ‘grandes’. O Emicida, por exemplo, que é referência do rap, vendeu 100 mil cópias de CDs, na mão, isso é empreendedorismo de rua. Ser autossustentável”.

E foi assim, nas aulas realizadas no Creas que Romulo acabou conhecendo seu amigo e parceiro Henrique: “Eu assistia às aulas dele de capoeira. E ele assistia às minhas aulas de hip-hop. Por sermos amigos, pensamos em arrumar um canto só para nós, não ficarmos só com as atividades de segunda-feira. 

Nesse momento, a doutora Fábia, advogada do Creas, ouviu sobre nosso interesse por um espaço fixo e nos propôs: ‘Tem uma casa da prefeitura que está parada, que só é utilizada como posto de castração de cachorros. 

As janelas estão quebradas, parece tudo abandonado, pinturas caindo’. Apesar disso tudo, era um lugar. Ficamos loucos. É para lá que queremos ir, na Chapada, onde tem o público que a gente quer”.

E conseguiram. Surgia assim a Casa Aquarela, como uma extensão do Coliseu Cultural. E desde o início do projeto Cidade Escola, um núcleo fundamental para o bairro da Chapada. 

A experiência de Romulo Spuri, como biólogo e mestre em Ciências Ambientais, acabou influenciando as diversas atividades do Cidade Escola e que já atrai muitos moradores da região, jovens e adultos.

Você sabe o que é permacultura? Romulo Spuri explica: “É a sustentabilidade, barata, vamos dizer assim. Quer captar água da chuva? A gente ensina, como captar com balde, para utilizar para regar planta, para lavar, combater o desperdício. A sustentabilidade não é só ambiental, é também social e financeira, porque o cidadão gasta menos com as coisas”, ensina Spuri.

E as aplicações da permacultura urbana não vão ficar apenas nestes exemplos dentro do programa Cidade Escola, garante Spuri: “Vamos construir juntos com os participantes painéis solares com embalagens de leite, para economizar energia nas casas dos moradores da região. Outra atividade será a bioconstrução. Vamos construir fornos caseiros. Na Construai, custa 600 reais. Vamos usar terra, entulho e fazer um forno de pizza, só com barro, farelo de cimento e fibra de plantas. Também faremos uma horta e bancos de bioconstrução”.

Fica fácil entender, agora, o que é permacultura urbana? Não? Romulo Spuri, arremata: “A permacultura trabalha as zonas, regiões. Zona 1, nós mesmos, nossa casa. Zona 2, nossa rua. Zona 3, nosso bairro. Quanto mais conseguirmos pegar o recurso próximo, em zonas menores, mais seremos sustentáveis. 

A permacultura trabalha isso. Uma horta é permacultura, porque deixamos de consumir uma alface, que vem lá do Ceasa, de Belo Horizonte, de caminhão, soltando fumaça para ir e voltar, para consumir o que produzirmos na horta, de qualquer casa da cidade”.

Mesmo sem conhecer todas essas explicações, o interesse sobre a atividade foi grande. A primeira turma já está formada e trabalhando. Cada “morador/aluno”, vai às ruas, conversar com os moradores, perguntar a eles se estão gastando muita água, ou ainda, qual a necessidade deles. Só depois, começam a aplicar as técnicas de permacultura, nas casas da comunidade. Em seis meses, no primeiro módulo, os “moradores/alunos” já terão aprendido a captar água da chuva, feito um painel solar e uma área de lazer, além de um banquinho, numa área sombreada com teto verde, tipo um chalezinho.

1ª turma de breaking formada na
Casa Aquarela/Cidade Escola - Integrador João Marcos
Mas o núcleo da Casa Aquarela, na Chapada, tem muito mais atividades que vão revelar diversos conceitos enraizados no programa Cidade Escola. Uma simples “aula” de rap pode se transformar em conhecimento, como explica Romulo: “Rap é o ritmo e poesia. Eu e os integradores culturais, Biu e Thiago, estamos trabalhando essa questão da poesia. É um conhecimento de rua muito grande. Não vamos trabalhar só a parte de como fazer. Depois que você aprendeu a fazer, como vai fazer? Vamos ensinar que o rap tem o tempo 4 por 4, 16 linhas, refrão, 16 linhas. Vamos fazer também a batida de beatmaker. Mas também mostrar aos alunos que não é só chegar e fazer uma letra ‘nada a ver’. Não é só rimar, fazer bonitinho, mas não ter o que dizer. O que irão colocar nas letras? Vamos falar sobre Gandhi? Vamos falar sobre Mandela? Vamos trabalhar esses temas, expandir conhecimentos, para que tudo que os garotos escrevam, tenha conteúdo”.

E não é só isso. O núcleo do Cidade Escola, com a Casa Aquarela, na Chapada, tem muito mais atividades interessantes e integradoras: “Com a Yoga, vamos trabalhar a ‘saúde espiritual’ das pessoas. Arte e sustentabilidade, também é bem interessante, pois vamos utilizar somente coisas recicláveis. 

O integrador cultural, Vinicius, escreve livros, onde as folhas são feitas de filtros de papel. O texto é digitado em máquinas de escrever antigas. Depois, encadernadas. 

Fotografia é também muito bacana. O integrador cultural, Matheus, é fotógrafo. Ele não vai ‘ensinar’ os participantes das atividades a só como fazer fotos profissionais, mas estimular que eles comecem a clicar os seus olhares sobre a comunidade em que vivem”.

São muitas opções de atividades do Cidade Escola na Casa Aquarela. Tem também danças contemporâneas, Teatro dos Oprimidos, viola caipira, bordado e costura, arte e empreendedorismo, violão, educação ambiental de rua, horta em pequenos espaços, agricultura urbana e grafite. Tudo isso feito pela gestão coletiva (entre todos os colaboradores) da Casa Aquarela.  

Não é à toa que o saguão de entrada da Casa Aquarela vive cheia de jovens e adultos em busca das inscrições. Pela proximidade com a Escola Arlindo Silveira Filho, mãe e alunos, quando estão de volta para suas casas, acabam dando uma paradinha por ali para conhecer o projeto que toda a comunidade anda comentando.




Foi assim com os três amigos que passaram no exato momento em que esta reportagem era produzida. Olhavam a ficha de inscrição, questionavam o coordenador Romulo sobre cada item, e seguiam pedindo mais e mais atividades para fazer, até que um deles diz: “Nossa, estamos fazendo muita coisa”. E outro retruca: “Melhor do que não fazer nada”. Antes era assim: acordar cedo, ir para escola, voltar e ir para rua brincar de qualquer coisa. Nenhuma opção de atividade, integração, aprendizado e relações entre eles. 

Mas o coordenador Romulo está atento aos conceitos do Cidade Escola: “Não queremos que venham aqui, apenas preencher inscrições e depois desistirem das atividades. Queremos criar um vínculo. Veja esses três amigos que vieram juntos. Vão fazer quase todas as atividades e passarão a maior parte do dia, juntos, aqui dentro da Casa ou em atividades externas, nas ruas. Isso vai fazer as coisas serem mais duradouras. Agora, tudo é novidade, e novidade é paixão. E a continuidade disso?”.

Os três jovens não se cansam de fazer perguntas ao coordenador. E sua resposta, revela outra face importante do Cidade Escola junto à comunidade:
– Vamos ganhar diploma?, pergunta um deles.
– Sim, mas muito mais do que um diploma, vocês vão ganhar sabedoria.

No mesmo instante em que os três se inscreviam, chegaram algumas mães, de outros jovens. E a pergunta ao coordenador Romulo revela outra direção que o Cidade Escola permite aos moradores da cidade: a participação de todos, sem preconceitos, de idade ou credo. “É só para crianças ou adultos também podem participar?”. Romulo responde que é aberto, e a mãe responde feliz: “Nossa...que beleza hein...”.

O Cidade Escola está apenas começando, na Casa Aquarela, na Chapada, e em todos os bairros da cidade. Mas pelo que afirma o coordenador Romulo Spuri, é muito mais do que certeza de que o Cidade Escola está no caminho certo, para mudar realidades sociais, antes tão tristes: “Quando todos veem a variedade de opções, ficam loucos, querem fazer tudo. Para eles é uma ‘revolução’ que está acontecendo aqui no bairro, na cidade”.




















3 comentários:

  1. Histórias mais que emocionantes.Parabéns ao Rômulo Spuri e ao Henrique pela força, determinação e persistência e a todos os envolvidos no projeto.

    ResponderExcluir
  2. Parabéns. Muitas outras conquistas virão e milhares de vidas, sonhos, projetos serão resgatados e produzirão muitos frutos!

    ResponderExcluir
  3. Parabéns. Muitas outras conquistas virão e milhares de vidas, sonhos, projetos serão resgatados e produzirão muitos frutos!

    ResponderExcluir