sexta-feira, 15 de junho de 2018

Cidade Escola: Superação em Gaspar Lopes



Desde a criação do Cidade Escola, há um ano e meio, vários princípios norteadores do programa se revelam, na prática, no dia a dia, em cada um dos diversos núcleos e regiões espalhadas por toda a cidade de Alfenas.

Em um de seus menores núcleos, localizado na zona rural de Gaspar Lopes, a pequena comunidade de pouco mais de 1 mil habitantes, comprova as transformações e a troca de saberes entre integradores socioculturais e participantes da comunidade dentro do Cidade Escola. Mais do que isso, histórias de superações que todos nós, um dia, teremos de enfrentar na vida.


Para quem não conhece a história do bairro Gaspar Lopes, distante poucos quilômetros do centro de Alfenas, vale a leitura de um artigo já postado por aqui (http://cidadescolaalfenas.blogspot.com/2017/03/cidade-escola-esperanca-e-vida-em.html ).

Desde a implantação do Cidade Escola em Gaspar Lopes, a vida da pequena comunidade mudou por completo. Antes, o isolamento e a falta de atividades para a população deixavam o lugar com a aparência de um “fim do mundo”.



Após 1 ano e meio de trabalho, dezenas de moradores e quase trezentos estudantes da Escola Municipal Doutor Fausto Monteiro e da creche Amália Leite Corrêa, aderiram às atividades do programa como artesanato em E.V.A, artesanato em reciclável, zumba, psicomotricidade, contação de histórias, leitura, oficinas de estética (com aulas de manicure e corte de cabelos e sobrancelhas para moradores), horta comunitária, e, nos finais de semana, recreação para crianças, com brincadeiras antigas como dominó, dama, peteca, pingue-pongue, pula corda, bolinha de gude. Com a entrada de novos integradores no Cidade Escola, novas atividades para incrementar ainda mais as opções para a comunidade como balé (academia Rosana Moterani), fanfarra, canto coral e capoeira.




Com tantas opções, Gaspar Lopes deixou de ser um lugar onde não se tinha absolutamente nada para se fazer, especialmente para as mulheres, donas de casa, mães de famílias. “O prazer da vida delas é vir para cá. Os maridos não gostam, porque deixam tudo que tiverem que fazer em casa para participar das atividades do Cidade Escola. Lica, uma das participantes, diz que saiu da depressão, desde que começou a participar do programa. Aqui, elas conversam, dão risadas, uma retruca daqui outra fala dali. A maioria era de donas de casa que não tinham o que fazer no dia a dia. Toda a comunidade não tinha opção nenhuma de atividades. Um dia, fizemos um bolo para uma das participantes, no dia de seu aniversário, e ela achou a coisa mais importante de sua vida. Uma coisa simples, mas que tem enorme importância para elas”, afirma Sandra Moreira, coordenadora do núcleo Gaspar Lopes.

A comprovação de que vidas são transformadas dentro do Cidade Escola, não está apenas nas atividades oferecidas, mas nas relações existentes entre participantes e integradores socioculturais.


Lili, grávida, fazendo sobrancelhas.
Lilian Alves Caseca ou melhor, Lili, como é conhecida na comunidade de Gaspar Lopes se enquadra dentro destes quadros de transformações. Ela participa das oficinas de estética, faz unha e cabelo e ainda das aulas de artesanato com recicláveis, desde o início das atividades do programa, em fevereiro de 2017. 

Lili tem 40 anos de idade, é mãe de cinco filhos, o sexto, a caminho, na barriga. Conheceu o marido nos bailes e forrós que frequentava em Gaspar Lopes e acabou se casando. Mora na comunidade há 17 anos, ou seja, tinha apenas 24 anos quando passou a morar ali. 

Sabe bem o que é o isolamento do lugar e os problemas que isto pode acarretar. “Aqui não se tem nada para fazer, a não ser o Cidade Escola. Quando começaram as atividades, tudo mudou. 

Antes, ficava só em casa, cuidando da casa e dos filhos, agora, saio, converso, ocupo a cabeça e a mente. Falo de coisas diferentes do que só problemas com os filhos”.





Lili, em aula de artesanato em recicláveis
Lili tem problemas muito maiores do que apenas ocupar a cabeça com boa prosa. Há pouco mais de dois anos, sofre com problemas decorrentes de uma forte depressão. Já teve vários surtos, cortou braços, pernas e até uma tentativa de suicídio. “Melhorei muito com a chegada do Cidade Escola, porque tenho depressão. Adoro isso aqui. Tive depressão quando trabalhava na Santa Casa, era faxineira. Me mandaram embora. Tomo antidepressivos até hoje, surto de vez em quando, sou muito nervosa. Tem gente que pensa que depressão é ‘frescura’, mas não é. É uma coisa muito ruim, parece entrar algo em nossa cabeça que faz a gente mesmo se machucar. Cheguei a cortar braço, perna, pescoço, dava murro nas paredes. Minhas mãos ficavam todas machucadas”.

E é por poder participar de algumas atividades do Cidade Escola que Lili está conseguindo se reerguer na vida. Além da concentração e relaxamento obtidos nas aulas de artesanato com recicláveis, a autoestima vem crescendo, dia após dia, com a participação das oficinas de estética. Voltou a ter “vaidade” pessoal, faz unhas e cabelo.



Lili, cortando o cabelo em atividade do Cidade Escola
Parece pouco, sentar-se em uma cadeira do salão improvisado na pequena sala de entrada da sede do Cidade Escola em Gaspar Lopes e começar a ter a vida mudada. Lili corta o cabelo, faz escova, mas o que mais precisava em sua rotina era ter com quem conversar sobre os dramas que vive.

Alguns podem dizer que ela deveria, então, procurar um psicólogo. E é quase exatamente isso que faz a responsável pela atividade de cabeleireira do Cidade Escola em Gaspar Lopes. É neste cruzamento de vidas, entre participantes e integradores, que acabam trocando saberes, experiências pessoais, se relacionando de uma forma diferente.



Julia, integradora de estética no Cidade Escola
Julia é uma jovem de apenas 21 anos de idade, mas com experiências sofridas na vida que muitos adultos não tiveram.

É cabeleireira, responsável pela oficina de estética do núcleo em Gaspar Lopes. Entrou como voluntária e após passar no processo seletivo do programa é um dos 12 integradores socioculturais do Cidade Escola.

Entrou por necessidade financeira, mas acabou transformada pelo contato diário com outras realidades tão duras de vida como a sua.






Seu nome completo é Júlia Carolina da Silva Rossel Milesi. Os sobrenomes dão pistas de suas origens, mas não dos problemas vivenciados. “Tenho 21 anos, mas já vivi muita coisa. Minha mãe faleceu quando eu tinha 9 anos. Com 11 anos, estudava no Polivalente, 5ª série, e comecei a vender picolé. Era o único jeito de poder ajudar minha avó com as despesas da casa. Depois, virei babá. A seguir, trabalhei um ano na Caixa Econômica Federal como jovem aprendiz. Depois, dois anos na sapataria Dragão. Neste período, engravidei, tive de sair, porque meu filho não pegava nenhum tipo de leite, só mamava em mim. Minha madrinha me pagou um curso de cabeleireira e comecei a trabalhar em domicílio, na garagem da minha avó. Ganhava algum dinheiro, mas era difícil, porque tem dia que tem, outros que não”.




Julia e seu filho Eduardo
A perda da mãe, quando ainda era uma criança, trouxe também outros problemas para Julia lidar. “Tive de pular uma etapa na vida, não lembro de praticamente nada do nosso relacionamento. A psicóloga pela qual passei, disse que isso era um ‘autobloqueio’. Hoje, penso na falta que ela me faz, de como queria ter uma mãe para poder ter uma conversa, mas, não sinto, não lembro de nada”.

Julia não perdeu apenas a mãe precocemente, porque, o pai, ausente, partiu cedo de casa. “Meu pai foi embora de casa quando eu tinha 3 anos. Foi embora para a Espanha. É argentino e veio para Alfenas trabalhar como chefe de segurança em uma boate. Foi aí que conheceu minha mãe. E, logo a seguir, ela engravidou de mim. Depois de 3 anos ele foi embora. Ele queria levar minha mãe, mas ela não quis ir. Acho que ela não gostava dele, porque, quem não iria querer morar na Espanha? Ela se separou dele. E teve mais dois filhos, com pessoas diferentes. Tenho 3 irmãs”.



A falta de referência familiar, fez Julia seguir um longo caminho em busca do pai. “Em 2006, minha mãe faleceu. Dois anos depois meu pai me procurou. Fui para a Argentina, conhecer a família dele, quer dizer, conhece-lo, também, porque, com 3 anos, quem iria conhecer bem alguém? Estava com 12 anos quando fui para lá. Minha madrinha me levou até São Paulo. Fui sozinha, de avião, até a Argentina. Queria conhecê-lo, porque, querendo ou não, é o meu pai. Fiquei um mês lá, conheci a família inteira. Tinha uma lembrança maior de minha avó, porque ela vinha me visitar, às vezes, no Brasil. Ela é uruguaia, mas morava na Argentina. Não conhecia primos, tias, nem do meu próprio pai me lembrava”.

Agora, Julia descobriu o paradeiro do pai, que continua a viver e trabalhar na Espanha. Fala com ele pelo facebook e diz estar dando uma nova chance de aproximação para poder reconstruir seus vínculos familiares.



Julia com o marido Patrick e o filho
Julia chegou ao Cidade Escola por pura necessidade financeira. E havia uma razão bastante forte para isso. Seu marido estava preso. Precisava sustentar o filho até que o marido saísse do cárcere.

E um novo caminho de batalhas se fez. Apesar de tão jovem, foi à luta pela sobrevivência.

“No período em que meu marido ficou preso, trabalhava em domicílio, e na garagem de minha avó, fazendo cabelo. Também pegava serviço de diarista, fazendo limpeza na casa dos outros. Fazia de tudo, até quando minha vizinha saía, ficava tomando conta das crianças dela. Apesar de me virar, eu precisava arrumar um trabalho fixo, ter uma renda fixa para mim. Foi aí que conheci o Cidade Escola. Vinícius, amigo de meu marido pediu a mãe dele, Sandra Moreira, coordenadora do Cidade Escola, para tentar me ajudar. Trabalhei alguns meses como voluntária, até sair o processo de seleção. Fiz e entrei”.






E a vida de Julia começou a se transformar. O trabalho é cansativo, duro, sem parar, em pé, das 7 às 15 hs, cortando cabelos, fazendo escovas e sobrancelhas. Mas, segundo ela, valendo a pena. Olhar para o passado recente para que?  "Sou um tipo de pessoa que não liga para o passado. O que passou, passou, é só experiência. Vim para o Cidade Escola numa situação de necessidade, mas acabei mudando a minha vida. Encontrei pessoas, aqui, que estavam com situações de vidas muito mais difíceis do que a minha. Percebi que estava ajudando a mudar suas vidas com minha atividade de cabeleireira. Aqui, não é só o ‘venha a nós’. No meu salão, trabalho porque tenho que ganhar dinheiro. Aqui é outra coisa. As pessoas não vêm atrás só da beleza estética. É outro sentimento. É conversar, companhia, falar de assuntos que não estão acostumadas a ouvir em suas casas. O pouco, aqui, é muito, saem felizes da vida das atividades. Ajudar alguém é diferente. Não há troca de interesses”.

Cidade Escola é, também, troca de experiências. Propiciar situações que possam ajudar pessoas de qualquer comunidade a reencontrar seus próprios caminhos, terem autonomia de vida.



Sabrina, superação com atividades do Cidade Escola
É o que aconteceu com uma das moradoras de Gaspar Lopes e participante de algumas das atividades do Cidade Escola por lá. Ninguém a conhece pelo nome verdadeiro, Cindiléia Campos Leite, mas, Sabrina, não há quem não saiba. Uma vida transformada, após sua chegada à Alfenas, há quase 13 anos. “Depois que conheci o Cidade Escola minha vida mudou, porque não sabia fazer nada. Agora, sou manicure e pedicure, aprendi aqui. Fui uma das primeiras a participar desta atividade, logo que o programa começou, no ano passado. Agradeço demais a integradora Miriam. Muitas manicures e pedicures que estão trabalhando por aí, foi ela quem formou. Gaspar Lopes nunca teve nada para fazer, antes do Cidade Escola. Tudo é difícil, até emprego é complicado. Mas, hoje ganho meu dinheirinho com o que aprendi como manicure. Gosto muito daqui. O dia que é para vir para cá, deixo de fazer qualquer coisa em casa e corro para cá. Em casa, fico lembrando de meu pai, filhos, e choro o tempo inteiro”.



Sabrina e amigas participando da aula de
manicure da integradora Miriam
É fácil compreender porque as lembranças de pai e filhos trazem tantas lágrimas. Sabrina é natural da pequena cidade chamada Luz, interior de Minas Gerais, distante 300 quilômetros de Alfenas. Teve uma vida repleta de traumas. “Só tenho pai, não conheço minha mãe, mas sei que ela já faleceu. Quem me criou foi meu pai, só que ele me batia demais. Fui espancada várias vezes. Tinha um pé de manga em casa onde vivia mais embaixo dele, amarrada, do que dentro de casa”.

A violência doméstica gerou problemas ainda maiores na vida de Sabrina. Com apenas 16 anos, teve seu primeiro filho. Viriam outros dois, antes de decidir partir de onde morava. Abandonada pelo companheiro com quem vivia, foi para as ruas, vagando de casa em casa, por não ter para onde ir. Até que um caminho mais “fácil” surgiu em seu caminho.



Perdida, em Lagoa da Prata, conheceu uma recrutadora de mulheres para trabalhar em uma boate de Gaspar Lopes. Estava completamente debilitada, dentes estragados, pesando 36 quilos.

Foram três anos de puro sofrimento no lugar. Envolveu-se com drogas, pelo fato de sequer conseguir manter relacionamento sexual com os clientes da casa. Sofria dia e noite, queria sair deste tipo de vida, mas não conseguia.

Até que um dia, uma pessoa iria mudar sua vida. “Na boate, tive o meu quarto filho que, hoje, mora com minha cunhada. Ela começou a cuidar dele para mim, desde a boate, porque engravidei lá. Foi uma coisa de Deus esse encontro com ela, porque foi a partir dele que conheci o irmão dela, meu atual marido. Ele frequentava a boate e acabamos nos conhecendo, sem saber que eram irmãos”.








Mas a saída da boate não foi tão fácil assim. “É muito sofrido estes lugares. Juntei bastante dinheiro, mas quando quis sair, não queriam deixar. Tive que fugir. Chegaram a ir na casa de minha sogra, tentaram botar fogo na casa dela, porque, na boate, eu era tudo, dançarina, faxineira”.

Uma fuga cinematográfica que valeria uma nova vida e família em sua vida. “Fugi da boate com a roupa do corpo, de sutiã e calcinha. Fui colocada em um carro e levada para a casa de meu sogro. Cheguei na porta e pensei: ‘meu Deus, ele é crente, e vai me ver assim’. Desci do carro envergonhada, mas todos me aceitaram. Nunca me esqueço da reação dele, neste momento da minha chegada. Ele se virou para a filha e disse: ‘pegue um lençol e cubra ela’.

No dia seguinte me deram roupas, me deram tudo. Gostaram de mim desde o primeiro momento que me viram, porque entenderam que sei respeitar as pessoas. Minha sogra é a mãe que não tive. Ela e todos me apoiam em tudo”.



Sabrina vive há nove anos com o marido e o filho de 8 anos que tiveram juntos. Tem verdadeira admiração pelo companheiro, por assumir um relacionamento tão excepcional como este. Preocupação com o que as pessoas da comunidade pensam dela? Nenhuma. “Ando de cabeça erguida pelas ruas. As pessoas perguntam: ‘De onde você veio?’. Respondo, ‘da boate’. Não tenho vergonha da minha história. Não minto sobre ter trabalhado na boate. Sou bem vista em todo lugar. Meu marido me conheceu lá. Ele me quis, sabia que eu era de lá. Me tirou de lá, por isso não tenho vergonha. Meu filho crescerá sabendo desta história porque não preciso mentir para ele. Tenho mais orgulho da Sabrina do que da Cindileia. Sabrina deu a volta por cima na vida”.



Sabrina carrega dentro de si um dos princípios do Cidade Escola. Superação. Saber que a mãe também trabalhou em uma boate e que morreu queimada por um de seus frequentadores, porque não aceitou a proposta de sair daquela vida para se casar com ele, dói menos do que a proibição de não poder ver suas filhas, nascidas em sua terra natal.

“Não posso ver as duas, sou proibida de vê-las. Preferi não causar brigas, porque são bem cuidadas. Um dia, topei com uma das minhas meninas na rua e ela correu de mim, dizendo que era proibida de chegar próximo dela. Eles temem por eu ter entrado nesta vida, de levá-las pelo mesmo caminho, mas jamais seria capaz disso. Jamais iria querer isso para os meus filhos. Lá, sou julgada até hoje. Aqui, em Gaspar Lopes, não, mesmo tendo a vida que tive. O povo me abraçou mesmo. Encontrei uma nova família por aqui, recomecei minha vida”.








O núcleo do Cidade Escola em Gaspar Lopes é repleto de casos que carregam princípios fundamentais do programa. Recomeçar, como Sabrina, foi o que aconteceu também com outro integrador do programa. Assim como Sabrina, ninguém conhece Vagner Lourenço de Oliveira, mas, falou Necreto, é o que basta.

Necreto é integrador do Cidade Escola em Gaspar Lopes responsável pela horta comunitária do bairro. Poucas pessoas de lá conhecem tão bem o que é viver por aquelas terras.

“Estou há 40 anos aqui. Cheguei de São Paulo quando tinha 3 anos. Sou paulista, de São Bernardo do Campo. Papai era marceneiro. A mãe trabalhava em casa. Somos em 3 irmãos.



‘Nóis’ já passou uma vida difícil. Viemos direto para uma fazenda de café. Nós nunca pensamos neste lugar, Gaspar Lopes. Tinha vaca, boi, cavalo, porco, era uma coisa bonita demais. A roça era do tio do meu pai, que já morreu. Era custoso demais, tinha que vir estudar a pé até o bairro. Estudei no grupinho velho, no Doutor Fausto Monteiro. Não era deste tamanho que é hoje. Antes, eram só 3 salas. Estudei até a 4ª série e papai me tirou. Trabalhei 20 anos em olaria, batendo tijolo, depois, entrei no frigorífico, no matadouro. Depois, comecei a fazer todo tipo de serviço, pintura, nas casas das pessoas”.




Necreto é dos tempos de um outro Gaspar Lopes. “Há 40 anos, isso aqui era uma beleza, tudo de terra. Não cheguei a pegar a época dos trens, mas da estação, sim. Todo dia a gente descia e ia brincar lá com o povo que morava ali. Ficava até 10 horas da noite. O povo que não tinha onde morar, ficava ali, abrigava muita gente, pelo menos 10 pessoas que não tinham condições de pagar aluguel no bairro. Era tudo separado um do outro, em cômodos, era bom demais. Íamos lá só para brincar na estação”.


Mas, por muito pouco, Necreto deixou de ver com os próprios olhos as belezas de um lugar quase esquecido na cidade. Era alcóolatra, quase morreu por conta do vício. “Bebia demais. Tinha umas garrafinhas de pinga (corotes) que eu deixava pelos vários lugares que andava pelo bairro, para nunca ficar sem. Vinte anos atrás estava tudo pronto para eu internar em uma clínica, mas acabei conseguindo parar com meu próprio esforço. Cheguei a ficar 20 dias fechado dentro de casa, sofrendo mesmo, tendo delírios, mas não saía, só ficava lá, não dormia. Foram 5 anos com esse problema. Fui maneirando, maneirando, até parar”.



E a recuperação total chegou por intermédio da criação de uma horta. No Posto de Saúde da Família (PSF) de Gaspar Lopes existe um terreno, que durante muitos anos viveu abandonado, com mato alto e bichos. Necreto pediu autorização para os administradores do PSF para montar uma horta neste espaço. Limpou tudo e transformou aquele pequeno pedaço de chão.


Há um ano e meio, com o início das atividades do Cidade Escola, virou um dos integradores do programa. No pequeno espaço, ensina as crianças da creche do lugar a plantar e cuidar das verduras que planta como couve manteiga, alface americana, cebolinha, cebolão, berinjela e cheiro verde.

Necreto também torra café, na roça de seu padrinho, bem pertinho da beira da rodovia que cruza o bairro de Gaspar Lopes. E ainda vende frango caipira, para quem quiser saborear o tradicional prato mineiro. Não se casou, mas tem uma filha e já é avô. Mora e cuida dos pais, bem velhinhos, até hoje.



Necreto deu a volta por cima. A horta comunitária, como ele mesmo costuma afirmar, funciona como uma espécie de terapia para ele. O carinho dos pequenos com o “tio Necreto” é enorme, por isso, ele cuida do lugar como se fosse seu próprio filho, de sol a sol.

Gaspar Lopes parece ter seus segredos. Mas, com o início das atividades do Cidade Escola no lugar, histórias de vidas que se cruzam começam a ser reveladas. Lili, Sabrina, Julia e Necreto são apenas alguns destes personagens que, agora, podem se orgulhar de suas trajetórias de vida. Afinal, Cidade Escola, é também escola no sentido da vida. É cidade feita de gente, seres em busca de transformação, superação, e, principalmente, autonomia no viver e conviver da sociedade.






































quarta-feira, 30 de maio de 2018

Cidade Escola: E.V.A, muito mais que artesanato



Em cada núcleo do Cidade Escola sempre há histórias de vidas que ajudam a fortalecer, a cada novo dia, um dos princípios fundamentais do programa, que é o da transformação das pessoas.

No núcleo que funciona na escola Tancredo Neves, no bairro Jardim América, um dos mais tradicionais do programa, a história de vida de uma de suas integradoras socioculturais confirma essa realidade. Destacar-se entre tantos participantes das diversas atividades oferecidas à comunidade não é mérito, mas, conquista.



O núcleo Tancredo sempre foi, desde a criação do programa Cidade Escola, em 2012, um núcleo de referência na cidade. Tudo por conta da abrangência e número de usuários envolvidos. Tancredo é uma escola do ensino fundamental com, aproximadamente, 800 alunos matriculados. Desde a implantação do Cidade Escola no local, há pouco mais de um ano, quase 500 pessoas da escola e da comunidade já aderiram ao programa e atividades como Yoga, Violão, Informática, Psicomotricidade, Dança Ritmos, Zumba, Ginástica Localizada, Karatê, Futsal, Oficina de Fabricando Brinquedos, Tênis de Mesa, Pintura em Tecido e Artesanato em E.V.A. E a perspectiva é só de crescimento. “A adesão é grande porque o bairro tem uma característica própria. Vida independente do centro da cidade, com lojas, comércios, tudo por aqui. Só nas aulas de Zumba, chegamos a ter 210 participantes por aula. Com a ginástica localizada, idem, são mais de 100 pessoas por aula. O núcleo Tancredo recebe gente de vários lugares, quase 5 mil pessoas da região formada pelos bairros Jardim América, Jardim Boa Esperança, Pôr do Sol, Residencial Oliveira, Vila Betânia e Morada do Sol.”, confirma Junior, o atual coordenador do núcleo.



Mas, é em uma das atividades do núcleo Tancredo, com o menor número de participantes, que encontramos uma incrível história de superação e luta. Tânia Pelegrin é o que na linguagem popular se chama de “guerreira”. Ela é a responsável pelas aulas de artesanato em E.V.A., atividade que acabou mudando completamente sua vida pessoal e a de muitas participantes.

Tânia jamais sonhava com a transformação causada pelo E.V.A em sua vida porque a pratica surgiu por acaso, há três anos. O futuro profissional traçado era completamente outro. Queria ser enfermeira. Ganhou 100% de uma bolsa do PróUni e começou a estudar na Unifal, em 2008. Três anos depois, decidiu prestar um concurso na Prefeitura Municipal de Alfenas para o cargo de Auxiliar de Desenvolvimento Humano (ADH). 



Tânia Pelegrin, integradora artesanato em E.V.A
E seu futuro iria se transformar para sempre. “Prestei o concurso e passei. Comecei a fazer a faculdade e a trabalhar. Eram 6 horas com crianças, bebês de berçários. Fui monitora de várias creches como Dona Vanja, no Campos Elíseos; Leco, no Pinheirinho; Ipê Amarelo, São João da Escócia, e, agora, estou aqui, no Tancredo. Já andei a cidade toda. Foi assim que tive contato com a arte do E.V.A, nas escolas em que trabalhava. Nunca tinha visto, não conhecia. Comecei a ver os professores fazerem trabalhos com as crianças”, relembra Tânia.



Valério, Nicolas e Tânia
Tânia casou-se com Valério Rocha. E tiveram um filho, Nicolas Gabriel. Pouco tempo após seu nascimento, começaria um longo processo de transformação em sua vida. “Engravidei faltando 3 meses para a minha formatura. Já era casada, tinha meu trabalho. Foi tudo planejado, direitinho. Quando meu filho completou 1 mês e um dia, meu marido sofreu um acidente. Teve traumatismo craniano, fraturou a cervical em 3 vértebras. Eu tinha acabado de me formar. Conhecia o prognóstico deste acidente, sabia que, provavelmente, ficaria tetraplégico para o resto da vida. E eu tendo de cuidar de um neném, ainda estava de resguardo. Meu leite secou, por conta do susto. Graças a Deus, hoje, meu marido está bem, não teve nenhuma sequela. Só não vira o pescoço, porque ficou com um colar cervical durante 7 meses. Segurava o pescoço dele, para poder lavar a cabeça, colocava o colar de novo, e lavava o restante do corpo”, recorda Tânia.



Com todos esses problemas em casa, Tânia ainda teria outros desafios pela frente. 

“Acabou a licença maternidade e tive que levar meu filho comigo para a creche. Para mim foi uma escolha, assumir minha profissão como enfermeira ou acompanhar meu filho. Teria de deixá-lo em uma creche para poder trabalhar. Então, já que trabalhava em uma creche, no Leco, uni o útil ao agradável. E fui levando assim”.














Mas, uma descoberta mudaria completamente sua rotina de vida. “ Grande parte do que aprendi sobre E.V.A, foi lá, no Leco. Com 1 ano e 6 meses veio o diagnóstico de que meu menino era autista. O processo de identificação de um autista anda muito atrasado, escutei de vários médicos que meu filho não era autista. Sabia que ele era ‘diferente’. Não tinha certeza se era autismo ou hiperatividade. Veio o diagnóstico do autismo, primeiro; depois, veio o da hiperatividade, então, na verdade, ele era os dois”.

A formação de Tânia como enfermeira, ajudou na certeza que tinha sobre a descoberta do autismo do filho. Faltava um diagnóstico “oficial”, de um especialista, pois, em casa, ninguém acreditava nesta hipótese. Mas, ela não desistiu. 








“Nicolas não falava nada. Comecei a pesquisar sobre o autismo em tudo quanto é canto, e, hoje, se alguém quiser saber algo sobre isso, explico tudo. Nunca tive o luto que surge quando alguém recebe um laudo com esse diagnóstico. Vem a tristeza, ‘meu filho é doente, será assim para o resto da vida’. Isso nunca fez parte de mim, porque, quando chegou o diagnóstico, me veio uma certeza daquilo que já sabia, precisava somente daquele papel para continuar o tratamento dele. Em casa, minha mãe achava que estava louca, dizia que estava colocando doença no meu filho, que ele era saudável. A razão disso é simples, porque, qualquer pessoa que olhe para uma criança autista, dificilmente faz essa identificação. Expliquei à minha mãe, que ele era diferente. Meu marido dizia o mesmo: ‘ele não tem nada, você está louca’”.









E Tânia teve de buscar outra forma para que acreditassem em sua avaliação. “Marquei um neuro, escondido de todos. Paguei do meu bolso. Faltando dois dias para a consulta, avisei minha mãe e marido que iríamos para Pouso Alegre, passar em um médico. Chegando à consulta, o médico me perguntou a razão de ter levado a criança. E expliquei que havia identificado várias características nele, semelhantes ao autismo. Disse que ficava no movimento de balanço, olhava muito para as mãos e não olhava para os meus olhos. E, ainda, que andava muito na ponta dos pés. E o médico me disse. ‘Então você já sabe o diagnóstico’. Respondi que sabia e completei. ‘Mas diga ao meu marido e para a minha mãe que não sou louca e que preciso da ajuda deles, porque, sozinha, não dou conta’. Eu já o levava, escondido, a uma terapeuta ocupacional, uma fonoaudióloga e uma psicóloga”.







Com o diagnóstico médico nas mãos, Tânia conseguiu dar a seu filho, de forma gratuita, uma melhor qualidade de vida a ele. E ainda assim, com o descrédito de várias pessoas da família. 


“Consegui essas terapias na APAE. A família me criticou por levá-lo para lá. Expliquei que, na APAE, ele teria uma terapia adequada. Expliquei ainda que se isso não fizesse bem para ele, eu saberia. Mas, fez muito bem. Nicolas não quer sair de lá. Hoje, fala muito bem, não totalmente, não é uma frase completa, mas, o mais importante é que entendemos o que quer dizer. Em graus mais severos de autismo, não existe a comunicação, e, comunicação é a essência do ser humano. Como viver sem se comunicar?”.




Tânia jamais desistiu de seu filho. Enfrentou resistência não somente dentro da própria casa. 

“Tenho uma redução de carga horária no meu trabalho na escola, como ADH, por conta do meu filho, que ganhei na Justiça. Na antiga gestão da prefeitura, me tiraram esse direito, abriram até um Processo Administrativo para tentarem me mandar embora. Queriam me tirar, que meu filho fosse sozinho até a APAE, essa é a realidade. Diziam que eu não tinha justificativa para levá-lo. Ele não tinha ninguém para cuidar dele, mesmo eu estando na mesma escola. Não podia chegar perto dele, era proibido, porque sou mãe, e, mãe não pode ficar entrando em sala de aula ou atividade. Aqui, no Tancredo, não. Ele já está acostumado com minha presença”.



Decoração feita em E.V.A por Tânia, para o filho Nicolas.
O amor e dedicação pelo filho autista acabaram também aproximando Tânia de outra paixão em sua vida: a arte em E.V.A. 

“Com 2 anos, decidi fazer uma festinha para ele, mesmo sem dinheiro, sem nada. Não tinha dinheiro para alugar nenhuma decoração, então, decidi eu mesmo fazer tudo, com o que sabia em artesanato em E.V.A. 

O pessoal que chegou lá em casa e viu a decoração que fiz com EVA falou: ‘Tânia, posta no facebook, que coisa mais linda’. Postei uma vez. Comecei a ter encomendas e mais encomendas. Nem conseguia dormir mais, porque tinha de cuidar do filho autista, do marido doente, e correr para lá e para cá. Mas deu certo”.



E como deu. A vida de Tânia mudou completamente a partir da descoberta que poderia gerar renda com as encomendas que passou a ter com o artesanato em E.V.A. E uma nova porta se abriu para ela, desta vez, com um convite para fazer parte do programa Cidade Escola. 

“O E.V.A veio para mudar a minha vida. Meu filho fará 6 anos em novembro. Faz 3 anos que tudo isso aconteceu. Nesse meio tempo, a Stela Rogatti, antiga coordenadora do Cidade Escola no Tancredo, conheceu o trabalho que eu fazia, e me convidou para participar, como voluntária”.



Tânia aceitou de imediato o convite. E o sucesso foi enorme. 

Quase 500 peças produzidas até agora com os mais variados temas. 

“Comecei em fevereiro de 2017, com turmas bem grandes. Chegamos a ter 25 alunos por turma, só a noite. Como voluntária, tinha uns 50 alunos da escola, só no período da tarde. Comecei ficando à tarde, como ADH, exercendo minha profissão, e, à noite, no Cidade Escola”.



Apesar do sucesso obtido com as aulas de E.V.A, Tânia sabia que havia um risco envolvido na atividade. E decidiu mudar. 

“Percebi que era complicado dar aula para 25 alunos, porque tínhamos crianças muito pequenas, e o risco era grande. Trabalhamos com cola quente, que é um perigo para qualquer pessoa. Eu, que tenho 3 anos trabalhando com isso, já me queimei muitas vezes, e é uma queimadura muito dolorida, de terceiro grau, dá bolha, é complicado. Acabei resolvendo que crianças menores de 10 anos, não poderiam fazer. E de 10 anos até 13 anos, faria só com a mãe do lado”.



A redução tinha um objetivo. Retornar à sua proposta inicial com o E.V.A, no Cidade Escola. 

“Eram 25 por dia, que viraram 25 por semana. Agora está redondinho, como queria no começo. A proposta é levar o E.V.A para dentro das casas das pessoas, e fazer com que elas, depois que aprendam, aqui, nas aulas, façam em casa, para vender, terem renda própria ou até mesmo para presentear quem quiserem”.













Para quem não sabe, E.V.A é uma borracha não tóxica aplicada em diversas atividades artesanais. É também a abreviatura de seus componentes químicos: Etil Vinil Acetato. E não é só isso. 

“É um produto químico, uma borracha, que não é fácil de ser cortada. Não é qualquer um que corta. 

Tem que ter paciência, treino e dedicação, que é o principal. Não adianta vir aqui, nas aulas, e chegar em casa e não continuar a treinar. 

Sem praticar, ninguém conseguirá fazer bem feito as peças”.




Artesanato em E.V.A tem seus segredos. “Existe uma técnica para se cortar o E.V.A, não é qualquer um que sabe cortar. A primeira coisa, nunca se risca o E.V.A com caneta, sempre se deve utilizar um palito de churrasco ou alguma espécie de marcação. Depois de fazer um círculo, abro a tesoura inteira e, antes de fechá-la, abro de novo, encosto no último corte e rodo a folha de E.V.A, deixando a tesoura no lugar. Não é a tesoura que faz o movimento, mas a folha de E.V.A. Aprendi tudo sozinha, desperdicei muito material até descobrir. Experimentei. Existem muitos pequenos detalhes e segredos a serem descobertos”.

E, sorrindo, explica. “Não posso revelar tudo, aqui, só vindo nas aulas para saber”.



Tânia garante que é possível gerar renda própria com artesanato em E.V.A por conta do baixo custo do material utilizado. 

“O material básico é a placa de E.V.A, tesoura, palito de churrasco, cola e canetinha de retroprojetor, mais nada, apenas criatividade. Utilizamos fitas que ganhamos de um e outro. Para os sombreados, utilizamos giz de cera. Friso é para moldar os objetos que construímos, e, para isso, utilizamos chapinha de alisar cabelos. Tudo que a gente tem em mãos, nada caro, exorbitante, que não dê para elas, depois, em casa, ganharem dinheiro com isso”.











Reciclar e reaproveitar tudo é fundamental. 

“Utilizamos muito material reciclável, caixa de leite vazia, muito papelão, canudinhos, tudo que se pensar dá para se reaproveitar no nosso artesanato. Digo para as meninas: ‘arrebentou uma sandália, não joguem as pedras dela fora, porque elas servem para a gente fazer alguma coisa’. 

Já utilizamos muitos materiais diferentes como isopor e tampinhas de garrafas. Meu pai, por exemplo, é mecânico e faz ferramentas. Peguei um pedaço de ferro redondo, que serve para marcarmos ‘bolas’ (circunferências) nas placas de E.V.A. Tudo que ia para o lixo, utilizamos. E também a colaboração de amigos e familiares”.



E a variedade de peças e objetos construídos é infinita. 

“Não há nada igual ao outro. Já fizemos porta-bombom, bolo fake, centro de mesa para colocar em festas, lembrancinhas, chaveiros, capa de caderno, capa de caderneta de vacina, guirlanda, decoração de latas com vários motivos, potes organizadores. Dá para fazer muita coisa”, garante Tânia.




E os resultados alcançados com as alunas, com a proposta de geração de renda própria, já estão acontecendo. E o retorno para a professora? 

“Do começo do ano até agora, tenho 7 alunas que já estão fazendo para vender. Estão produtivas, fazem igual ao que faço. O retorno é maravilhoso. Escutar todos os dias ‘que professora maravilhosa’, fala sério, quem não gosta? Saber que esse trabalho faz diferença dentro das casas delas e para mim também, sem contar o relaxamento que temos juntas”.












Entre tantas alunas que já passaram pelas aulas de E.V.A, no núcleo Tancredo do Cidade Escola, existem casos especiais de transformação na vida dessas pessoas. 

“Uma delas chegou para mim, recentemente e disse: ‘me separei do meu marido’. O que mais escuto é isso, mudanças de comportamento com os maridos, porque elas acabam ganhando autonomia dentro de casa. Antes, só escutavam deles que não ajudavam, não faziam nada, que, às vezes, ajudavam, mas não eram valorizadas. Foi o caso dessa moça que se separou, tinha 2 filhos, teve de trabalhar, se virar, e foi fazer o E.V.A. O E.V.A mudou minha vida e está ajudando a mudar outras. Tudo mudou, aqui, consigo essa troca positiva entre as pessoas. Sou apaixonada pelo que faço. Vou dormir às duas horas da manhã e acordo as 5 e meia com o E.V.A”.



Simone e Tânia, em aula de E.V.A
E muitas outras formas de relações aconteceram não apenas com Tânia e suas aulas de E.V.A. Simone Ribeiro, uma de suas alunas, sabe bem o significado deste trabalho. “Tenho uma filha, Gabriela, que é ‘especial’, tem deficiência intelectual. Ficava na porta da escola, do lado de fora, todos os dias, das 13 às 17 horas, esperando ela terminar sua terapia. Descobri as aulas de E.V.A, assim, até que, um dia, conheci a Tânia. Nos aproximamos ainda mais por termos filhos especiais”.















A arte em E.V.A desenvolvida por Tânia e suas alunas acabou aproximando-a ainda mais de seu filho especial, Nicolas. 

“As encomendas que tenho para entregar, são todas feitas com ele ao meu lado, em minha casa. Ele também corta E.V.A, não da forma que teria de ser feito, mas, enquanto estou trabalhando, ele está ali, junto comigo. Ajudou muito no desenvolvimento dele, conversando muito, colocando desenhos, todo tipo de estímulos. Mostrava e perguntava a ele: ‘que cor é esse E.V.A?’. Eu dizia: ‘é azul’. 

Tudo que fazia com meu trabalho em E.V.A, tentava, de alguma forma, utilizar para estimulá-lo. Hoje, ele está muito bem desenvolvido. Se alguém olhar para ele, não dirá que é autista. Mas, é, muitas características. É uma luta. Todos os dias é uma vitória”.



Valeu a pena a luta de Tânia para tentar convencer seus familiares sobre a pessoa especial que tinham em casa. As relações mudaram. Trocar a enfermagem pelo artesanato em E.V.A, valeu a pena. 

“Todos me apoiaram em casa quando deixei de exercer minha profissão para seguir com o E.V.A, porque sabiam que estava fazendo isso para ficar ao lado do meu filho o tempo todo. Mesmo que não surgisse o E.V.A, continuaria como ADH, para estar ao lado dele”.






E se o E.V.A deixar um dia de existir dentro do Cidade Escola? A resposta é simples. 

“Se um dia não existir mais, talvez abra um negócio para mim. Talvez, procure minha área de formação, que é a enfermagem. Mas, só se o programa deixar de existir, porque esse é o meu projeto de vida. É isso o que gosto de fazer. Estou totalmente realizada”.

Não vai deixar de existir, Tânia. O artesanato em E.V.A, assim como as dezenas de atividades do Cidade Escola vão continuar, sempre com a proposta de transformação de vidas, como a sua, como as de toda a comunidade.