sexta-feira, 17 de março de 2017

Cidade Escola: Esperança e Vida em Gaspar Lopes

Gaspar Lopes, em primeiro plano. Alfenas, ao fundo.
Tão perto e distante para muitos. Tão perto e discriminado por muitos. Tão perto e cheio de problemas sociais. Tão perto e importante na história da cidade. Esse é o bairro Gaspar Lopes, distante apenas oito quilômetros do centro de Alfenas.

A chegada do Cidade Escola por lá está sendo comemorada pelos pouco mais de mil moradores do bairro. Especialmente pelas crianças e jovens da comunidade, que pouco ou quase nada tinham para fazer dia a dia, ano após ano.

Casa em que funcionou o 1º cinema de Alfenas.
Será que os que moram no centro da cidade sabem que Gaspar Lopes foi próspero um dia? Será que sabem que o primeiro cinema da cidade de Alfenas, chegou primeiro por lá? Que a estação ferroviária tornou o bairro um dos mais importantes da região? E ainda que o bairro tem a mesma idade de Alfenas, 150 anos!? 

Não, provavelmente só ouviram dizer que Gaspar Lopes é um bairro pobre e perigoso.


Anos e anos de descaso do poder público deixaram o charmoso bairro praticamente sem estrutura social. Não há farmácia, padaria, escola do 6º ao anos. Há um Posto de Saúde da Família (PSF), dois mercadinhos, a igreja de Nossa Senhora Aparecida, pequenos comércios no trevo de entrada do bairro, a fábrica de vidros, a fazenda Ipanema, um posto do correio, dezenas de pequenas roças na zona rural e a famosa venda do seu Zé Alvino, que será personagem desta história, pouco mais a frente.


Escola Dr Fausto Monteiro
Há também uma creche e a Escola Municipal Doutor Fausto Monteiro. É ali que o Cidade Escola começa a mudar a vida de quem é de Gaspar Lopes. Um desafio enorme, mas que já está alcançando resultados positivos no convívio, na estrutura e nas relações sociais tão enfraquecidas entre os que ali moram. Estes são alguns dos princípios integradores do Cidade Escola.



A Escola Fausto Monteiro tem aproximadamente 180 alunos, do Pré ao 5º ano. Crianças e jovens que até pouco mais de um mês, pouco ou quase nada tinham para fazer, a não ser o estudo regular. Agora, são várias atividades, não apenas para as crianças, mas para todos da comunidade, como capoeira, zumba, natação, culinária, arte em MDF, em EVA, pintura em tecido, horta comunitária, reforço escolar, futebol, contação de histórias, rádio-escola, musicalização, manicure, cabeleireiro, psicomotricidade e ciclismo.

Passados quase dois meses do programa, 10% da população do bairro aderiu ao Cidade Escola. Já são mais de 150 inscritos nas diversas atividades.

Gaspar Lopes é um núcleo que pode ser chamado de “especial”, dentro do Cidade Escola, dada as características do lugar, com muitos residentes na imensa zona rural da região, e muitos problemas nas relações familiares. 

Este cenário aos poucos começa a mudar. A área lateral da escola tinha mato com um metro de altura, até a implantação do Cidade Escola no local. Agora, quem chega ao local, já percebe as mudanças. No lugar do mato alto, um lindo gramado e árvores plantadas pelos alunos, dentro de enormes pneus.



Realidade que até poucos dias atrás, o pequeno João Lucas, de apenas 7 anos, faz questão de lembrar, ainda meio assustado, quase não acreditando, que o cenário do espaço da quadra coberta, está se tornando outro: “Eles vêm aqui, atrás da tela da quadra, para fumar escondido. Ficavam ‘agachadinhos’, dia inteiro”.

O princípio integrador do Cidade Escola já está ajudando João Lucas a ver a escola em que estuda de outra forma. Ele, sua mãe e dois irmãos, todos participam, juntos, de atividades do programa.


Sandra Moreira, coordenadora núcleo Gaspar Lopes - Cidade Escola
Quem sabe dos enormes desafios a serem vencidos no Gaspar Lopes é a coordenadora do núcleo do Cidade Escola, Sandra Moreira.

Os 26 anos como professora na rede pública, seis deles no bairro, a transformaram em muito mais do que uma educadora.

Ela e 12 integradores culturais terão papel fundamental na transformação da rotina de muitas vidas da comunidade.





Integrador cultural Jean e Sandra Moreira
Um integrador cultural, porém, tem significado especial para ela. Seu nome é Jean. Ele chega bem cedo à escola, passa o dia por lá. Ajuda em tudo. Organiza atividades das crianças e expressa bem um dos princípios integradores do Cidade Escola: “Ele cuida do lazer das crianças, de segunda a sexta, o dia inteiro. E das 17 às 19 horas, também de um jogo de futebol. Ele é cria do Gaspar Lopes. Cria da Fausto Monteiro. Acabou de completar 18 anos. Estudou a vida inteira. Saiu daqui, frenquentou outras escolas no centro da cidade, mas retornou. Passou por muitos ‘perrengues’ na vida. Ele é o exemplo típico que o Cidade Escola quer trabalhar, um menino ‘fruto’ dos problemas sociais do bairro, integrando outros jovens. Todo amor e carinho que ele tem da vida, recebeu na escola, e, agora, do Cidade Escola”.

Integradora cultural, Poly Novais
Outra integradora cultural que está fazendo sucesso entre as crianças chama-se Poly. E uma de suas atividades, o rádio-escola junto com contação de histórias, é única entre os vários núcleos do Cidade Escola na cidade. Poly nunca havia contado histórias para crianças, mas de rádio ela entende. Trabalhou na rádio Atenas durante 12 anos. Fazia um programa de humor, na hora do almoço, “A hora do rango”. E atualmente, uma vez por semana, tem um programa na rádio Pinheirinho.

Mas o que seria rádio-escola? Poli, explica: “É uma rádio de faz de conta, porque não tem transmissores instalados. Uso um aparelho de som e microfone para tocar músicas para as crianças, quando saem, na espera do ônibus que os levará para suas casas, na zona rural. É uma forma de entretê-los. Se tem alguma notícia importante da prefeitura, alguma campanha contra dengue, febre amarela, por exemplo, divulgamos. Explico o que é a febre amarela, a dengue, e mesmo com eles agitados, correndo para lá e para cá, no pátio, acabam levando as informações para as mães”.




Dona Miriam e Letícia
Por se tratar de uma região que concentra as pessoas num pequeno espaço geográfico, a notícia da chegada de inúmeras atividades do Cidade Escola tem atraído cada vez mais gente. Algumas atividades, com um dos princípios integradores do Cidade Escola, funcionando na prática. Normalmente, os mais velhos é quem recomendam a participação dos mais jovens no programa, mas com dona Miriam e a pequena Letícia foi diferente. Foi Letícia, de apenas 10 anos, quem estimulou e levou a amiga vizinha ao encontro das atividades do Cidade Escola. Ou seja, não há hierarquia ou idade para se relacionar bem com o seu próximo.

Dona Miriam viu a lista de atividades e acabou escolhendo uma que revela outro princípio integrador do Cidade Escola. Vai fazer culinária, mesmo estudando gastronomia, atualmente. Qual a razão de fazer algo que já sabe? Simples, assim: “Gosto muito de cozinha. Quando falei com a Sandra, ela disse: ‘mas você quer fazer culinária, que você já sabe?’ Disse para ela que é uma coisa que gosto, me mantém ocupada, mas assim também posso ajudar nas atividades do Cidade Escola, ajudar outros com meus conhecimentos”.

Capela, alto do morro em Gaspar Lopes.
Dona Miriam trocou a vida no bairro do Aeroporto pelo Gaspar Lopes. E lá se vão nove anos de vida tranquila, mas não sem o preconceito: “Aqui é mais tranquilo para morar. Meus filhos gostaram daqui, inclusive uma filha casou com um moço daqui, mora aqui, inclusive. Estuda Geografia. Todos da cidade acham que aqui é um ‘inferno’. Quando estudei no Polivalente, bastava dizer onde morava para todo mundo falar mal: ‘nossa, como a senhora tem coragem de morar lá, bairro feio, bairro isso, bairro aquilo’. Eu dizia a eles: ‘gente, não é nada disso que vocês pensam, não imaginam o tanto que é melhor aqui do que no centro. Não troco lá por cá. Aqui só falta um incentivo maior para os jovens, e a meia-idade. Tomara que o Cidade Escola ajude nisso”.

E assim, o Cidade Escola, vai resgatando vínculos perdidos na comunidade do Gaspar Lopes.

É curioso que um bairro histórico e tão importante na formação da cidade tenha sido esquecido por tanto tempo. Logo ali, onde existe um morador tão especial, e que conhece como ninguém o surgimento e o crescimento do bairro Gaspar Lopes e toda Alfenas. Quem não conhece ou já ouviu falar da venda do “seu” Zé Alvino pela cidade inteira?



E ele segue preservando a memória de um pedacinho de chão tão importante. Do velho casarão que surgiu por causa da construção da “Estação Gaspar Lopes”, da estrada de ferro da Rede Sul Mineira, inaugurada em 1897: “Os engenheiros da ferrovia disseram a dona Claudina Machado, dona de todas essas terras, que a estrada de ferro iria passar por aqui e que isso iria valorizá-las. Pediram um pedaço de terra a ela. Ela doou uma imensa área. Os filhos dela correram e fizeram a casa, onde funciona esta venda. Era pra esperar a estrada de ferro chegar. Um ano pra fazer a casa. Inaugurou a venda, do jeitinho que está atualmente, nada mudou. Só que levou 20 anos pra passar a estrada de ferro”.


Dos quase 150 anos de existência da venda, seu Zé está nela há 57!

Chegou ao bairro quando tinha só 19 anos.

E viu de lá, Gaspar Lopes e toda Alfenas crescer e criar com seu jeito simples e cativante hábitos que viraram história. 





Dinheiro colados no teto na venda de seu Zé Alvino.






Como o de estimular os fregueses a colocarem dinheiro no teto da venda, para doar no fim de todo ano à instituição Viva a Vida, ou a simplesmente, passarem por lá para saborear o sanduíche de mortadela e um bom gole de pinga.







É o que o visitante ilustre, Milton Nascimento faz até hoje, sempre que passa por Alfenas: “Ele saiu do Rio de Janeiro para Três Pontas, é neto do Padre Vitor. Veio para Alfenas estudar. Aprendeu a tocar aqui. Todo domingo ele passava por aqui, de carro, com os amigos, indo cantar em Três Pontas. Depois voltava. E ele não era famoso. Por isso o Milton gosta de mim”.


Da porta da velha venda, seu Zé Alvino, do alto dos seus 76 anos, vê todos os dias o vai e vem do ônibus escolar, levando e buscando as crianças do bairro para estudar na escola, que fica bem próxima de seu comércio histórico. E está feliz com a chegada do Cidade Escola pelo lugar: “Coisa boa isso que está acontecendo. Tirar as crianças das ruas. Eu pulo corda todo dia de manhã, com a minha idade. Dia desses apareço por lá pra pular corda com as crianças”.




Seu Zé sabe das dificuldades e do esforço que as crianças fazem todos os dias para chegarem até a escola, especialmente as da zona rural mais distante.

Ainda assim, todos, sem exceção, ficam felizes ao retornar para suas casas simples construídas em pequenas roças da região.

No dia 15 de março, o prefeito Luizinho esteve no Gaspar Lopes, dentro da programação Prefeitura nos Bairros. Ouviu diversos moradores, seus pedidos de melhorias, mas também, agradecimento, pelo o que o Cidade Escola vem propiciando a todos. Viu as crianças felizes, dentro do ônibus, a caminho do CEME, para mais uma aula de natação, coisa que faziam uma vez por ano e olhe lá.

É só o início das mudanças no Gaspar Lopes. Um recomeço do convívio entre todos, aprendendo e ensinando, dentro do Cidade Escola.




Obs: vale a pena acessar os links abaixo para conferir imagens raras de Gaspar Lopes e Alfenas. E ainda reportagens da TVE Alfenas sobre a venda de seu Zé Alvino.

https://www.youtube.com/watch?v=8FenWV4SOLI (imagens antigas de Gaspar Lopes e Alfenas)
https://www.youtube.com/watch?v=K9ofR3GUNkI (reportagem TV Alfenas sobre doação Zé Alvino)

https://www.youtube.com/watch?v=O4OW7FbCUvI (reportagem TV Alfenas sobre a venda do seu Zé Alvino)



Estação de trem Gaspar Lopes






O mesmo local da antiga estação de trens


trem, na estação Gaspar Lopes.











atividade do Cidade Escola

Crianças do Gaspar Lopes, no CEME.














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