quarta-feira, 29 de março de 2017

Cidade Escola: Promessa, novos tempos.

Sede do Cidade Escola, na Vila Promessa.
No que diz respeito às questões sociais, o abandono do poder público, em diversos bairros da cidade, acabou. Na região do Caic, mais especificamente, no bairro de Vila Promessa, o programa Cidade Escola conta com a experiência de um parceiro de peso nessa luta.

Decão e dona Mariô
Trata-se do Núcleo de Igualdade Racial, coordenado por Fabio Cruz, filho do senhor “Decão” e de dona Maria Olímpia, a “Mariô”, que há 32 anos lutam pela igualdade racial e social em Alfenas. 

“A experiência e o respeito adquiridos junto às comunidades dos bairros de Alfenas vão enriquecer ainda mais as atividades e os conceitos do Cidade Escola na região da Vila Promessa”, garante o coordenador do núcleo, Fabio Cruz.

 A casa bege, toda reformada, localizada na rua das Orquídeas n° 8, começa a ganhar nova vida, um novo espaço de convívio entre os moradores. Antes, na antiga administração, estava praticamente abandonada, servindo apenas para aulas de reforço escolar. Agora, terá atividades de capoeira, muaithai, taekondô, jiujtsu, percussão, artesanato, hip-hop, teatro, dança contemporânea, samba rock, xadrez, além de violão e esportes.

A escolha de Fabio Cruz para trabalhar na Vila Promessa não foi aleatória. A região é repleta de problemas sociais e desigualdades raciais. Apesar de quase todos o conhecerem nas comunidades pelo trabalho desenvolvido em várias comunidades da cidade, esse é um bairro que Fabio e os integradores culturais do Cidade Escola estão começando a conhecer. 

O trabalho de cada professor, agora, é ir, de porta em porta, pelas ruas do bairro apresentar-se, explicar o que é o projeto do Cidade Escola e convidá-los a participar: “Começamos com poucos jovens, mas serão esses que vão fazer propaganda para outros. Em 3 meses, serão 50, no mínimo. É diferente de um local que começa com 50 e vai caindo. Aqui será o contrário. Começaremos com 5 dizendo, ‘vamos jogar futebol hoje, Joãozinho?’. Ele responderá ao amigo: ‘hoje não vou porque vai ter muaithai, capoeira’. O amigo irá, com certeza, replicar, perguntando por que o amigo vai deixar de jogar futebol para fazer isso. E ele responderá: ‘vamos lá pra ver’”.

Aula de balé e postura corporal
Para Fabio, mais importante do que um número grande de inscritos neste primeiro momento, é enraizar os conceitos do programa nas pessoas que participarão das atividades, trabalhar para que não façam aulas só por fazer: “Primeiro, pedimos licença para a mãe. Em qualquer comunidade isso é o mais importante. A cidade inteira me conhece, por causa do movimento negro, e mesmo assim, a primeira coisa que eu fiz quando cheguei aqui, no dia 15 de janeiro, foi parar meu carro, subir a rua e ir até as casas das pessoas da comunidade. Cheguei e disse: ‘vou trabalhar ali, naquela casa, no Núcleo de Igualdade Racial. Vocês conhecem nosso trabalho, estou aqui pedindo a ajuda de vocês para olhar o local, porque vamos deixar computador, bola de futebol, instrumento musical, e ainda temos professoras, que são universitárias e vão chegar aqui andando sozinha, com celular. Falei tudo isso e eles disseram: ‘Pode dormir com a porta aberta, que ninguém vai entrar lá não’”.

Turma de hip-hop na primeira apresentação.
E assim, demonstrando confiança e respeito, o núcleo do Cidade Escola na Vila Promessa está começando suas atividades. Logo na primeira apresentação, pouco antes do Carnaval, a nova casa lotou. Fabio convidou meninos das comunidades da cidade, que não dançavam, não cantavam e nem faziam rap e hip-hop havia quase dez anos. Pelo menos quinze deles, “das antigas”, foram até lá. Crianças e jovens, que nunca haviam visto aquele tipo de dança, ficaram fascinadas, tanto que saíram para a rua e começaram a ensaiar movimentos semelhantes. De volta à sala de apresentação, os “profissionais” saíram de cena e convidaram os jovens da comunidade a praticar. Quando se viu, só os moradores estavam se movimentando. Vários conceitos do Cidade Escola acontecendo na prática. Olhar, gostar, querer aprender, sem forçar ninguém.

Mestre Buiu em sua aula inaugural no Núcleo Vila Promessa
Fábio Cruz está entusiasmado com o Núcleo de Igualdade Racial, dentro do Cidade Escola. Na mesma apresentação inicial, ele recebeu a visita de um parceiro de lutas dentro do núcleo, Mestre Buiu, que agora roda o mundo espalhando seus conhecimentos e estará por aqui, sempre que possível, envolvido no Cidade Escola.

A teoria do “fazer por fazer” as atividades, sem haver o enraizamento de todos os conceitos nos participantes, deixa Fabio Cruz ainda mais otimista sobre o futuro do Cidade Escola: “No dia do primeiro evento, vários pais participaram e aproveitamos para dizer a eles: ‘Entre todas essas crianças, pelo menos uma queremos que se torne um Gigante’”. 

Fernando, o "Gigante", integrador cultural
Fabio se refere ao professor e integrador cultural Fernando, apelidado de Gigante, 24 anos de idade, vinte deles dedicados à capoeira. E ele não se cansa de falar com orgulho da equipe de integradores que está formando na Vila Promessa, todos “criados” neste conceito de enraizamento de projeto: “O professor de hip-hop, por exemplo, poderia estar no tráfico há muito tempo. Ele só não foi porque está no hip-hop. Está com a gente há muitos anos, em trabalhos anteriores junto às comunidades da cidade. A Alessandra, dá aula de samba-rock, mas é cabeleireira. Era dentista, não quis mais ser dentista. Formou-se porque o pai queria. Quando se formou, entregou o diploma ao pai e disse que iria ser cabeleireira”.

Outro conceito do Cidade Escola aplicado. Fazer pelo prazer, não pela obrigação ou desejo de alguém. 

Logo após as primeiras semanas de atividades, Fábio fez uma experiência que, para algumas mães dos jovens parecia ser impossível acontecer.  

Falou com elas e disse que iria reunir jovens e crianças que mais trabalho davam em suas casas. Em um dia de atividades, estavam lá eles, todos juntos, das 13 às 17 horas, para fazer reforço escolar, capoeira e jogo de xadrez. 

O que parecia impossível para as mães, aconteceu. O princípio integrador do Cidade Escola se revelando.

Fabio também fala com orgulho de uma atividade que já é muito conhecida na cidade e em todo o Sul de Minas. O grupo de percussão e fanfarra, sucesso entre os jovens, terá novo formato na Vila Promessa: “Queremos fazer a banda com produtos recicláveis. Com latão, panela, baldes. Os meninos que estão se destacando nos instrumentos, nos outros bairros em que já damos aulas, uma vez por semana, farão ensaios aqui, à noite. Eles fazem parte da banda de percussão Mojuba, que significa ‘bem-vindo à roda’, no dialeto Yoruba”.

Apesar de toda a disposição para enfrentar os desafios do Núcleo de Igualdade Racial, na Vila Promessa, Fabio sabe que não será nada fácil. As experiências vividas por toda a cidade dão a ele essa certeza: “Você tem que ensinar para os jovens por que 930 reais por mês é mais do que 300 reais por dia nas drogas. Todo santo dia”. 

E apesar desta triste realidade, Fabio e seus pais sabem muito bem que no núcleo do Cidade Escola, na Vila Promessa e no Núcleo de Igualdade Racial, a conta que se deverá fazer sobre os resultados obtidos com as atividades propiciadas à garotada é bem diferente do que muitos imaginam: “Desses meninos, de cada dez que param as atividades, sete vão presos. Minha mãe, Mariô, cansou de ouvir deles: ‘Vou tentar arrumar um trampo e parar de consumir drogas’. Mas, depois de cinco ou seis dias estão consumindo drogas de novo. A reincidência é muito grande. Os que permanecerem no Núcleo de Igualdade Racial e no Cidade Escola, temos a certeza de que farão a diferença. Todos com quem já trabalhamos em outros projetos, estão empregados, todos. Os que não conseguiram, continuam procurando todos os dias. O Jobson, por exemplo, começou no núcleo com 15 anos. Hoje é casado, tem filho e dá aula de percussão, no Caic, aqui, na Vila Promessa e no Pinheirinho. A gente costuma fazer a conta aqui, não com o número dos que a gente resgatou, mas, sim, de quantos a gente perdeu”.

Fabio Cruz também tem consciência do que esses jovens de diversas regiões de Alfenas sofrem na pele. A discriminação e o preconceito racial não são novidades nem mesmo para a sua família. O episódio mais recente aconteceu cinco dias após a exibição de um documentário patrocinado e exibido na Unifenas, em abril do ano passado. A pichação feita no muro da casa do núcleo revela o grau de intolerância de algumas pessoas da cidade. Ao lado da sigla do projeto, a ofensa: Núcleo de Macacos. Nada que os assuste, pelo contrário, afinal, eles, negros, já eram discriminados há muitos anos: “O primeiro encontro organizado por meus pais foi feito na Concha Acústica, na praça, onde os negros não podiam ir. Eles foram com uma caixinha, tinha 8 pessoas. Hoje fazemos almoço para 4 mil pessoas. Naquele tempo, os negros não podiam nem mesmo atravessar a praça”, relembra Fabio Cruz.

Mas nem ele, e muito menos sua família inteira, sofrem por isso. Sabem do valor e dos trabalhos realizados pela cidade, desde os seus antepassados. Poucos em Alfenas devem saber que a Igreja de Santos Reis, a mais antiga do Brasil, foi construída também com o suor de seus familiares.

Em algumas semanas, os jovens da Vila Promessa irão assistir ao documentário produzido pela Unifenas sobre a consciência negra. 

É assim que Fabio prefere fazer, não disponibilizar o vídeo na internet, mas fazer sessões especiais, com os jovens que participam do Núcleo de Igualdade Racial e do Cidade Escola, para refletirem, logo após a exibição, sobre problemas que eles também sentem na pele e no dia a dia.

Fabio Cruz
Os moradores de Vila Promessa e região podem ter uma certeza. Se depender de Fabio Cruz, tudo que estiver a seu alcance será feito para construírem, juntos, uma nova realidade social naquele local. Fabio não é só apaixonado e dedicado pelo que faz pelas comunidades. Tem compromisso com todos, afinal, largou uma carreira promissora como jogador de basquete (jogou em grandes equipes como Minas, Corinthians, Mackenzie e até nos Estados Unidos) para retornar a Alfenas e se dedicar de corpo e alma à causa que abraçou.

Fábio não precisou nem da formação superior que possuí para descobrir a resposta para a pergunta que muitos se fazem pela cidade: por que Alfenas se tornou uma cidade com tanta desigualdade e preconceitos, raciais e sociais? Sua resposta foi curta, em uma palavra: “Coronelismo, literalmente. Os prefeitos que entravam eram grandes empresários, sempre os mesmos, médico fulano de tal, fazendeiro fulano de tal, vamos criando os bairros, e vamos na população perguntar: ‘o que você precisa’? ‘Eu preciso de um terreno, de uma casinha’. Toma aqui esse terreno pra vc. E só, mais nada. Foi o que aconteceu com a abolição da escravatura. Você está livre, mas para viver onde e como?

 Para Fabio Cruz, o Cidade Escola e o Núcleo de Igualdade Racial vão mudar radicalmente essas décadas de retrocesso. 

Um sonho não apenas seu e de sua família, há mais de três décadas envolvidos neste processo, mas de todos que dizem amar Alfenas de verdade.























































































































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